Atrás do tri olímpico, Scheidt inicia cruzada para superar Torben

A temporada 2011 de Robert Scheidt com o parceiro Bruno Prada é fantástica até aqui: líderes do ranking mundial da Classe Star desde julho de 2010, eles venceram oito dos 10 torneios que disputaram e agora têm um objetivo muito claro, que é o Mundial da Austrália, a ser realizado no fim do ano. Evidente que, no fim das contas, Scheidt pensa mesmo é em Londres 2012.

É na capital inglesa que ele pode se tornar o único brasileiro tricampeão olímpico, possibilidade que se abriu com o anúncio recente de Torben Grael e Marcelo Ferreira, que se disseram fora da luta por vaga nos Jogos 2012. "Me surpreendeu um pouco", admitiu Scheidt em entrevista exclusiva ao Terra. Por ora, ele permanece ao lado de Torben, Marcelo, Adhemar Ferreira da Silva e de Giovane e Maurício, do vôlei. Todos com dois ouros.

Depois de bater na trave em Pequim, há três anos, Robert Scheidt sabe que Londres é uma possibilidade concreta para ele e Bruno Prada, hoje absolutos na Classe Star. A caminho da sexta olimpíada dele, Scheidt, 38 anos, é só motivação. "Continuamos brigando muito na água". Ao Terra, ele fala sobre Lei de Incentivo Fiscal, Torben Grael e muito mais.

Confira a entrevista com Robert Scheidt na íntegra:

Terra - Como você encarou a decisão de o Torben Grael desistir dos Jogos de Londres?Robert Scheidt - No primeiro momento, não posso deixar de dizer que me surpreendeu um pouco. Ele vinha treinando bastante no início do ano, foi para Miami e teve resultados bons. Respeito a decisão dele. Já foi para seis Olimpíadas, deve ter os motivos dele e está em um momento de vida diferente. Ele pode aparecer na seletiva, levar o barco para Búzios e tentar uma vaga.

Terra - Isso muda seu planejamento?Scheidt - Se realmente decidir que não vai, claro que um caminho se abre para nós. Nunca contamos com isso: contamos com a disputa com ele e o Lars (Grael), que também é um grande atleta e concorrente nosso, então, para a gente, é claro que se abre um pouco mais. Sempre aprendi muito com ele, tanto contra quanto no barco grande com ele, como velejei também.

Terra - A desistência dele abriu uma discussão em torno da falta de apoio à vela. Você recebe mais incentivos que os outros concorrentes de classe. Como vê a questão do apoio em sua modalidade?Scheidt - Realmente o apoio pode ser melhor, mas se eu analisar da primeira caminhada olímpica, em 1996, isso vem evoluindo. Como tem que evoluir mesmo, porque todos os países evoluem. Melhorou bastante para Sydney (2000), Atenas (2004), um pouco mais para Pequim (2008), teve a Lei de Incentivo e melhorou bastante.

Terra - Mas ainda é algo mais voltado aos atletas top, não?Scheidt - Não estamos no nível de apoiar mais de um atleta por classe, que seria o ideal. Recebemos (Scheidt e Prada) o maior apoio nesse ano bem crucial para a campanha pré-Olimpíada e ficar nesse lugar faz grande diferença no nível de apoio que tivemos. Viajamos para onde quisemos, tivemos o barco e um técnico que foi muito importante para nós. Estamos sem dever nada para potências que disputam, como Suécia, Inglaterra, Nova Zelândia e Austrália, entre outros.

Terra - Chegar a esse nível exige muitos bons resultados. No início foi mais complicado?Scheidt - O apoio privado me ajuda muito porque não preciso me preocupar em ter trabalho para pagar a minha vida, minhas custas, família, enfim. Se conseguir receber o apoio da Confederação para viagem e as despesas, você equaliza a vida e justifica ser um atleta profissional. Mas chegar nisso é difícil, o patrocínio privado vem para quem tem títulos e renome. Até chegar nisso é pelo esforço próprio, você recebe alguma coisa mas não é suficiente para a vida e é uma encruzilhada bem comum na faixa de 20 e poucos anos que mistura a decisão profissional e esportiva. Passei por isso e poderia ter ido para a administração de empresas.

Terra - A Lei de Incentivo ao Esporte melhorou as coisas?Scheidt - Entendemos de a iniciativa privada não investir (em atletas de menos renome), é normal. A Lei de Incentivo é muito boa, tem ajudado muito, mas muitas empresas só querem usar as leis de incentivo e isso tira oportunidades de alguns atletas.

