Com vitória no hóquei, EUA se livram da fama de "azarão"

Portal Terra

VANCOUVER - Entre os azarões olímpicos, o time dos Estados Unidos que chegou aos Jogos de Inverno estava entre os menos favorecidos do hóquei: desprovido de experiência, de grandes nomes do esporte e de medalhas olímpicas de ouro, desde a surpreendente vitória contra a União Sovietica, o chamado "milagre no gelo", em 1980.

Canadá e Rússia eram os grandes favoritos, na hora de prever para quem iriam as medalhas. Não havia dúvidas. Há certos resultados que podem ser considerados como certezas.

Mas tudo isso mudou dramaticamente na noite de domingo, quando a equipe americana, que no rinque se mostrou bem menos maltrapilha do que o previsto, surpreendeu e derrotou o Canadá por 5 a 3 na rodada final da fase de grupos, diante de um ginásio superlotado no Canada Hockey Place.

Brian Rafalsky marcou dois gols, Chris Drury teve participação decisiva e Ryan Kesler fez o gol da vitória no minuto final, driblando Corey Perry e tocando para o gol vazio. Eruzione, Silks e O'Callahan enfim parecem ter encontrado herdeiros à altura.

A espinha dorsal da equipe foi o goleiro Ryan Miller, que fez 42 defesas, e se tornou o novo Craig na equipe americana, diante da versão canadense moderna de Vladislav Tretiak: o abalado Marty Brodeur.

"O melhor que já vi", disse Kesler, quando perguntado sobre o desempenho de Miller.

A vitória, a primeira conquistada pelos Estados Unidos diante dos canadenses desde as quartas de final da Copa do Mundo de 2001, deu aos americanos, que venceram seus três jogos, uma rodada de folga e posição direta nas quartas de final da quarta-feira. Já o Canadá, que ficou com duas vitórias e uma derrota, precisa vencer a Alemanha - um rival fácil - para chegar às quartas de final contra a favorita, Rússia, que também venceu seus três primeiros jogos.

Pelo final da noite de quarta-feira, um dos favoritos terá caído. E o outro talvez tenha de enfrentar os Estados Unidos e seus famintos jogadores de segunda linha, se quiser chegar à fase de medalhas.

"Creio que, se alguém nos perguntasse antes do jogo, diríamos que preferíamos passar direto às quartas", afirmou o ala canadense Jarome Iginla. "Obviamente não foi isso que aconteceu".

Os Estados Unidos jamais ficaram em desvantagem diante do Canadá, graças em larga medida aos gols de Rafalsky, o primeiros dos quais aconteceu aos 41 segundos de partida. O defensor do Red Wings marcou com tacada à meia-altura, vinda da ala direita, em tiro desviado ao tocar no superastro canadense Sidney Crosby, que esteve no gelo, em companhia de Mike Richards e Rick Nash, nos três primeiros gols dos Estados Unidos.

A torcida, formada em larga maioria por canadenses, perdeu o ânimo depois do gol americano. Os torcedores estavam de vermelho, a tal ponto que o ginásio inteiro parecia rubro. Agora, o rubor se espalhou aos rostos. "Hóquei é o esporte do Canadá", dizia uma das faixas na arquibancada. Que coisa mais antiga.

Os canadenses marcaram aos 8min do primeiro período, empatando o jogo, em tiro de Eric Staal, desviando lance de Brent Seabrook, da direita. Miller não conseguiu rebater o disco, que passou por uma profusão de tacos e pernas.

Mas o ímpeto que o gol de Staal poderia ter propiciado não durou muito. Apenas 22 segundos mais tarde, Rafalsky voltou a marcar, dessa vez depois de uma perda de bola na defesa canadense. Rafalski avançou em direção à meta, em busca de opções de passe, mas terminou por arremessar, e o disparo passou por Brodeur, pelo defensor canadense Duncan Keith e pelo atacante americano Jamie Langebrunner, que estavam diante do gol.

Os Estados Unidos mantiveram a liderança até os 3min do segundo período, quando Dany Heatley fez o gol de empate canadense, depois de jogada de Jonathan Toews na ala esquerda. O tiro de Toews foi rebatido pela defesa americana, e Heatley aproveitou o rebote.

Drury estava no ataque com Bobby Ryan e David Backes quando o antigo astro da Universidade de Boston marcou o terceiro gol americano, a três minutos do final do segundo período. Sentindo uma abertura na defesa, Drury penetrou vindo da direita e marcou com um disparo forte.

"Ele tem essa qualidade que se assemelha ao jogo de Mike Eruzione", disse Ron Wilson, o técnico americano, que na semana passada previu que Drury, cuja temporada atual com o New York Rangers não vem sendo brilhante, faria uma boa Olimpíada. "Ele se joga para bloquear disparos, vence as divididas. Faz todo o trabalho pesado, difícil, que muitas vezes passa despercebido".

Aos 7min do terceiro período, os americanos marcaram seu quarto gol, em tiro de Langebrunner, desviando passe de Rafalski. Os canadense, que já mostravam algum desespero, se aproximaram com um gol de Crosby, em passe de Nash, mas o ágil disparo de Kesler encerrou a fatura, a 44 segundos do final.

"Somos um dos diversos times capazes de ganhar", disse Zach Parise, ala americano. "O jogo de quarta será difícil, não importa quem seja o adversário".

Mas ao surpreender o Canadá, os americanos já conquistaram sua maior medalha, se a autoestima pode ser vista como prêmio. Talvez não cheguem ao topo do torneio olímpico; mas não são mais um azarão.