Chapa de executivos do Fla quer gestão moderna e Zico como consultor

Com um discurso centrado na promessa de uma gestão moderna tocada por um grupo de executivos bem sucedidos no mercado, o empresário Eduardo Bandeira de Mello desponta como favorito, segundo pesquisas do Ibope e do instituto GPP, na eleição do Flamengo marcada para a próxima segunda-feira.

Há um mês, ele nem era o nome da chapa azul para comandar o time rubro-negro nos próximos três anos. Bandeira de Mello foi a opção para substituir Wallim Vasconcellos, que teve a candidatura impugnada. Ele garante, no entanto, que nada muda. A promessa da chapa é um comando integrado, com decisões tomadas em conjunto pelos executivos.

Eduardo Bandeira de Mello é sócio do Flamengo desde 1978. Formado em administração, fez carreira no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), onde chefiou o departamento de meio ambiente. Sustenta que o grupo de executivos que integram a chapa tem competência para fazer com que o Flamengo possa conquistar vitórias semelhantes às obtidas nos anos 80, quando a geração comandada por Zico levou o Mundial Interclubes.

É justamente o maior ídolo da história do clube um dos trunfos da candidatura de Bandeira de Mello. Zico declarou apoio à chapa azul, e presidiria, segundo o candidato, um comitê gestor que vai indicar as diretrizes do departamento de futebol, cujo plano é que seja comandado por um executivo remunerado. "Com uma equipe dessas, não temos como errar", afirmou, confiante, em entrevista exclusiva ao Terra.

Por quê o sócio do Flamengo deve optar pela sua candidatura?

Bandeira de Mello: nós estamos trazendo para o Flamengo um grupo de executivos e empresários, que nenhuma empresa no Brasil, poucas no mundo, e seguramente nenhum clube tem. São pessoas altamente bem sucedidas nas suas atividades empresariais, rubro-negros apaixonados e que querem doar tempo, reputação e credibilidade para tentar tirar o Flamengo dessa situação. Pretendemos gerar recursos para serem investidos no futebol, nos esportes olímpicos, na Gávea, para que o Flamengo volte aos padrões de excelência que já teve no passado. Quem sabe até superá-los.

Daqui a três anos, como estará o Flamengo? É tempo suficiente para levar o clube a esse padrão de excelência que o senhor mencionou?

Bandeira de Mello: pode ter certeza que ele estará muito melhor do que está hoje. Claro que não dá para prometer que vamos chegar no máximo em um prazo de três anos, mas estaremos no rumo certo. Daqui a três anos, a conversa será totalmente diferente. O Flamengo certamente terá resgatada a credibilidade, não terá problemas para captar patrocinadores e contratar jogadores. Hoje, muitos resistem a conversar com o Flamengo pela fama gerada pelo clube de mau pagador, de descumpridor de compromissos. Isso tudo vai acabar, vamos dar um choque de credibilidade, de transparência, de governança, e o Flamengo vai ser outro.

Em toda eleição, os candidatos prometem colocar o Flamengo em um rumo perfeito, com gestão moderna, e o melhor cenário possível ao torcedor. Com sua candidatura, não é diferente. O que deve levar o torcedor a acreditar no discurso da chapa, que realmente o Flamengo terá um futuro brilhante pela frente?

Bandeira de Mello: acho que, especialmente, pelas pessoas envolvidas. Se for comparar as equipes das três candidaturas, todos vão ver que a da chapa azul é infinitamente superior. Para cuidar da dívida do clube, temos o professor Carlos Langoni, que presidiu o Banco Central e cuidou da dívida externa brasileira nos anos 80, quando ela era um dos problemas mais graves. Para o marketing, que hoje é uma vergonha, com um clube sem patrocínio master há mais de um ano e meio, e que executa ações desastradas como a do Ronaldinho, teremos o Luiz Eduardo Baptista, que é presidente da Sky, e uma das maiores autoridades em marketing no mundo. Com ele, temos o João Henrique Areias, que é o maior especialista em marketing esportivo do Brasil. Nosso vice de finanças será o Rodrigo Tostes, que é um executivo de renomada competência. Nosso vice de patrimônio será o Rodolfo Landim, ex-presidente da BR Distribuidora, e que hoje tem negócios próprios na área de petróleo. Nosso vice de esportes olímpicos será o Alexandre Póvoa, que não só é uma das figuras mais ilustres do mercado financeiro, como é ex-atleta do clube e um sócio laureado. Com uma equipe dessas, não temos como errar.

O Wallim Vasconcellos era o candidato original da chapa e teve a candidatura impugnada. Qual será o papel dele?

Bandeira de Mello: ele é uma pessoa altamente competente em tudo que se meteu até hoje na vida. Ele vai ser o diretor-geral, uma espécie de CEO do clube. Na formatação anterior da chapa, eu iria trabalhar com ele, na equipe dele, e hoje ele vai trabalhar comigo, demonstrando que a chapa azul é coesa, que vai trabalhar com administração compartilhada, sem vaidades. A presidência não é um projeto pessoal meu, como não era dele. Importante é estarmos juntos pelo Flamengo.

A palavra final será sua nesse modelo de administração?

