No rastro da Copa, até idosas se dedicam ao futebol na África

Jornal do Brasil

TZANEEN, ÁFRICA DO SUL - A expectativa pela Copa do Mundo na África do Sul tem movimentado, no país anfitrião, mulheres idosas e pobres, que se aventuram em campos de terra batida vestidas de saias e aventais. Duas vezes por semana, elas deixam os afazeres domésticos para trás, calçam chuteiras surradas e disputam partidas na cidade de Tzaneen, famosa pela produção de azaleias, localizada no norte sul-africano.

No total, 35 mulheres do time Vakhegula Vakhegula (idosas no dialeto local xitsonga) adotaram o futebol. Elas têm de 40 a 83 anos e moram num vilarejo a 600 quilômetros de Joanesburgo. A disputa pela bola é acirrada. Em campo, elas não aliviam. Para as novas adeptas do futebol, a modalidade representa um bom exercício, muito mais completo que as tarefas manuais que têm de executar em suas casas.

Gosto de jogar futebol porque nos ajuda. Sempre ficava doente, com febre, pressão alta. Agora, mesmo os médicos estão surpresos quando vou me consultar disse Nari Balovi, 47 anos, uma das mais jovens da equipe.

Nora Makhubela soma seis ataques do coração. Aos 83 anos, ela diz que chutar uma bola a trouxe uma força que ela pensava não ter mais na vida.

Minha vida, realmente, mudou. Se fosse correr com muitas pessoas, certamente eu chegaria na frente, apesar da minha idade afirmou ela, com um sorriso aberto no rosto.

Os sonhos de Makhubela incluem assistir a partidas da Copa, no próximo ano.

Peço, cada dia, a Deus para me manter viva até 2010.

O time das velhinhas tenta participar do Mundial. Os responsáveis pela equipe de Tzaneen entraram em contato com o Comitê Organizador da Copa para encaixar uma apresentação da equipe antes de alguma partida oficial, na época da competição da Fifa. Segundo elas, algo possível, disseram a resposta das autoridades.

Beka Ntsanwisi conta que formou o time há três anos para ajudar mulheres mais idosas a se exercitarem e também a melhorar a autoestima.

Algumas não podiam, sequer, caminhar porque sofriam algum tipo de problema físico. E, mesmo, quando elas tentavam fazer algo, mal podiam. Só se ficassem sentadas. Agora, elas estão aqui, correndo, gritando, lutando pela bola. Isso tudo as fez mais jovens.

O técnico David Maake diz que o contato com a equipe feminina lhe deu satisfação maior que qualquer outro trabalho que teve até hoje.

Com garotos, você precisa de mais dinheiro para alcançar os objetivos. Aqui, até posso chegar estressado, mas vou me divertir tanto que esqueço os problemas.

O time sente falta de investimento. Cada participante paga R$ 2 mensais para garantir bolas, uniforme e passagens para a disputa de um torneio amador, que ocorreu duas vezes por anos, com times de outras regiões do país.

Ntsanwisi, que usa seu próprio dinheiro para ajudar a financiar os times, espera, um dia, conseguir patrocínio.

Nos treinos e nos jogos, dezenas de fãs apoiam as vovós , com as inconfundíveis vuvuzelas, buzinas que o mundo conheceu, neste ano, durante os jogos da Copa das Confederação, espécie de teste para o Mundial-2010.

Fico satisfeito quando elas jogam e se mantêm em forma e fortes disse Chamelius Bayani, 13 anos, que acompanha o time de Tzaneen nos treinos.

Para elas, vencer é secundário. Afinal, após um dia cheio de trabalho doméstico, elas seguem para o campo. Muitas saem direto, após limparem suas casas, cozinharem ou venderem comida pelas ruas da cidade. Perder o treino? Impossível.

Estava gorda. Agora, posso correr e ensino meus netos a chutar. Estou ótima disse Baloyi.