Em clima de final, festa da vaga olímpica brasileira cala argentinos

"A estos p... le letenemos que ganar" cantava em coro a torcida argentina no Estádio Poliespotivo Islas Malvinas. Mal sabiam eles que a Argentina passaria sufoco para ganhar de Porto Rico no jogo seguinte a Brasil e República Dominicana valendo as vagas para Londres 2012. Não era a final do campeonato, mas foi como se fosse, com direito a uma espera interminável pelo fim do tempo regulamentar da partida. Com poucas, mas suficientes cestas na frente, o Brasil só precisava que o jogo acabasse.

Talvez a torcida argentina não soubesse, mas o fim daquele jogo não era o fim daquele jogo. Era o fim de um jejum de 16 anos que o Brasil remoía dentro do estômago. Especialmente alguns jogadores que atuam juntos há mais de uma década pela Seleção Brasileira, como acontece na geração dourada, só quem sem colher os louros. Com a proximidade do fim da partida, Tiago Splitter provocava o público querendo mais hostilidade.

Com o término do jogo, o que se viu foi um Marcelinho Machado, o melhor em quadra, sendo engolido pelos braços dos colegas de elenco. Ao lado de Guilherme Giovannoni, Alex Garcia, Marquinhos, Nezinho, Marcelinho Huertas e o próprio Tiago Splitter era a cara de uma geração que estava prestes a terminar seu ciclo sem a vaga olimpíca. Mesmo que tenha conquistado vários títulos importantes para o basquete brasileiro, a ausiência de uma Olimpíada ofuscava qualquer brilho vindo da Seleção Brasileira. De longe se via uma Marcelinho Machado que não conseguia conter o sorriso e muito menos as lágrimas.

No banco, o discreto Rubén Magnano tentava segurar as lágrimas, mas como não se emocionar com tantos jogadores experientes chorando feito crianças e tantos jovens atuam em quadra como veteranos? Até José Gediel do Nascimento, o Gegê, mordomo da Seleção Brasileira teve seu momento em quadra: franzino, ele levantou o técnico argentino que com menos de dois conseguiu levar o Brasil de volta às Olimpíadas após 16 anos.

A festa dos brasileiros em quadra era tanta que dado certo momento, os xingamentos, as vaias, tudo aquilo que os brasileiros já estavam a escutar no Pré-Olímpico de Basquete Masculino disputado em Mar del Plata sumiu. A felicidade brasileira era tamanha que finalmente o torcedor brasileiro, representado por muitos dos familiares dos jogadores e por alguns fãs pode cantar. Finalmente, se escutava, em alto e bom som, um "ole, ole, ole, Brasil, Brasil". Era o grito da vitória engasgado há tantos anos na garganta.

Na zona mista não foi diferente. Augusto César Lima Brito, um dos novatos dessa Seleção, passou voando duas vezes com a bandeira do Brasil. Todos passaram com um sorriso no rosto ainda avermelhado e os olhos ainda marejados. Alex Garcia, o capitão dessa Seleção campeã, só dizer que não conseguiria falar nada além de "estou muito feliz". E de que esse era o dia mais feliz de sua vida. Eufórico, o capitão afirmou que sonhava em terminar sua passagem pela Seleção com a vaga e que sim, marcava a história do basquete brasileiro com essa conquista após 16 anos.

Quanto ao jogo do domingo, a final do campeonato, Alex brincou: "que final?", despertanto o riso de todos na zona mista. "Vou arrumar um clone para vir no meu lugar. Não, sabe o que a gente vai fazer? Vamos colocar o uniforme no Rubén, no Neto, no Demétrius, no Vanderlei, no preparador físico, que é forte, tipo um pivozão, o Gege de armador. Deixa os caras jogar aí e a gente vai para a casa. A final era esse jogo, amanhã deixa os argentinos fazerem a festa deles", brincou Alex Garcia.

Marquinhos, outro veterano da Seleção Brasileira, que passou por alguns percalços no Pré-Olímpico disputado em Las Vegas, em 2007 contou que não conseguia falar ao final do jogo. "Euforia total no vestiário, um olhando no olho do outro", contou. "Eu já não conseguia mais dormir direito, o tempo todo pensando, são 15 anos, vem todo esse peso", disse na zona mista. Com a vaga olímpica conquista, Marquinhos agora vai ter que cumprir a promessa que fez a mulher de levá-la para Londres.

Mesmo com toda a formalidade de uma coletiva de imprensa da FIBA Americas, os jogadores brasileiros continuaram festejando enquanto Rubén Magnano, Marcelinho Machado e Marcelinho Huertas atendiam os jornalistas. Enrolados em uma bandeira do Brasil, os jogadores logo trataram de colocar uma bandeira do Brasil sob os ombros de Magnano. O clima era mais do que de festa, era uma comemoração entre amigos que teve direito a homenagem de Huertas para Marcelinho Machado e a brincadeiras com o Rubén sobre a comemoração que poderiam fazer a noite e o jogo deste domingo, contra a Argentina.

Na entrada para o ônibus que os levariam para o hotel Gran Provincial, mais uma momento de festa. A torcida brasileira, pequena, porém fiel, finalmente podia comemorar com seus jogadores. Familiares de diversos atletas, mães, pais, irmãos, abraçavam todos como se fossem todos de uma única família. E foi aos gritos de "guerreiros" que os brasileiros deixaram o Estádio Poliesportivo Islas Malvinas com a única vitória que buscavam desde 4 de no início da preparação, alguns desde 1999: uma vaga para os Jogos Olímpicos. O jejum era tanto que o Brasil entrou no esquema ganha um leva dois: já está com o passaporte carimbado para Londres 2012 e Rio de Janeiro 2016, como anfitriã.