Liderar ranking juvenil não é garantia, diz ex-tenista Marcelo Saliola

Henrique Moretti, Portal Terra

SÃO PAULO - O brasileiro Tiago Fernandes se tornou nesta segunda-feira o mais novo líder do ranking mundial juvenil de tênis. A grande marca no sub-18, porém, não é garantia de sucesso como profissional, conforme lembra o ex-tenista Marcelo Saliola.

Considerado um fenômeno na adolescência, Saliola assumiu a ponta do ranking juvenil em 1987 e em 1988 fez história ao se sagrar o atleta mais jovem a somar pontos na ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), com apenas 14 anos e quatro meses.

Toda essa precocidade, no entanto, não se refletiu em ótimos resultados quando adulto, e ele chegou no máximo a ser o 237º melhor do mundo, desistindo precocemente da carreira, em 1994.

Fora Marcelo Saliola, a dificuldade na transição para o profissional também já frustrou a carreira de outros promissores atletas, como o venezuelano Nicolás Pereira, o argentino Federico Browne, o alemão Daniel Elsner, o sul-africano Wesley Withehouse, todos integrantes do top três no ranking juvenil, mas que nunca figuraram no top 70 da ATP.

Desde que a ITF (Federação Internacional de Tênis) criou, em 1978, a lista para comparar os melhores tenistas sub-18 do planeta, apenas cinco jogadores que terminaram um ano como número um ganharam algum Grand Slam no profissionalismo: o suíço Roger Federer, o sueco Stefan Edberg, o australiano Pat Cash e os americanos Ivan Lendl (nascido na República Checa) e Andy Roddick. Somente cinco também chegaram a liderar o ranking profissional - o mesmo grupo de nomes, com o chileno Marcelo Rios no lugar de Cash.

Entre o top 20 da ATP neste momento, Federer, Roddick, o escocês Andy Murray, o chileno Fernando González, o croata Marin Cilic e os franceses Jo-Wilfried Tsonga e Gael Monfils venceram Grand Slams em simples como juvenis.

No entanto, muitos destaques não brilharam na ITF. O sérvio Novak Djokovic (24º como melhor ranking juvenil), o russo Nikolay Davydenko (510º) e os espanhóis Rafael Nadal (145º) e Fernando Verdasco (294º) são os principais exemplos, seja porque amadureceram tardiamente ou porque viraram profissionais muito jovens - casos de Nadal e Djokovic (15 e 16 anos respectivamente).

Além de Saliola, Fernando Meligeni, 25º melhor tenista do mundo em 1999, foi outro brasileiro a ter ocupado a ponta do circuito juvenil. Ambos, porém, não conseguiram fechar respectivamente as temporadas de 1987 e 1989 na liderança. Esse feito inédito Tiago Fernandes ainda pode cumprir, já que nesta segunda-feira aparece com 60 pontos de vantagem para o segundo colocado, o sueco Daniel Berta.

De qualquer forma, o que vai colocar mesmo à prova o talento do brasileiro é o tênis profissional, em cujo ranking ocupa o 937º lugar. Em torneios desse nível, ele já coleciona quatro participações (em qualificatórios da ATP ou challengers) desde que venceu o Aberto da Austrália, em janeiro, perdendo sempre em estreias.

Saliola torce bastante pelo sucesso do atleta, mesmo porque isso daria ainda mais espaço para o esporte ao qual ainda está ligado - atualmente trabalha com o chamado "tênis de relacionamento", ensinando a técnica da modalidade e ao mesmo tempo dando palestras a empresários. Entretanto, ressalta que, conforme mostram os números, nada adianta que Fernandes brilhará no futuro.

"As estatísticas valem não só no esporte como em qualquer profissão", apontou ele. "Estou cansado de ver amigos formados na GV (Fundação Getúlio Vargas) e na USP (Universidade de São Paulo) que teoricamente deveriam ser grandes administradores e hoje estão perambulando pelas empresas. (O sucesso) é um conjunto de coisas. Se o garoto for massacrado, se o treinador quiser aparecer mais que o jogador, se a festa começar muito cedo, tudo isso vai por água abaixo".