De Koff a Portaluppi: Espinosa conta bastidores de Grêmio x Hamburgo

Valdir Espinosa não comparecerá a Arena do Grêmio neste sábado, mas garante que seu coração estará junto dos 60 mil gremistas privilegiados que acompanham o reencontro com o Hamburgo, 29 anos depois do título mais importante da história tricolor. Nesta entrevista exclusiva ao Terra, o comandante daquela conquista explica a maior razão para o sucesso máximo do clube: "ninguém dizia eu vou ser campeão, mas sim o Grêmio será campeão". 

Hoje comentarista esportivo da Rádio Globo do Rio de Janeiro, Espinosa dá detalhes sobre sua relação com Renato Portaluppi, que o Brasil conhece como Gaúcho, mas que para os gremistas é apenas Renato. Ou Portaluppi. O treinador do Mundial Interclubes ainda fala mais sobre Fábio Koff, presidente campeão mundial e da Libertadores em 1983, novamente da Libertadores em 1995 e incumbido de reassumir o clube em 2013, na era da Arena Grêmio. Koff, diz Espinosa, foi um dos grandes responsáveis por todo aquele sucesso de 83. Um dia inesquecível para os gremistas. A começar pelo próprio Valdir Espinosa. 

Confira a entrevista com Valdir Espinosa na íntegra:

Terra - O que se lembra sobre os momentos que antecederam o jogo? A noite anterior à final, o caminho para o estádio, a preleção...?

Valdir Espinosa - De tudo que aquele jogo representa. A final de uma temporada, era o sonho que todos tinham. Quem lá estava e também os torcedores, de que estávamos a pouco tempo de esse sonho se tornar uma realidade. Todo o preparo foi nesse sentido. Nós tínhamos uma equipe muito boa e acreditávamos. Havia também a expectativa do que ia acontecer no jogo, mas jogamos de igual para igual. 

Terra - Você teve a baixa do Tita, que saiu após a Libertadores para jogar no Flamengo. Como foi aquela perda e as substituições pelo Mário Sérgio e o Paulo César Caju?

Espinosa - Na época, o Brasileiro era no primeiro semestre e o Tita queria ir para o Flamengo. Ele tinha o sonho de ser o camisa 10, do lugar do Zico. Ele Tinha sido campeão da Libertadores e foi. Perdemos um jogador tecnicamente muito importante e já começamos a nos preparar para o jogo do Hamburgo. Não existia isso de hoje, de ligar a televisão e ver os adversários. Fui com meu preparador físico assistir a um jogo do Hamburgo contra o Werder Bremen, para conhecer. E logo depois as rádios vieram me perguntar sobre o jogo. 

Terra - O que você respondeu então?

Espinosa -  Eu disse que seria campeão se me dessem Mário Sérgio. Joguei com ele no Vitória, éramos amigos muito grandes e era um jogador contestado por todo mundo, brigão, problemático. Mas eu conhecia e falei com ele, falei "vou te indicar e quero que venha". A direção botou os dois pés atrás, mas aí sabendo disso fiz a pressão pública. Todos pressionaram e aí eles disseram, "se não dermos e o Grêmio perder, a culpa é nossa". Quando voltei, além do Mário Sérgio, me disseram também que tinha o Caju. E aí eu quis também. 

Terra - Um jogador como o Caju não poderia ser desprezado. Foi isso que você pensou?

Espinosa - É que o futebol gaúcho é de muita força e marcação, mas o futebol alemão da época também. Força contra força, eles teriam mais possibilidades. Tínhamos de contrariar e o que tinha de mais forte e entrar com a parte técnica. Por isso o Mário Sérgio e também o Caju. Com o Osvaldo, tecnicamente espetacular, mais o Renato, o Tarcílio, o De León vindo de trás, o Paulo Roberto, a qualidade crescia muito. Fechou aí a ideia de time. 

Terra - O Grêmio praticamente abdicou do Campeonato Gaúcho pelo Mundial. Já havia na época essa discussão sobre priorizar um ou outro torneio?

Espinosa - Com a rivalidade Gre-Nal, normalmente, se o Grêmio não é campeão, será o Internacional. Se você larga o campeonato, dá o título ao Inter. Mas levei essa ideia, porque os gramados do interior eram muito ruins e o jogo era mais forte. A pancada era mais forte. Então o time principal jogaria no Olímpico e os reservas no interior. Houve resistência grande, pressão da imprensa, mas tivemos um jogo de muita porrada em São Borja. Aí o presidente Koff concordou e disse que ia fortalecer a ideia. Então tudo se acomodou. 

Terra - Como era controlar a impetuosidade de um jovem como o Renato Portaluppi?

Espinosa - O Renato era tranquilo. Eu levei ele para o Grêmio, jogamos juntos no Esportivo. Indiquei e busquei ele em Bento Gonçalves. Tínhamos uma confiança enorme um no outro, coisa de filho para pai, qualquer coisa era olho no olho. Com todos jogadores era assim, na verdade. Era sem mandar recado, sem deixar para amanhã. Tínhamos uma cumplicidade muito grande. 