Bandeira de Mello: o Flamengo tem um regime presidencialista. Tenho obrigações estatutárias, que vou assumir plenamente. O mais importante nesse nosso grupo é que vamos trabalhar com decisões em conjunto. Já estamos praticando isso nessa fase de campanha. Nosso norte principal é o amor ao Flamengo.

O Flamengo tem, notadamente, diferentes correntes políticas que sempre interferiram na gestão do clube. Além disso, até que ponto o estatuto do clube pode engessar esse modelo de administração moderna prometida por vocês?

Bandeira de Mello: reforma do estatuto é uma demanda que não é só nossa. Várias correntes do clube, inclusive que não nos apoiam, têm o anseio de mudar o estatuto, que já está ultrapassado. Pretendemos fazer uma reforma, vamos nomear uma comissão de reforma do estatuto, que vai ser presidida pelo nosso vice, Walter D`Agostino, que é desembargador e grande benemérito, uma figura acima do bem e do mal no clube. E isso terá participação de amplos segmentos, inclusive os que não estão nos apoiando nesse momento. Para nosso esquema de governança, não é necessária nenhuma mudança no estatuto. Podemos trabalhar com ele sem reforma do estatuto. Mas há outras questões que fazem da reforma uma necessidade.

Para o futebol, especificamente, que modelo de gestão pretendem implementar? Como será o futebol do Flamengo?

Bandeira de Mello: vai ser uma gestão profissionalizada. Vamos ter um diretor executivo, contratado, bem remunerado, e que vai ser responsável pelo dia a dia do futebol. Ele vai trabalhar sob orientações de um comitê gestor do futebol, que terá a presença de um vice de futebol, ainda a ser nomeado, a minha presença, e do Zico, que é nosso grande apoiador e inspirador. Ele vai nos ajudar na gestão do futebol. Inicialmente, em caráter não profissional, mas por amor ao Flamengo, ele vai trabalhar, presidindo, inclusive, esse comitê gestor.

O Zico deixou a seleção do Iraque e está profissionalmente livre. Há possibilidade de ele ter algum cargo efetivo na gestão?

Bandeira de Mello: eu e toda a torcida do Flamengo desejamos ter o Zico. Mas eu não conversei isso com ele ainda depois que ele se desvinculou da seleção do Iraque. Temos que respeitar a posição dele, pode ser que tenha algum compromisso, convite profissional. O Zico, ao contrário do Flamengo, sempre respeitou compromissos. Então, por enquanto, o que está combinado é que ele vai nos ajudar nesse comitê gestor. Se tiver disponibilidade para assumir outro cargo no Flamengo, com certeza não vamos deixar passar essa oportunidade.

O apoio do Zico é significativo, mas a chapa é suportada por ex-presidentes, como Marcio Braga e Kleber Leite. Ter esses apoios não contraria o discurso de vocês, de novos ventos para o clube?

Bandeira de Mello: esses ex-presidentes nos declararam apoio sem exigir nada em troca. Acredito que isso é uma atitude de grandeza deles. São ex-presidentes, pessoas que já passaram pela situação que vou passar, caso seja eleito. Eles estão acima de qualquer acordo fisiológico, toma lá da cá. São pessoas que serão ouvidas, caso a gente tenha necessidade, mas que não exigiram nada e não terão nenhuma ingerência no dia a dia do Flamengo.

Vencendo a eleição, qual será o primeiro ato, o que atacar de forma mais urgente?

Bandeira de Mello: tem tanta coisa... Diria que a parte financeira de curto prazo nos preocupa muito. O último balanço aprovado foi o de 2010, e assim mesmo com ressalvas gravíssimas. Basicamente dizem que os números que estão no balanço não são confiáveis. E tem toda a questão da dívida, que nem sabemos exatamente quanto é, pela inconfiabilidade das contas. Os compromissos de curto prazo são preocupantes. Sabemos que a atual administração pagou aos jogadores o salário de setembro, e poderá haver pendências. Fora compromissos com fornecedores e clubes, o Avaí está cobrando publicamente uma dívida relativa ao Renato Santos e ao Cléber Santana. Vamos ter que ter um plano de contingência para a situação financeira do Flamengo no curto prazo. Embora no futebol, tenha que ter um plano emergencial no curto prazo, para gerar recursos e reforçar o nosso time o mais rapidamente possível.

O planejamento do futebol não será feito totalmente por vocês caso vençam a eleição. Dá para esperar um primeiro ano de dificuldades?

Bandeira de Mello: o primeiro ano será o mais difícil, mas pretendemos gerar recursos para que possamos lidar com essa situação. Com certeza, vamos aproveitar para o próximo ano alguma coisa do planejamento da atual gestão, mas a partir daí começa esse esquema de profissionalização, com o comitê gestor. Mas espero, já na estreia do Estadual, estar com um time à altura dos anseios de nossa torcida.

A presidente Patricia Amorim declarou que não dá para transformar o Flamengo em uma espécie de Barcelona do dia para a noite. Até onde o Flamengo pode chegar? É possível chegar em um patamar próximo ao do clube espanhol?

Bandeira de Mello: dá para sonhar com alguma coisa parecida, sim. Se pegar o Barcelona em 2003, ele estava em uma situação bastante difícil. E com transparência, profissionalismo e competência, conseguiram transformar o clube na potência que é hoje. Claro que a situação da Espanha é diferente da do Brasil, mas temos uma torcida  muito maior do que a deles. Então, por quê não sonhar?