Ex-vereador e zagueiro frustrado apostam em amizade por medalha 

"Há atletas que querem ser tão mais do que são, que acabam sendo menos do que poderiam ter sido", suspirou o técnico da BM&F Bovespa, Aristides Junqueira. O ex-vereador ainda leva jeito para os discursos, e com isso teceu enormes elogios a Mauro Vinícius da Silva, campeão mundial indoor do salto em distância no último final de semana, em Istambul. Duda, como é conhecido, reúne todos os atributos pessoais dos quais Aristides gosta em um atleta. Esta relação de amizade entre o ex-político e um zagueiro frustrado pode levar à conquista de uma medalha olímpica.

"É gostoso trabalhar com o Duda porque ele é muito meu amigo. Ele tem boa índole, não é estrela. Nosso dia-a-dia é bom", exaltou Aristides, que treinou o jovem campeão por um curto período de tempo quando ele tinha 13 anos. O menino então foi se dedicar ao futebol e virou zagueiro, mas não obteve sucesso. Aos 17, voltou para as pistas, novamente sob o comando de Tide, apelido do treinador. Com 25, é campeão mundial indoor e credenciado a subir ao pódio nos Jogos Olímpicos de Londres.

Mauro Vinícius não acompanhava a conversa quando Aristides exaltou suas virtudes. Mais tarde, longe do treinador, devolveu os elogios: "eu sempre começava e parava, mas depois voltei a treinar com ele, meu pai sempre foi amigo do Tide também. Hoje ele representa um pai para nós, até mais do que um amigo". Juntos, os dois têm até 27 de julho, data da abertura dos Jogos de Londres, para corrigir as falhas apresentadas na competição turca e buscar o sonho que dividem: um pódio olímpico.

Técnico político

Natural de Floreal (SP), Aristides se mudou com a família para São José dos Quatro Marcos (MT) para ajudar o pai a constituir uma fazenda. Acabou se envolvendo na política local: "no Mato Grosso não tinha nada, então para tudo que eu precisava, fazia campanha. Acabou que as pessoas votavam em mim sem nem pedir". Chegou a ser presidente da Assembleia Legislativa local. "Mas aquilo não era para mim, não. Você levava pedrada de todos os lados", relembrou.

Mesmo longe dos grandes centros, continuou trabalhando com atletismo e acabou por revelar três atletas olímpicos: Valdinei Abílio, Nelson Ferreira e Cida Barbosa. Também foi secretário de Esportes de Rolândia (PR) e professor universitário em Londrina. Em 1993, aceitou o convite de Sérgio Coutinho para deixar o Mato Grosso - e a política - para trabalhar na Funilense, clube que se tornaria BM&F e, mais tarde, se fundiria à Bovespa.

"Ele deixou para trás uma carreira, tinha potencial para ser prefeito. Era um jovem promissor", disse Coutinho, atualmente diretor do clube paulista. "Dei a ele a palavra de que enquanto eu ficasse, ele também ficaria", completou. Nesta terça-feira, os dois estavam no auditório da BM&F Bovespa, no centro de São Paulo, parabenizando Mauro Vinícius da Silva, um ex-zagueiro que também abriu mão de algo para se dedicar ao atletismo.

Zagueiro frustrado

Em Presidente Prudente (SP), sua terra natal, Duda tentou ser zagueiro e lateral em escolinhas de formação. "Uma vez até brinquei falando que não fui eu que escolhi o atletismo, mas o atletismo que me escolheu", relembrou o saltador. "Como todo garoto, queria jogar futebol. Mas tive uma velocidade maior que a dos outros meninos da minha idade e acabei parando nas pistas", contou Mauro Vinícius. Segundo Aristides, ele era tão rápido que passava da bola durante as partidas.

O garoto magrelo também gostava de andar de skate, esporte que, segundo as suspeitas do técnico, originou uma lesão que quase o afastou definitivamente das disputas. "Quando ele tinha 13 anos, caiu de skate e bateu o joelho direito. Acho que ali já não rompeu direito, ficou debilitado", contou. No final de 2010, o atleta estava fazendo um exercício dorsal quando o ligamento cruzado do local se partiu. "Eu salto com a perna esquerda. Essa foi a minha sorte", disse Duda.

Ele se recuperou em tempo recorde, voltou às pistas em abril e, em setembro, cravou a melhor marca da carreira até então: 8,27 m. O resultado garantiu a classificação para a Olimpíada de Londres, destaque que talvez não alcançasse jogando como zagueiro nos gramados do Brasil. "Nunca desisti do atletismo. Deu muito certo", exaltou, aos risos. Ao lado de Aristides Junqueira, agora começa a sonhar com a medalha olímpica.