Flamengo x Botafogo: os dois lados da hegemonia

Fúlvio Melo, Hilton Mattos e Julio Calmon, Jornal do Brasil

RIO - Botafogo e Flamengo prometem um jogo empolgante domingo à tarde, às 18h30, no Maracanã. Não que as duas equipes estejam na ponta dos cascos. O time rubro-negro até que briga pelo título brasileiro. Mas, do lado alvinegro, a luta é contra o rebaixamento. Há dois retrospectos em jogo: o dos recentes empates em 2 a 2 desde 2007 e o tricampeonato carioca de Bruno, Léo Moura & Cia sobre a turma de Leandro Guerreiro. Mas, se for para falar em hegemonia, o clássico remete a um duelo de gerações acostumadas a vitórias sobre o rival.

Os alvinegros sorriram primeiro. Desde o tempo de Manga, o torcedor da estrela solitária ia ao Maracanã com a gozação na ponta da língua. O goleiro era o primeiro a provocar os rivais, dizendo que em jogos contra o Flamengo podia pagar o bicho adiantado . Do vestiário, a frase se espalhou por ruas e arquibancadas. Muita gente se sentia incomodada. A geração de Zico, no fim dos anos 70, era uma delas. E foi a partir do surgimento daquele time campeão do mundo que a escrita chegou ao fim.

Em entrevista ao JB, personagens das duas fases falam do prazer de vencer o adversário. Logo mais, ao Flamengo interessa a vitória para o time ficar a três pontos do líder Palmeiras e continuar acreditando no título nacional. Aos alvinegros, derrotar o time de Adriano e Petkovic servirá de estímulo na luta contra o rebaixamento. A sorte está lançada. Que vença o Botafogo de Jairzinho e Paulo César Caju ou o Flamengo de Zico e Andrade.

o Botafogo da minha época (anos 60 e 70) era superior ao Flamengo. Eles estavam tentando se reformular. O Flamengo atacava muito mais, a torcida motivava e eles vinham para cima. Mas, na maioria das vezes, ganhávamos nos contra-ataques relembra Jairzinho, o Furacão da Copa de 70.

Antes de Jair, o Botafogo de Garrincha fez muito rubro-negro sofrer. Na final de 62, Mané marcou dois gols na goleada de 3 a 0. Em 68, um episódio inusitado. Após empate em 0 a 0 com o Botafogo em um dos jogos finais da Taça GB, os jogadores do Flamengo, sentindo-se campeões, foram na direção da torcida soltar o grito de campeão. Um novo empate com o modesto Bonsucesso daria o título ao time rubro-negro.

O Botafogo dava o caso como perdido não acreditava no tropeço rubro-negro e foi para uma excursão a Goiânia. Na viagem, no entanto, o time foi surpreendido com a notícia da derrota do Flamengo por 2 a 0. Caju lembra o desfecho da história.

A torcida do Flamengo gritou é campeão. Eles colocaram dois pontos na nossa frente. Viajamos para jogar um amistoso. Estávamos desacreditados. De repente, gol do Bonsucesso, cancelamos a excursão. Na volta, fizemos 4 a 1. A torcida do Flamengo se irritava e esperava que o Flamengo virasse. Tiramos onda com eles recorda, lembrando os bons tempos.

Em 1972, precisamente dia do aniversário de fundação do Flamengo (15 de novembro), a maior humilhação: 6 a 0. Jairzinho marcou três vezes. Sendo o último, o quinto, de letra. A partir desse dia, a torcida alvinegra passou a levar para o Maracanã uma faixa provocativa com a inscrição: Nós gostamos de vo6 .

Zico: sentimento de vingança

Zico iniciava carreira no Flamengo. Era, como diz o velho jargão, mordido com o Botafogo. Chegou a estar relacionado para esse jogo, mas foi liberado. Assistiu ao jogo da arquibancada. Ou melhor, tentou assistir. Quando Fischer fez 3 a 0 aos 41 minutos do primeiro, levantou-se e foi embora.

Eu não estava no 6 a 0 deles, só no a favor. Era o time que eu tinha mais gana de ganhar, por uma simples razão: quando era um simples torcedor, foi o período que o Botafogo só ganhava e o Manga uma vez de uma declaração que, para jogar contra o Flamengo, ele gastava o bicho antes. Foi revoltante isso desabafa Zico.

Ao lado de Júnior, Andrade, Leandro, Adílio e outros, o maior ídolo do Flamengo se vingou.

Não era emoção, era vingança mesmo. Eu jogava contra eles sempre me sentindo um torcedor. Não conseguia separar isso.

Até que no dia 8 de novembro de 1981, em jogo válido pelo terceiro turno do Carioca, o Flamengo finalmente devolveu os 6 a 0. Zico foi o artilheiro da partida, com dois gols. Pelas estatísticas do Flamengo, dos 339 confrontos, foram 122 vitórias rubro-negras, 110 empates e 107 derrotas. A geração de Zico foi o divisor de águas na história da hegemonia do clássico. O Galinho de Quintino, por sua vez, rejeita o rótulo de responsável pelo fim da escrita.

Não me sinto assim. Dei, sim, uma grande contribuição para que isso viesse a acontecer.

Curiosamente, o sexto do Flamengo foi marcado por Andrade, hoje técnico rubro-negro, e camisa 6 naquela ocasião.

O mais interessante é que a gente tinha um time cheio de artilheiro. Mesmo assim, calhou de um volante, que jogava com a camisa 6, fazer o sexto gol aos 42 minutos (que na soma dos algarismo dá 6) do segundo tempo diverte-se Andrade. Naquela época, eles estavam mal. Eram o pior dos grandes do Rio. Mas sempre que jogavam com a gente, independentemente do nosso resultado, tinha sempre aquela faixa do outro lado lembrando dos 6 a 0. Era o único motivo de orgulho deles. Você não entra em campo achando que vai ganhar de 6 a 0 do adversário, né? Vai passar 30 anos e isso não vai acontecer de novo.