Terra - Você tem torneios na Itália e o Mundial na Austrália. São os mais importantes nesse fim de ano?Scheidt - O Campeonato Italiano vai ser de muito alto nível, porque os ingleses vêm, os suecos treinam aqui, tem alguns alemães e suíços, por isso um campeonato bem internacional. Também há um evento em Búzios de 28 de outubro a 2 de novembro, em que vamos fazer treinos. Depois embarcamos para a Austrália, que é um Mundial valendo vaga olímpica. É o campeonato mais importante do ano, que tem sido excelente para nós.

Terra - Você está convicto de que a Classe Star fará parte dos Jogos do Rio?Scheidt - Existe a possibilidade e não está totalmente fora de cogitação. Será um processo que não é para agora, não é algo que vai acontecer antes de Londres, mas é possível reverter esse quadro para 2012. É algo mais politico que técnico e, com o Brasil sendo sede e a Star tendo força no Brasil, a gente pode pensar em uma mudança. Isso é acréscimo de medalhas na vela (brasileira).

NR: O Conselho da Federação Internacional de Vela (Isaf) decidiu por excluir a Classe Star do programa olímpico de 2016. O Comitê Organizador, entretanto, pode solicitar o retorno ao programa.

Terra - A vida útil do atleta da vela é diferente de outros esportes. Como está seu físico e motivação, principalmente?Scheidt - Estou me aproximando dos 40 anos e da quinta Olimpíada, mas eu ainda trabalho muito o físico, que dá um diferencial na Classe Star. Com a idade você sofre mais lesões, a recuperação entre os treinos é mais lenta e precisa ter cuidado para não abusar demais e você se machucar. Quando estamos na água, queremos fazer o barco andar mais rápido e continuamos brigando muito na água.

Terra - Você e o Bruno atravessam um grande ano. Isso dá mais segurança?Scheidt - A motivação está muito alta, porque vimos que temos chances reais. Nosso principal rival inglês vinha se sobressaindo no ano passado e esse ano nós o derrotamos duas vezes na raia que ele conhece muito bem.

Terra - Ultrapassar o Torben Grael em ouros olímpicos é algo que te dá mais motivação?Scheidt - Não fico imaginando isso, a minha motivação é fazer o melhor possível. Não podemos viver muito do que fez, mas do que pode fazer na frente e tenho muito orgulho do que fiz no esporte, de quatro medalhas olímpicas, sendo duas de ouro. Não coloco isso de quebrar recorde: se acontecer, ótimo, mas minha vontade e do Bruno é chegar em uma medalha em Londres. Se conseguir quebrar esse recorde, melhor. Se não der, a vida continua.

Terra - Você não irá ao Jogos Pan-Americanos, mas já participou. Qual a importância desse evento para os brasileiros?Scheidt - É muito importante, porque ele pega atletas que ainda não participaram do Pan. Talvez o Bruno Fontes, o garoto do Sniper (Gabriel Borges) e o Pan é uma Mini Olimpíada. Você acaba passando pelas sensações que vai ter em termos de Vila Olímpica, cerimônia de abertura, medalhas. É um grande teste e para mim, em 1995, acrescentou muito. Tecnicamente não é de altíssimo nível, porque são os sul-americanos.

Terra - A vela brasileira pode ter medalhistas de ouro quando você e o Torben deixarem de competir?Scheidt - Tivemos a grata surpresa no evento teste (realizado recentemente em Londres) de ficar próximo de mais duas medalhas. A Fernanda (Oliveira), que já é medalha de bronze em Pequim e esteve próxima de bronze no evento teste. O Bruno (Fontes) vem evoluindo na parte física, estava entre os 10 e agora está entre os cinco. Se estiver em uma semana boa em Londres, pode pegar medalha. O Bimba (Ricardo Winick) teve um ano irregular de resultados, mas pode crescer para o ano que vem. Esses estão mais perto de uma briga de medalha.

Terra - Quais os momentos olímpicos mais marcantes que você já teve?Scheidt - Há momentos muito felizes e outros nem tão felizes. Os dois momentos mais felizes, claro, foram os dois ouros olímpicos. A primeira ainda jovem, inexperiente, e foi emocionante ganhar (Atlanta, em 1996). A segunda, por ser o bicampeonato, em Atenas (2004), e depois do Ademar Ferreira da Silva, foi maravilhoso. Em Sydney (2000), a frustração porque estive próximo do ouro, aconteceu uma regata muito dura e perdi o ouro. Saí com a prata, que não é ruim, mas ficou um gosto amargo.