Jorginho lista 10 mandamentos e abre caminho com a "Barcelusa"

Nem mesmo Jorginho poderia esperar tanto e ele mesmo admite. A Portuguesa, sensação da Série B, emplaca 10 vitórias e três empates nas primeiras 15 rodadas. É líder absoluta e um time que tem tudo a ver com o que treinador gosta. Dedicação, futebol ofensivo e intensidade máxima. Tantos êxitos já fizeram surgir o apelido que Jorginho detesta: "Barcelusa".

Para ele, faz os adversários cada vez mais desejarem vencer seu time. "Em Arapiraca (última derrota, no dia 2 de julho), contra o ASA, todo mundo ficou perguntando onde estava a Barcelusa", relata. Por tudo isso, Jorginho repete seus mantras aos jogadores. "Precisamos sempre cobrar mais e mais". Totalmente identificado, ele jogou pela Portuguesa de 1983 a 90 e sabe como a banda toca no Canindé.

Neste sábado, no Recife, a Portuguesa encara o Sport atrás de mais três pontos. Vencer ou perder faz parte do jogo, mas dificilmente você verá a equipe de Jorginho apática em campo, o que tem tudo a ver com seus ideais. Ao Portal Terra, nesta entrevista exclusiva, ele lista seus mandamentos para abrir caminho na Série B e recolocar a "Barcelusa" na elite do futebol nacional. Confira:

I - Não se deixar levar pelos elogios e brincadeiras que remetem ao Barcelona

"Isso entra por um ouvido e sai pelo outro, nosso e dos atletas também. Isso é uma coisa de vocês e que influencia nos adversários, porque muitos usam isso para motivar os atletas. Para nós não é motivção, o que está na frente é sempre o primeiro a ser batido. Entendo que isso é a forma de vocês (jornalistas) ganharem o pão de cada dia"

II - Não perder jogadores para outras equipes e qualificar o grupo

"Enquanto tiver inscrição aberta, precisamos trazer atletas com os mesmos ideais que esses. Quanto a alguém sair, vai depender mais do clube e não cabe à comissão brecar a felicidade do atleta. Mas a direção tem que entender e suportar a barra caso não dê algo certo depois. De repente, até o atleta não quer sair, por conta da chance de escrever o nome na história de uma competição importante como essa e em um clube como esse"

III - Segurar a onda se o time parar de ganhar por algum momento

"Você evita isso se cobrando mais, mais e mais todos os dias e não ficando satisfeito com o que produz e produziu ontem. Se acabasse hoje, ficou maravilhoso, estamos muito bem. Mas se não conseguirmos ganhar daqui para a frente, nada que fizemos será lembrado. Ao contrário, rapidamente será esquecido"

IV - Manter o bom nível quando os desfalques pintarem

"Não tem acontecido muito (de ter desfalques), mas mesmo que mude, os que entraram foram bem ou até melhor do que os estavam. Isso é difícil de conseguir em um clube e, se não houver respeito, quem está de fora fica louco para que outro se arrebente. Tem de haver respeito da comissão para os atletas e entre eles, independente das turbulências que vamos ter"

V - Controlar a cobrança frenética dos torcedores

"Onde tem cobrança é sinal que você terá de mostrar alguma coisa de bom. Então é ótimo, não acho ruim. Adoro cobrança e tem que ser assim. Se tem cobrança, você pode mostrar seu valor e o atleta não pode se acomodar. A pressão e a cobrança têm que ser todo dia. Você me pegou de bom humor, mas geralmente estou de mau humor. Tem que ser assim, senão não alcança resultado no seu trabalho"

VI - Usar a intimidade com o clube a seu favor

"Esse clube tem uma história tão grande que muitas pessoas não conhecem. Outros têm representatividade maior em torcida, mas aqui a cobrança é até mais próxima. Quem conhece a colônia portuguesa sabe que a maioria, ou 99%, não veio ao Brasil em berço de ouro. Eles lutaram para conquistar o que têm e até para construir o Canindé não foi fácil. O que exigem de quem joga é isso: dedicação. Se você conhece as pessoas, te ajuda"

VII - Mudar a cultura de demissões de treinadores na Portuguesa

"Infelizmente, vivemos em um país onde os resultados são mais importantes que o trabalho. Há momentos em que você precisa de um tempo maior. Às vezes, você tem mais sorte e acontece mais rápido. Infelizmente, os clubes não são assim e terminam pagando, porque quem consegue manter mais tem tendência a alcançar bons resultados"

VIII - Definir as referências: Guilherme, Marco Antônio e Edno

"Trabalhar com jogador bom (sobre Edno) é fácil. Você não resgata, ele mesmo percebe o que precisa e se dedica, não tem vaidade. Fazia tempo que o Marco Antônio não jogava 14 partidas seguidas, sem ficar de fora. Espero que continue o resto da temporada sem ter nada"

"Tem hora que não tem como fugir de elogiar, porque o individual aparece. O Guilherme é um primeiro, segundo volante, lateral e até meia. Mostrou que tinha condições e tem personalidade de sobra. Ele se cobra, faz por ser exemplo pelos treinos e jogos, é um menino de boa cabeça. É muito bem orientado pela mãe, parabéns a ela e a ele por ser essa pessoa"

IX - Escolher os jogadores certos para compor o grupo

"O nosso torcedor se identificou com essa forma (com raça) de jogar e colocamos a eles que deveriam jogar assim. Fomos conversando com os que chegaram e, antes de assinar contrato, explicamos o que queríamos deles. Se aceitassem, ficariam, senão poderiam iar. Com mais ou menos nome. Os que chegaram entenderam a importância de lutar pelo clube"

X - Fazer todos terem o mesmo espírito e dedicação em campo

"O craque se faz aos poucos. Se o grande jogador colocar na cabeça e fazer o mesmo que os outros fazem, será melhor que jpa é. Quando você coloca isso no grande jogador, ele vai ficar melhor do que poderia imaginar. É essa a nossa cobrança diária e será assim onde eu estiver. Senão não dá para trabalhar, nenhum treinador é mágico. Trabalhamos com quem dá essa condição."