Filho de jogador: rotina envolve adaptação à educação estrangeira 

Desde 2007 no Inter, Guiñazú vive experiências distintas. Primeiro, acompanhou o filho mais velho ingressar em uma escola brasileira sem saber português. Cinco anos depois, vê o caçula iniciar a vida escolar no Brasil, totalmente adaptado, mas sem a influência argentina que ele gostaria que o filho tivesseFoto: Arquivo pessoal

Trocar de escola sempre exige um período para a criança se enturmar. Quando a novidade inclui mudar de país, a adaptação pode ser um pouco mais complicada. A experiência, contudo, costuma ser enriquecedora. Quem garante são jogadores de futebol que já têm filhos, para quem essa realidade é bem presente.

"Como atleta, tenho que estar preparado para tudo. Mudar de país tem benefícios, mas a preocupação que eu tinha era que mudaria toda a estrutura do Matias", afirma Guiñazú, jogador argentino contratado pelo Inter em 2007. Matias é o filho mais velho do volante colorado, hoje com 12 anos. O garoto já está adaptado ao Brasil, mas quando chegou, aos sete, encontrou problemas, especialmente com a língua portuguesa.

Quando chegam a um novo país, as crianças encaram dificuldades para se enturmar, geralmente em decorrência do pouco ou nenhum entendimento da língua local. Segundo a coordenadora do Ensino Fundamental I da escola em que Matias estuda em Porto Alegre, Magali Saquete Lima Moraes, o aluno chorava e sentia-se mal nas primeiras semanas no Brasil. "Como o problema não era de aprendizagem, assim que resolveu as dificuldades com a língua, ele só foi adiante", relembra. Após as aulas, ele ficava uma hora a mais na escola com a professora de espanhol para aprender mais rapidamente a língua portuguesa, primeiro preocupando-se com a fala e com a compreensão e, em seguida, com a escrita.

Hoje, a preocupação maior de Guiñazú é com o caçula, de cinco anos, que iniciou a vida escolar no Brasil. O volante colorado lamenta que o menino desconheça o dia a dia na Argentina e fale com mais naturalidade o português do que o espanhol. Para tentar compensar, em casa os pais falam a língua materna e comentam sobre a história argentina, com o cuidado para não confundir as crianças.

Na hora da matrícula, Guiñazú optou por uma instituição menor, que pudesse dar mais atenção a seu filho. Matias demorou pouco mais de um mês para compreender o português e hoje, segundo o pai, já conversa sem sotaque. "A gente sabe que tem que fazer esse esforço. Era uma mudança muito grande. Aqui, pelo menos, é perto da Argentina, tem muita coisa similar", afirma.

Para Mauro Galvão, filho teve "educação total" na Suíça 

Com jogadores brasileiros que se mudam para outra nação também ocorre o mesmo. Além da preocupação com a adaptação do filho, o ex-zagueiro Mauro Galvão, que passou seis anos no F. C. Lugano, na Suíça, desejava que o menino tivesse uma experiência rica. Quando mudou de país, em 1990, Diogo tinha cinco anos, e iniciou a pré-escola no novo país. "A minha preocupação era que ele aprendesse além da língua, que conhecesse coisas novas", diz o pai.

Diogo também se sentia incomodado fora do seu país de nascimento, mas, com o tempo, adaptou-se, fez amigos e hoje, já adulto e morando no Brasil, costuma visitar a Suíça. Mauro Galvão conta que percebeu muitas diferenças entre as escolas suíças e as brasileiras. Lá o ensino não é restrito às disciplinas convencionais, diz. Em geografia, por exemplo, os alunos aprendem sobre o bairro em que vivem, sobre assuntos mais próximos deles. "Eles querem formar uma pessoa que saiba seus direitos e deveres, tenha noções de sustentabilidade, de trânsito, como parar na faixa de segurança, enfim, é uma educação no senso total da palavra", conta.

A dificuldade de adaptação voltou à vida escolar de Diogo quando o pai retornou ao Brasil, em 1996, para jogar no Grêmio. Na época, seu filho ainda estava no Ensino Fundamental e não entendia algumas expressões em português e brincadeiras feitas pelos colegas. Contudo, o período foi importante para que o garoto aprendesse conteúdos relacionados ao Brasil, lacuna deixada pelo ensino na Europa. Mauro Galvão diz que poderia ter voltado ao País mais cedo, mas acreditava ser importante que Diogo terminasse a etapa de ensino já iniciada na Suíça.

Para ele, apesar das dificuldades de adaptação, morar seis anos fora foi positivo para a educação de Diogo, já que ele pôde vivenciar uma cultura diferente, além de ter aprendido as línguas italiana, alemã e francesa. "Tudo é importante, inclusive os conteúdos sobre o Brasil, mas a gente não poderia ter perdido uma oportunidade dessas", conclui.