Corintianos transformam Toyota no Pacaembu e decretam 3ª invasão

"Se você for jogar no céu, morro para te ver jogar". A faixa estava lá, postada com altivez no topo da arquibancada do Estádio de Toyota nesta quarta-feira. O Japão não é o céu, é claro. Talvez fique até mais longe. Para ser mais exato, a 18.520 quilômetros de São Paulo, de onde saíram boa parte dos milhares que invadiram a terra do sol nascente. Quiçá o maior deslocamento de uma torcida de futebol jamais registrado para ver o egípcio Al Ahly sucumbir por 1 a 0, pela semifinal do Mundial de Clubes deste ano. Era o Corinthians em campo... e também na arquibancada.

Vamos deixar claro: o jogo não era no Pacaembu, que registrou com o clube paulista a maior média de público do Brasileiro deste ano, com 25.222 pessoas. Foi no Japão, a 30 horas de viagem de avião, que os alvinegros ultrapassaram este número: 31.417 estavam em Toyota, sendo a maioria deles corintiana. O que aconteceu nesta quarta-feira em Toyota vai atravessar gerações, que contarão com orgulho aos seus herdeiros o que se passou do outro lado do planeta. "Um milhão de corintianos atravessaram o mundo pelo Corinthians", dirão os mais exagerados, com ufania.

O dia começou cedo. Em Nagoya, em Tóquio, em Yokohama, em Kyoto, em Matsuyama, em Fukushima. Algumas das cidades japonesas que abrigam ou hospedaram os milhares de torcedores, forasteiros ou não, que foram ao Japão por uma causa. A epopeia corintiana se iniciou ainda com o sol nascendo justamente na terra onde faz isso melhor, após uma madrugada que foi inteira alvinegra. De folia. De farra. Eles iam para Toyota, que desde a manhã já tinha brasileiros em todos os cantos, do lado de fora de seu principal complexo esportivo. "Festa na favela", dizia uma faixa imensa à porta do estádio.

O Japão era uma terra ocupada. Em inglês, uma japonesa magra e pálida perguntou, assustada, à reportagem: "quem diabos são essas pessoas?". O ápice da saga corintiana no Oriente aconteceu ao crepúsculo. Enquanto o astro-rei dava adeus com um pôr-do-sol fenomenal, a ponte gigante que leva ao estádio vivenciou um momento inesquecível, quando milhares começaram a cruzar o trajeto rumo à arena. Tudo em preto e branco. Parecia a Avenida Pacaembu, conduzindo os fãs à Praça Charles Miller em uma noite de quarta-feira. Como em 4 de julho de 2012.

Guilherme brigou com a mulher. João Bragança deixou o aniversário do filho Lucas de lado. Mariana Castro terminou um namoro de três anos. Rosângela não foi ao casamento da irmã. Wagner não viu o neto nascer. João Paulo Ribeiro se demitiu de seu emprego de serralheiro. Takashi inventou a morte do tio para folgar no trabalho. Maria Castro abandonou o casamento. Cláudio de Lima sequer avisou à família. Gustavo foi sem ter onde dormir. Histórias ouvidas pelo Terra a caminho de Toyota antes do jogo. Histórias de devoção que nem parecem reais. Mas são.

Nas arquibancadas, os cerca de 40 torcedores do Al Ahly também não entenderam a uníssona vaia ao telão enquanto este mostrava o São Paulo, campeão do mundo em 2005. Nem os aplausos eufóricos por um reserva, o camisa 31, Romarinho. Coisas de corintianos. Nas tribunas, jornalistas japoneses apontavam ao setor onde estava a principal organizada paulista, atônitos. O gol era questão de tempo. E veio, aos 29min, com Guerrero. Coadjuvante de um espetáculo que acontecia além do gramado.

A massa alvinegra não parou de incitar. Nem com os termômetros perto de zero e muito menos quando o Al Ahly passou a dominar o segundo tempo. Nada os calava. Aplaudidos de pé pelos jogadores ao apito final. Era a terceira invasão corintiana, como em 1976 e em 2000, a diferença é que nunca a torcida ocupou outro país com tamanha mobilização. Um bando de loucos a quase 20 mil quilômetros de casa. Por que é preciso atravessar a Terra para conquistá-la? E talvez nem precise... O que essa gente de preto e branco fez já entrou para a história. De Itaquera. De São Paulo. Do Brasil. Da América. No Japão. Para o mundo. Talvez, em quatro dias, alvinegro. Do Corinthians.