Conheça o autor do slogan "Craque, o Flamengo faz em casa"

"Craque, o Flamengo faz em casa". Possivelmente você já leu, ouviu ou falou essa frase. O slogan mais famoso do Flamengo voltou a pauta com força total, ainda mais depois da inauguração das obras do centro de treinamento do clube, em Vargem Grande, na última segunda-feira (23.05). E, do alto de seus 32 anos, a frase continua povoando o imaginário dos rubro-negros. Principalmente aqueles que acreditam num futuro ainda mais promissor.

E para presentear o torcedor, o Site Oficial do Flamengo foi atrás do autor do slogan rubro-negro, o jornalista Geraldo Mainenti. Título de uma reportagem da revista Manchete Esportiva, em 4 de abril de 1979, a frase virou bordão desde então. Entrevistando astros como Zico, Leandro, Junior, Adílio, Andrade, Julio Cesar, Tita, Rondinelli, entre outros, o repórter fez história.

"Essa matéria foi sugerida por mim, diante do evidente sucesso do trabalho feito nas categorias de base do Flamengo, que já mostrava resultados significativos. O Flamengo ganhara no ano anterior (1978), a Taça Guanabara, o Campeonato Carioca e o Torneio Internacional de Palma de Malorca, na Espanha. Naquela altura, de 1979, já vencera o primeiro turno do Campeonato Estadual e defendia uma invencibilidade de mais de 30 jogos", explicou Geraldo, revelando que teve que completar o slogan após a edição da matéria.

"A idéia da pauta foi simultânea à do título. Ou melhor, o título já era a pauta. Quando propus fazer a reportagem ao Nei Bianchi, nosso editor-chefe, sugeri uma reportagem para mostrar que "craque o Flamengo faz em casa". Depois, durante o fechamento da matéria, foi preciso colocar uma segunda frase, por exigência da diagramação. Foi então que, abaixo da foto, entrou o complemento: "Não compra, não vende, não troca". A primeira parte, mais forte e mais original, virou slogan do clube".

Sem nunca ter cobrado os louros pela criação da célebre frase, Geraldo se contenta em lembrar de seus dias cobrindo o dia a dia do Flamengo. Bem diferentes dos que vemos hoje em dia, de acordo com o jornalista.

"O mais gratificante para um jornalista esportivo é estar presente aos grandes acontecimentos de sua época e poder contar o que viu e como viu, nas fascinantes histórias que o esporte proporciona. Isso, por si só, já nos satisfaz. Ver uma ideia ser reconhecida como a síntese da época mais vitoriosa da história de um clube como o Flamengo é uma grande honra. Cobrir o Flamengo sempre foi fascinante, por causa das paixões que desperta. Naquela época, diferentemente de hoje, nosso contato com os craques não tinha restrições. Assistíamos aos treinos dentro do campo, tínhamos o telefone da casa de todos os jogadores, éramos conhecidos de seus familiares. Ou seja, vivíamos intensamente o cotidiano dos craques. Acredito que isso humanizava mais as coberturas esportivas e nos permitia contar histórias que aproximavam mais os ídolos dos torcedores", revelou Geraldo, contando mais um acontecimento, que engrandeceu a publicação.

"Lembro-me bem da felicidade do fotógrafo Gil Pinheiro, quando o presidente do Flamengo à época, Márcio Braga, pediu a ele uma cópia da foto, para fazer um pôster gigante, que acabou ilustrando por muito tempo a parede principal da sala de imprensa da Gávea". 

Ciente de que os tempos mudaram, tanto para jornalistas como para dirigentes e atletas, Geraldo espera que a inauguração do centro de treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, possa dar um novo gás na produção de grandes talentos para o Rubro-negro. Além disso, ele ressalta que a postura da diretoria de tentar proteger o máximo que puder seus jovens jogadores do assédio de agentes e clubes do estrangeiro também ajudará ao clube a continuar fazendo craques em casa.

"Hoje, é mais difícil para um clube ter tantos craques mirins em suas divisões de base, porque os agenciadores chegam primeiro e pegam a garotada muito cedo. Parece que vemos uma nova safra de jogadores de boa qualidade nascendo no Flamengo. O importante é um trabalho contínuo, para que não haja entressafra. Já não bastam mais o Mineiro, o Silva Batuta e tantos outros olheiros espalhados pelos quatro cantos do estado. Mas o fato de o Flamengo ser, por essência, um clube formador  de craques e haver a consciência geral de que hoje só tem um grande elenco o clube que trabalha com seriedade nas divisões de base, deixam em alerta e mais atuantes os dirigentes", encerrou o jornalista, que, quase anônimo conseguiu marcar seu nome na história do maior clube do Brasil. 

"A frase que virou slogan é uma conseqüência, não a causa dessa essência do Flamengo de formar grandes jogadores. Poucas vezes me manifestei, porque acredito que um jornalista não busca reconhecimento, busca contar a verdade, o que vê e ouve, de forma clara, atraente e precisa. Procuro me manifestar sobre a autoria do slogan quando vejo que há um equívoco ao se contar a história; e o equívoco é involuntario, porque as pessoas não sabem exatamente como foi a história - e nem têm a obrigação de saber. Procuro assim ir esclarecendo o assunto a medida que vou tomando conhecimento de que há alguém que se interessa por ele e não sabe os detalhes da história".