Dos traumas à luta pela taça: Corinthians e Vasco refazem a história

Até outro dia, eles estavam na Série B, mas isso já é definitivamente um passado muito distante para corintianos e vascaínos. Candidatos ao título nacional que se decide neste domingo, os dois times escrevem um 2011 com histórias de vexames marcantes, crises, superação, renascimento e roteiros que orgulham seus torcedores. Corinthians ou Vasco: qual será o campeão brasileiro?

Crises e vexames históricos no início do ano

O Corinthians começou o ano amaldiçoado por um revés improvável. Contra o modesto time colombiano do Tolima, o clube paulista sucumbiu ainda na fase de acesso à Copa Libertadores e deu adeus ao torneio continental sem sequer ter ingressado nele de fato. Foi o primeiro vexame desse tipo para uma equipe brasileira. Eliminado na Colômbia, o Corinthians iniciou 2011 longe da perspectiva de ser campeão de alguma coisa.

O fiasco continental deu lugar a depredação, crises e um desmanche. O filme das Libertadores de 2000 e 2006 voltou a passar no Parque São Jorge, com a maior torcida do estado revoltada. Mas, desta vez, a história seria diferente. Apesar do adeus de Ronaldo, que se aposentou, e Roberto Carlos, que partiu para a Rússia, a diretoria manteve o treinador Tite e a base do time para a sequência da temporada. Jucilei também foi negociado para a Europa e a base de 2010, já sem William e Elias, se desmanchou de vez.

No Rio de Janeiro, os rivais do Vasco também tinham motivo para sorrir nos primeiros meses do ano. Quando Ricardo Gomes chegou, já no início de fevereiro, a equipe havia perdido para Resende, Nova Iguaçu e Boavista, o que derrubou PC Gusmão e ainda provocou a dispensa de Carlos Alberto. Felipe também quase foi liberado, mas recebeu voto de confiança. O interino Gaúcho foi outro a decepcionar e, além de perder para o Flamengo, empatou em casa contra o Volta Redonda. Foi confirmado o pior início vascaíno em um Carioca.

O fim das tempestadas e a semente para o sucesso

Ricardo Gomes chegou desacreditado a São Januário. Apesar da recuperação com o São Paulo no Brasileiro de 2009 e a vaga na semifinal da Libertadores, ficou com fama de treinador limitado no Morumbi. No Vasco, provaria suas virtudes e, três partidas depois, eram três vitórias na sequência e incríveis 18 gols marcados. Apesar da derrota nos pênaltis contra o Flamengo, na decisão da Taça Rio, havia a semente de uma reação sendo plantada.

No Corinthians, as coisas caminhavam de maneira parecida. A ousadia de manter Tite renderia frutos, mas não imediatamente na sequência. O consistente time formado por ele para o Campeonato Paulista não foi páreo para o forte Santos, futuro campeão da Libertadores, e acabou vice, mas ganhou moral ao eliminar e jogar o Palmeiras na crise.

Ainda no aguardo por reforços, a equipe se fortaleceu para o Brasileiro. Com os esforçados Edenílson e Weldinho e os experientes Alex e Emerson, a equipe superou até a decepção de perder Adriano, com lesão grave no tendão de Aquiles, antes mesmo de ele estrear. A perda daquele que, se esperava pudesse ser a maior estrela, não fez surgir nova crise.

Sem grandes astros, mas com uma defesa firme e um time coeso e mordedor na marcação, o Corinthians reescreveu com Tite a história da Série A. No total, foram nove vitórias e um empate nas 10 rodadas iniciais, o que espantou o Brasil e passou a ideia de que o Brasileiro poderia se definir muito cedo.

Em paralelo, o Vasco voltou a sentir o sabor de uma grande conquista. A exemplo do próprio Corinthians no ano anterior, a equipe de Ricardo Gomes arrancou para o título da Copa do Brasil de maneira quase inquestionável. Náutico, Avaí e, por fim a sensação Coritiba, foram atropelados por aquele que ficou chamado de "Trem Bala da Colina", uma referência ao Flamengo, campeão carioca invicto e intitulado "Bonde do Mengão sem freio".

A mais bela história do Campeonato Brasileiro

Quando o primeiro turno do Brasileiro chegou ao fim, o Corinthians tinha 37 pontos e o Vasco, empatado com o São Paulo, somava 35 pontos e ocupava a quarta posição, atrás ainda do Flamengo. Mas foi justamente na última rodada do turno que um grande drama atordoou São Januário. Ricardo Gomes, em meio ao clássico contra o Fla, teve um AVC hemorrágico, deixou o Engenhão de ambulância e flertou com a morte.

Cristóvão Borges, que jamais imaginou poder virar técnico, assumiu no susto com 19 rodadas do Brasileiro pela frente. Enquanto a equipe arrancava em campo e até liderava a competição em alguns momentos, Ricardo se recuperava na base da fisioterapia. Essa troca de energia entre treinador, elenco e torcida escreveu a mais bela página na história deste Brasileiro. Semifinalista, por pouco o Vasco também não chegou à decisão da Sul-Americana.

Provações também apareceram no caminho do Corinthians, que chega na última rodada com vantagem para levar o título. A equipe caiu de produção e, depois de derrota contundente para o Santos, as cornetas voltaram a soar em uníssono contra Tite. Andrés Sanchez teve pulso firme e, depois de empatar fora contra São Paulo e Vasco, os corintianos voltaram a jogar como líderes.

O treinador teve coragem para barrar Jorge Henrique e sobretudo Chicão, ex-dono da braçadeira de capitão. O Corinthians, de vez, incorporou a alma do clube e passou a jogar com raça. E com a alma. Emplacou viradas espetaculares, vitórias suadas nos últimos minutos, derrotas vendidas a custo caro e muito sofrimento.

A equipe de Tite é a que mais virou jogos neste Brasileiro (seis), é a que mais liderou (26 rodadas) e a que teve mais sucesso em confrontos diretos diante dos primeiros colocados. É a favorita ao título.