Iluminado, Cristóvão relata cotidiano de estrela guia vascaíno

Naquela tarde de domingo, Cristóvão Borges estava nas arquibancadas do Engenhão quando viu o amigo Ricardo Gomes partir do estádio de ambulância, vítima de um AVC hemorrágico. Assumir a equipe naquelas condições só não foi mais duro do que assumir por todo o ano. O silencioso homem que comanda o vice-líder e candidato ao título, Vasco da Gama, ainda se lembra bem quando foi informado de que seria treinador de verdade pela primeira vez. Ele conta nesta entrevista ao Terra.

"Estava no hospital e o Roberto (Dinamite) e o (Rodrigo) Caetano me chamaram e comunicaram que eu iria assumir. Falei 'tudo certo, vamos lá'. Eu fazia uma ideia de que poderia acontecer porque eu era o assistente", conta antes de descrever a sensação. "Foi um negócio assustador. Estávamos em choque, mas teve uma satisfação. Meu amigo estava lá correndo risco de morte e era a única coisa que eu poderia fazer com os jogadores", refletiu.

Depois de 11 vitórias, 7 empates e seis derrotas, ele já pode se orgulhar bastante de seus feitos, sobretudo porque fez sem a interferência do principal mentor. "O Ricardo se recusa a ajudar. As pessoas ficam muito curiosas sobre isso, mas é como criar um filho. Se você proteger muito, ele não vai saber se virar quando estiver sozinho. Não adianta ficar discutindo com ele se na hora do jogo não vai estar ali para falar".

O andar silencioso, o gestual discreto e a voz pausada do Cristóvão treinador têm muito a ver com essa trajetória pelo Vasco. Se tudo isso só aconteceu graças a Ricardo Gomes, natural para o atual técnico que as coisas voltem ao devido lugar para 2012. "Estamos aqui esperando por ele".

Confira a entrevista exclusiva de Cristóvão Borges ao Terra:

Terra - Você teve uma história bonita no Corinthians. Como foi essa passagem como jogador?

Cristóvão Borges - Foi muito bom para mim porque dei um salto na minha carreira quando cheguei em 1986. Eu estava evoluindo bastante na carreira e tive uma cirurgia no joelho que me deixou um ano inteiro parado em 81. Meu melhor momento depois foi no Atlético-PR, fui o melhor jogador do Campeonato Paranaense e isso despertou o interesse do Corinthians.

Cristóvão jogou no Corinthians entre 1986 e 87: ao todo, participou de 58 jogos e teve 27 vitórias, 20 empates e 11 derrotas. Ele também marcou 13 gols. Os dados são do Almanaque da Placar.

Terra - Como foi defender as cores do Corinthians?

Cristóvão - Lá eu pude me confirmar como jogador. O Corinthians é aquela coisa, tem uma torcida sensacional, é maravilhoso. É muito grande, muito forte. Por lá tive momentos importantes e joguei do lado de alguns grandes jogadores.

Cristóvão chegou a atuar ao lado de Biro-Biro e Casagrande no Corinthians. Fez gol importante, na semifinal do Campeonato Paulista de 1986 contra o Palmeiras, mas a classificação para a disputa do título escapou nos instantes finais. A Inter de Limeira levaria a taça naquele ano. O volante ainda seria tricampeão gaúcho pelo Grêmio em 87-88-89.

Terra - Quando você conheceu o Ricardo Gomes e quando começou essa amizade?

Cristóvão - Conheci ele no Fluminense. Sou mais velho que ele por cinco anos, jogava lá e ele subiu depois para os profissionais. Nos conhecemos nos treinamentos, mas ainda não tinha afinidade nessa época. Depois, ele seguiu carreira fora do Brasil e continuei aqui. Ficou muito tempo fora... nos reencontramos uns oito anos depois, já na Seleção.

Nascido em Salvador, em 9 de junho de 1959, iniciou a carreira no Bahia. Aos 20 anos, se transferiu para o Fluminense. Ainda sem Ricardo Gomes, que só chegaria aos profissionais dois anos depois, conquistou o Carioca de 1980. Por ironia, em final contra o Vasco.

