Sem desafiantes, ex-campeã brasileira provoca Duda Yankovich

Os cruzados de direita que antes valiam cinturões hoje só deformam sacos de areia. A ex-modelo e primeira boxeadora a ter chancelado um título brasileiro se habituou à rotina comsparrings e ginásios emudecidos. Só que Adriana Salles cansou. A pugilista brada por uma nova oportunidade nos ringues.

Sem lutar desde o ano passado, Adriana, 41, conserva a boa forma e a presteza nos golpes no complexo de boxe do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), na região do Ibirapuera, zona sul de São Paulo, e em aulas esporádicas que ministra em uma academia. Pouco para uma das mais coroadas pugilistas brasileiras e que há pouco mais de três anos pleiteava o título mundial.

"Como não luto mais, não tenho patrocínio. Por isso, preciso trabalhar, me sustentar de alguma forma. Não posso me dedicar integralmente ao boxe. Continuo treinando, me preparando, só que essa nova geração de meninas não quer lutar comigo", afirmou a meio-médio ligeiro.

A relação quase nula de pretendentes ao confronto não evita que Adriana bata no peito e prontifique o convite. Sem titubear, elege a sua "escolhida": a sérvia radicada brasileira Duda Yankovich, campeã mundial em 2006 pela Associação Mundial de Boxe Feminino (WIBA) e participante eliminada recentemente de A Fazenda 4.

Basta esboçar o nome da concorrente para Adriana alterar o semblante de seu rosto. Um sorriso irônico se mistura a uma fala acelerada, com raras pausas. "Fizeram uma croata (sic) que só apanha ser campeã mundial. Aqui dentro ela ganha porque tem 'retaguarda'. Já a convidei para um duelo, mas ela diz que eu sou mais leve. É argumento de quem não tem boxe. Não quero ser prepotente, mas me garanto. Ela não tem técnica".

Adriana não economiza. Alfineta Duda porque sabe que um hipotético embate guinaria a sua carreira. Além de famosas pelos respeitáveis carteis, a dupla também faz sucesso pela ótima aparência. Um prato cheio para a mídia. "Preciso 'limpar' o meu cartel, ou seja, lutar novamente e vencer, para sonhar em disputar novamente o cinturão", sublinha Adriana, que tem como principais conquistas o Paulista e o Brasileiro, ambos abocanhados em 2005.

Antes dos ringues, as passarelas

Olhos azuis, cabelos loiros levemente cacheados, lábios delineados e corpo esguio. Impossível não se encantar com os belos traços de Adriana. Além de despertar olhares curiosos de quem acompanha o boxe de perto, o perfil da pugilista entrega o seu antigo ofício. Dos 12 aos 26 anos, "galega", como é conhecida, desfilou em passarelas, capas de revista e anúncios de refrigerantes.

"Financeiramente (a vida como modelo), não me trouxe tanto retorno. Aprendi muita coisa, mas precisava abrir novos horizontes. Foi justamente ai que eu conheci o pugilismo".

A transição foi dura, sobretudo pela desconfiança da ala masculina, àquela época reticente em supervisionar uma mulher. O primeiro a romper o paradigma e confiar no potencial de Adriana foi Messias Gomes, perito na formação de novos talentos do pugilismo e atual coordenador técnico de boxe do COTP.

"O Messias foi o meu grande incentivador. Ele me ensinou que é preciso bater e não apanhar. Devo tudo a este homem", diz Adriana, acenando em direção ao seu mentor.

Sujeito introspectivo e de poucas palavras, Messias deixa o embaraço de lado e devolve os chamegos. "A Adriana é um exemplo de atleta. É aguerrida, dentro e fora dos ringues. O trabalho com ela mudou muito a minha visão sobre as mulheres no boxe. Ela é um exemplo de motivação para as mais novas".

Desde que abandonou as passarelas para se dedicar à "nobre arte", portanto, há 15 anos, Adriana soma 11 vitórias, sete derrotas e um empate.