Air race: prefeitura anuncia esquema para evitar caos no trânsito

Thiago Feres e Fernanda Prates, Jornal do Brasil

RIO - O grande esquema de trânsito anunciado pela prefeitura não é suficiente para garantir tranquilidade aos moradores da Zona Sul, escaldados com o evento da Igreja Universal na Praia de Botafogo, no último dia 21. Muitos deles temem novas complicações na fluidez do tráfego durante o próximo fim de semana, quando será realizado, no Aterro do Flamengo, o Red Bull Air Race. Para aumentar a apreensão, no domingo será Dia das Mães.

Segundo a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiaradia, a organização do evento prometeu que não seriam realizadas manobras na Enseada de Botafogo, mas não foi o que se viu quinta-feira, durante um dos treinos de classificação para a corrida.

Já começou errado pelas promessas feitas reclama Regina. Se os aviões fizerem manobras na Enseada de Botafogo, as pessoas vão se aglomerar por ali, e não ao longo da Praia do Flamengo. Estou prevendo que esse Dia das Mães se transformará num dia das madrastas, e que o caos vivenciado durante o evento da Igreja Universal, no feriado de Tiradentes, se repita. Quinta-feira, já foi um barulho terrível.

A expectativa é que 700 mil pessoas acompanhem a corrida. De acordo com o planejamento definido pela prefeitura, a operação vai envolver 250 agentes, entre guardas municipais e operadores da CET-Rio, que trabalharão para manter a fluidez do tráfego no entorno, reprimir o estacionamento irregular e ordenar os cruzamentos. As pistas do Aterro do Flamengo serão fechadas no sábado, das 8h às 18h, e no domingo, das 7h às 18h. A interdição será implantada desde o Centro até a altura da Avenida Oswaldo Cruz. A circulação de veículos será normal na Enseada de Botafogo. Uma passagem no canteiro central será usada para desviar o trânsito para a Avenida Rui Barbosa, sentido Centro.

Muitas medidas são vãs. Aposto que teremos novo caos prevê o motorista Carlos Santos, 32, morador do Catete.

A prefeitura não criou novas áreas para o estacionamento de veículos, o que induz o público a usar o transporte público. O metrô, por exemplo, vai operar com toda a frota disponível, como acontece nos dias de semana. A circulação de veículos estará proibida nas ruas Machado de Assis, Dois de Dezembro e Silveira Martins, que devem ser utilizadas pelos usuários do metrô após desembarcarem nas estações Flamengo, Catete e Largo do Machado.

Apesar do receio dos moradores, o comandante do 2º BPM (Botafogo), Antônio Carballo, não espera novas complicações.

O planejamento me parece adequado e não teremos 4 mil ônibus fretados nas ruas.

Prova tem preocupação constante com segurança

Pequenos aviões fazendo arriscadas manobras a 370km/h, cerca de 350 pessoas correndo de um lado para o outro para montar e desmontar 150 toneladas de equipamentos e tudo isso a poucos metros da água e em frente a milhares de pessoas. A fórmula do Red Bull Air Race, que ocorre sábado e domingo, no Aterro do Flamengo, a partir das 10h, parece arriscada. Contudo, graças às estritas medidas de segurança da organização, ninguém saiu seriamente ferido de nenhuma corrida desde sua criação, em 2003.

Estamos sempre tentando melhorar, aprendemos um pouco mais a cada corrida. É sempre melhor ver o problema antes de ele se tornar um problema. Estamos fazendo tudo que podemos para fazer da corrida o mais segura possível declarou Hannes Schwenter, diretor da segurança do Red Bull Air Race.

A segurança começa nos próprios aviões, construídos com a maior leveza possível para ajudar os pilotos a suportarem as forças de até 12G 12 vezes superiores à força gravitacional. Para isso, os pilotos também usam os chamados G-suits, macacões que podem aliviar as pressões em até 2G.

Além dos aviões, projetados desde os dutos de ar aos cintos de segurança de maneira a evitar acidentes, a organização investe em cursos e treinamentos para os pilotos e para as equipes serem capazes de resgates rápidos em casos de emergência. Ao todo, no Rio, serão seis embarcações, entre lanchas e jet skis, tripulados por 12 pessoas responsáveis por possíveis resgates.

Brasileiro salvo por treinamento

Prova viva do sucesso da segurança é o piloto brasileiro Adilson Kindlemann, que sofreu o primeiro acidente grave da categoria desde sua criação, em 2003. Ao fazer uma curva durante um treinamento no circuito de Perth, na Austrália, Kindlemann perdeu o controle do avião e acabou caindo na água. Apesar do susto, ele foi socorrido em menos de um minuto e saiu sem nenhum ferimento grave.

No fim das contas, o acidente teve um lado bom, porque pôde mostrar o quão seguras são as aeronaves. Sem contar todo o esquema das equipes, que fizeram todo o trabalho de resgate em um minuto. Saí ileso de um acidente que poderia ter sido fatal elogiou Kindlemann.

Antes do acidente, Adilson e os outros 14 pilotos participaram de uma série de treinamentos, no qual aprenderam a sair do avião em caso de colisão com a água. Em uma piscina, eles aprenderam a não evitar entrar em choque no contato com a água gelada e sair do avião, mesmo de cabeça para baixo.

Dois dias antes da queda, passamos por um treinamento quase igual ao acidente. Eu consegui lembrar tudo e colocar em prática, sem entrar em pânico. Peguei o oxigênio, abri o canopy (porta de acesso ao cockpit), e, assim que saí, já tinha toda uma equipe me esperando. É um esquema de segurança que funciona 100%.

Sem avião após acidente, brasileiro fica fora da etapa

Após sofrer o acidente em Perth, o brasileiro Adilson Kindlemann, primeiro sul-americano a correr no Red Bull Air Race, acabou ficando fora da etapa carioca. Apesar de ter saído ileso, seu avião foi destruído, e ele terá que esperar três meses até a reconstrução e o treinamento na nova aeronave. Apesar de feliz por ter saído ileso, Kindlemann lamenta sua ausência.

É bem frustrante. Depois de três anos me preparando pra ser um dos integrantes da modalidade, é difícil estar aqui e não correr comentou o piloto. Mas eu tive muita sorte. Vou tratar o acidente como uma história que passou e trabalhar pra voltar o mais rápido possível.

Apesar da ausência na corrida, Adilson comemora a recepção calorosa dos fãs no Rio. Em uma noite de autógrafos, no shopping Rio Sul, ele ganhou um parabéns das cerca de 100 pessoas presentes, com direito a bolo pelo seu 37º aniversário.

Foi uma surpresa. No meio da sessão de fotos e autógrafos, o pessoal veio com bolo. Foi um carinho muito especial, eu não esperava tanta gente!

Kindlemann, que tem mais de 11 mil horas de voo como piloto comercial e depois se tornou tricampeão brasileiro na categoria ilimitada de acrobacia aérea, conta que foi atraído pela modalidade por ser única.

Eu sempre me dediquei à acrobacia e ao show aéreo. Quando conheci a competição, senti que era um esporte único, onde o público consegue acompanhar de perto e ver quem é o melhor disse o piloto. Sem contar que, como o vento muda totalmente uma corrida, é um esporte imprevisível, sempre tem uma surpresa.