Terra - Foi quando vocês tiveram o primeiro contato mais próximo?

Cristóvão - Sim, porque em 1989 participei de todas as convocações, só não fui na última, que foi para a Copa de 90. Nos reencontramos mais vezes, convivemos juntos e aí já tinha uma amizade. Ele continuou a jogar na Europa, depois parou de jogar e começou a carreira de treinador por lá.

Aos 30, Cristóvão já atuava pelo Grêmio, em 1989, e foi campeão da Copa América como reserva ao lado de Ricardo Gomes. Bebeto foi o artilheiro e Romário marcou o gol do título.

Terra - Como surgiu a ideia de trabalhar juntos?

Cristóvão - Quando ele voltou para o Brasil, nos reencontramos em um curso que o Parreira e o Zagallo estavam dando. Ele foi convidado a falar sobre um sistema de jogo que usavam muito na Europa. Nesse dia, nos reencontramos, conversamos e combinamos de trabalhar juntos. A partir daí, começamos no Vitória, estivemos no Juventude, Guarani, Coritiba e na Seleção Olímpica.

Ricardo fez grandes trabalhos com Cristóvão justamente a partir do Vitória, campeão baiano e da Copa Nordeste em 1999. Pelo Juventude, em 2001, foi quarto lugar na primeira fase do Brasileiro e acabou eliminado na fase seguinte pelo Grêmio. Em seguida, assumiram juntos a Seleção Olímpica, a pior passagem de Ricardo como treinador.

Terra - Por que você não esteve com ele no São Paulo?

Cristóvão - Quando ele foi para França, não pôde levar a comissão e o Toninho Cerezo então me convidou para ir com ele para os Emirados Árabes. Fiquei três anos com ele e, quando chegou para o São Paulo, eu ainda estava lá. Ele me convidou para ir para o São Paulo, mas não pude porque ainda tinha um ano de contrato. Quando voltei, já tinha saído.

Terra - Qual foi o momento mais difícil no Brasileiro?

Cristóvão - Foi logo no começo. Primeiro o que aconteceu com ele, que foi muito duro, sofrido. E aí depois disso ter recebido a incumbência de substituí-lo não foi fácil, eu sabia da exigência que ia ter, da pressão e de ter que dar continuidade ao que vinha dando certo. Isso não é fácil, é uma responsabilidade grande. Nas primeiras semanas foi muito difícil.

Terra - Superado o baque pelo trauma e a missão recebida, qual foi a maior barreira?

Cristóvão - A gente teve aquilo no domingo e, no primeiro jogo (contra o Ceará), conseguimos ganhar na quarta. Mas no segundo, a gente levou uma goleada do último colocado (4 a 1 contra o América-MG). Então vieram as dúvidas, que já eram normais de acontecer, e tive um peso que convivia comigo o tempo todo. Tudo aquilo era natural e criou dúvidas a todo instante. Esse foi um momento muito complicado.

Terra - Por que você acha que as coisas aconteceram bem?

Cristóvão - Existia uma energia boa e uma vontade muito grande. Conversamos muito aqui durante a semana para isso e conseguimos resolver as coisas. O Vasco tem um grupo muito bom, um grupo muito forte e que se gosta bastante. Esse grupo amadureceu muito com a Copa do Brasil, que foi sofrida também. E aí deu para segurar as coisas.

Terra - Qual a chance de você aceitar um convite e ser treinador mesmo, no Vasco ou em outra equipe?

Cristóvão - Fui muito perguntado sobre isso. Continuo pensando que o fim de semana está muito próximo e o Brasileiro vai acabar. Isso foi uma grande missão para cumprir, espero que dê tudo certo e a gente seja campeão. Meu maior desejo é de ganhar. Aprendi bastante com ele (Ricardo), o que sei aprendi convivendo com ele, trabalhando. A gente vai fazer tudo o que der, estamos aqui esperando por ele. Estamos felizes por dar continuidade e vamos procurar fazer isso até a volta dele.