Obras e impacto de R$ 13,3 bi aumentam autoestima da África do Sul

Natália da Luz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Qual o legado social de uma Copa do Mundo? Se a realização é em um país rico, com estrutura, o impacto talvez não seja tão profundo, mas se o evento é no continente mais pobre do mundo, no país onde o desemprego atinge um quarto da população, os benefícios podem ser relevantes. O desenvolvimento tecnológico, dos sistemas de transporte e de infraestrutura turística são alguns dos fatores positivos inquestionáveis para a sociedade, mas há conseqüências impalpáveis que atingem os sul-africanos: o orgulho e a afirmação da identidade africana, menosprezada pelo mundo diante do aposto de território perdido, miserável e imutável.

Há muitos aspectos neste processo que vão além dos empregos criados e integração dos transportes. Eles incluem esperança, expectativa e sonhos. Bens intangíveis capazes de transformar a percepção das pessoas contam Udesh Pillay e Orli Bass na apresentação de Development and Dreams The urban legacy of the 2010 World Cup, livro editado por eles e resultado de uma pesquisa acadêmica da Human Sciences Research Concil (HSRC) sobre a herança da primeira Copa da África.

O preço do sonho africano ultrapassa os 30 bilhões de rands (cerca de R$ 7,2 bilhões). Uma fortuna circulando que, segundo informações do comitê organizador do evento, deve provocar um impacto de 55 bilhões de rands (cerca de R$ 13,3 bilhões) na economia. Todo esse movimento de Copa influencia também a criação de novos postos de trabalho, que ultrapassam os 400 mil ao redor do complexo país apelidado de nação arco-íris pela sua diversidade. Um número que amenizou a desastrosa perda de quase 900 mil empregos nos últimos meses e permitiu que o país soterrado respirasse sob os escombros de 1,4 trilhão de rands em dívidas que ele precisa pagar até 2013.

A pesquisa iniciada em 2005 para avaliar os impactos da Copa do Mundo na sociedade sul-africana teve um resultado surpreendente que não se baseou apenas em estradas, estádios e hotéis erguidos, como nos explica Orli Bass, em entrevista ao JB. O estudo avaliou os mais importantes aspectos adjacentes à Copa do Mundo: turismo, economia, emprego, pobreza... Após constatar as consequências urbanas, colaboradores e editores descobriram algo a mais.

Quando estava editando o livro percebi algumas questões que emergiram de bens imateriais. Os benefícios da Copa do Mundo atingem a sociedade, mas principalmente os aspectos individuais que ajudam a reafirmar a identidade sul-africana opina sobre o projeto.

O que parecia algo absolutamente simples e restrito ao ambiente acadêmico foi ampliado para um campo mais sensível, já que não se pode ter a certeza de que o desenvolvimento urbano irá sustentar-se após o Mundial. Sobre essa possibilidade, o presidente do país Jacob Zuma já anunciou que vai investir mais de 800 milhões de rands (cerca de R$193,5 milhões) em infraestrutura, após o dia 11 de julho. Recursos que irão aprimorar algumas esferas da sociedade. Só que muito mais importante do que isso, segundo o estudo, é a valorização do sentimento de patriotismo de um povo que já começa a ser visto por todo o mundo.

Futebol é escape para sair da crise econômica

Em meio a um cenário paradoxal de crise financeira e investimentos em infraestrutura, a Copa do Mundo aproxima-se como uma luz no fim do túnel sombrio. Os dias de celebração regados a compras de turistas, que ganham em dólar/euro e gastam em rands, levam expectativas a quem ainda aguarda o momento para tirar uma casquinha do sonho africano. Paul Mthena espera dormir o mínimo possível durante o torneio. Ele é taxista na Cidade do Cabo, que vai abrigar oito dos 64 jogos da Copa.

Vou revezar com meu irmão no volante e vender vuvuzelas enquanto ele estiver com o carro diz o sul-africano de 37 anos que vive em South River, bairro pobre da cidade.

Os 300 rands (R$ 72,50) que ele e o irmão cobram do aeroporto até o Waterfront complexo turístico da cidade (um trajeto de 25 minutos) - vão receber uns acréscimos, já que durante a Copa tudo irá, sem dúvida, ficar bem mais caro. Além da possibilidade de faturar com as corridas, vuvuzelas e cervejas, ele se vê mais animado do que nunca!

Precisávamos disso. O futebol nos deixa mais felizes e o mundo já está sabendo disso!

O melhor legado, na opinião do embaixador da África do Sul na Copa, o ex-jogador Lucas Radebe, além da infraestrutura no transporte, comunicação e hospedagem, é a possibilidade de aprimorar questões vitais para seus irmãos sul-africanos.

Muitas pessoas vivem limitadas, sem recursos em áreas rurais e townships (áreas precárias e isoladas para onde os negros eram levados na época do apartheid). Para mim, o real legado desta Copa é a possibilidade de ampliar os investimentos em saúde e educação e avançar na erradicação da pobreza disse Lucas.

Ele acredita que 2010, apesar da crise financeira e de tantos problemas que atingem o país, é o melhor momento para a realização do tão persistido desejo africano.

Somos um povo muito apaixonado pela terra e a Copa está resgatando isso. É o momento de fortificar o orgulho e convidar o mundo a celebrar conosco!