NR.: Anos depois, Espinosa se tornaria auxiliar técnico de Renato Gaúcho, já treinador. 

Terra - Aliás, você era um treinador jovem e em um grupo com alguns jogadores difíceis de lidar. Era possível se impor?

Espinosa - Eu havia jogado com alguns deles, outros havia enfrentado. Eu era um jovem, mas que queria vencer. E havia um detalhe, porque eu sou gremista. O torcedor também queria vencer. Aquele grupo criou uma identificação muito grande com o Grêmio, tanto que muitos permaneceram em Porto Alegre após a carreira. A opinião de todos era valorizada e assim faço até hoje, com olho no olho. O comandante não precisa ter chicote na mão. 

Terra - Você tinha jogadores feitos em casa, como o Renato e o Paulo Sérgio, e outros que praticamente surgiram no Grêmio, como o China e o Tarcísio. Isso ajudava para esse espírito da equipe?

Espinosa - Muito, isso ajudou demais. Com os jogadores da base já existia uma identificação. Cara, quando fomos para o jogo, não fomos pensando "vou ser campeão". Se pensava "o Grêmio vai ser campeão". Metade do Rio Grande do Sul é nosso e temos que dar alegria a essa metade, senão a outra metade vai ficar alegre. O que bato em cima até hoje é de ensinar os jogadores a amar o clube mesmo sem ficar 10 anos. Se vai ficar um ano, precisa amar o clube para poder jogar. 

Terra - Foi o momento mais marcante da sua vida?

Espinosa - Diria que tive vários momentos maravilhosos. Mas os três mais marcantes título carioca do Botafogo em 1989 e o Grêmio com a Libertadores e o Mundial. Eu costumo dizer que o Mundial foi o sonho realizado e o Botafogo foi um pesadelo que terminou após 21 anos. 

Terra - Como era o presidente Fábio Koff há 29 anos?

Espinosa - Ele também fazia parte dessa filosofia. Era o presidente e nós o respeitávamos como presidente. Tivemos um momento em que perdemos e ele mostrou apoio ao grupo. Era um respeito e um carinho que fazia a gente se aproximar. O trabalho dele foi muito importante no sentido de não ser o presidente fechado em uma sala. Você via o cara junto. 

Terra - Qual foi esse momento em que ele mostrou apoio ao grupo?

Espinosa - Nós jogamos contra a Ferroviária de Araraquara no Brasileiro e perdemos no Olímpico por 3 a 0. Eu cheguei em casa e disse "amanhã vou ser dispensado, vão me mandar embora". A torcida toda xingando, seria o normal. No domingo fiquei em casa e me apresentei segunda. Todo mundo me olhando desconfiado, sem cruzar o olhar. Eu fui para o vestiário e nem troquei de roupa. Me embosquei no vestiário e avisaram que o presidente ia descer. Pensei, bom, vão anunciar na frente de todo mundo.

E aí o presidente disse: "montei o time todo para ganhar a Libertadores e o Mundial. Daqui ninguém sai porque eu confio. Espinosa, troque de roupa e leve todos para o trabalho". Eu soube depois que algumas pessoas pediram minha cabeça e ele dise. Se querem demissões para dar satisfação, peçam demissão vocês. Isso era o presidente Koff. Acredito que agora ele possa fazer mais um sonho, de o Grêmio ser tricampeão da Libertadores. 

Terra - O que a Arena irá representar para o futuro do Grêmio?

Espinosa - O primeiro estádio foi na Baixada. Lá, o Grêmio foi conhecido pelo Rio Grande do Sul. Então veio para o Olímpico e ficou conhecido na América e no mundo inteiro. A terceira casa é mais bonita, mais moderna e não sei o que pode acontecer. Mas o que se espera é uma confirmação do Grêmio na América e no mundo. 

FICHA TÉCNICA - DECISÃO DO MUNDIAL INTERCLUBES

11/12/83 - Grêmio 2 x 1 Hamburgo

Estádio Nacional de Tóquio (Japão)

Árbitro: Michel Vautrot (FRA)

Gols: Renato aos 37min do 1º tempo; Schröeder aos 40min do 2º tempo, e Renato aos 3min da prorrogação

Cartões Amarelos: Mazaropi, Caio, Renato e De León (Grêmio) ;Stein (Hamburgo)

GRÊMIO

Mazarópi ;Paulo Roberto, Baidek, De León e Paulo César Magalhães; China, Osvaldo (Bonamigo e Mário Sérgio, Renato, Tarciso e Paulo César Caju (Caio)

Treinador: Valdir Espinosa

HAMBURGO

Stein, Wehmeyer, Hieronymus, Jacobs, Schroeder, Groh, Rolff, Magath, Hartwig, Hansen e Wuttke

Treinador: Ernst Happel