Rio 2016: Jogos no Rio tornam-se esperança de dias melhores

Luísa Côrtes, Jornal do Brasil

RIO - Às vésperas da escolha da sede da Olimpíada-2016, jovens atletas sonham com a possibilidade de disputar os Jogos em casa. São potenciais talentos, revelados em projetos sociais, que ainda penam para seguir adiante no esporte. O sonho de melhorar suas vidas atrelado à prática esportiva salta para 2016.

Com apenas 17 anos, Rebert Firminiano tem muita história para contar. O atleta de salto em altura é dono do recorde carioca da modalidade, pentacampeão estadual, campeão brasileiro, obteve índice para disputar uma competição de adulto e participou do Campeonato Mundial de Atletismo, na Itália. Hoje, Rebert treina na Vila Olímpica Oscar Schmidt, em Santa Cruz, para alcançar a meta de participar dos Jogos, mas ainda sofre com a falta de investimento.

A sapatilha dele foi comprada com a ajuda da rifa de uma cafeteira. Com o dinheiro arrecadado, conseguimos pagar metade, o resto nós tivemos que bancar do nosso próprio bolso. Além disso, o Rebert sofre por não ter exclusividade, por treinar com outras 40 pessoas. Também não é acompanhado por uma nutricionista e psicóloga diz o técnico, Marco Leandro de Assis, que treina Rebert há cinco anos e garante que o menino tem futuro . O índice dele melhora 10cm por ano.

As dificuldades geradas pela escassez de recursos financeiros, como a falta de aparelhos, são superadas com criatividade. Além de técnico, Marco Leandro acumulou a função de adaptar objetos corriqueiros, como madeira, ferro e areia, em equipamentos de atletismo. O sarrafo, material utilizado no salto em altura, é feito de bambu ou corda elástica, já que a unidade do equipamento oficial custa cerca de R$ 800. Entretanto, de acordo com o próprio inventor, o aparelho improvisado atrapalha o rendimento dos atletas.

Se um aluno errar, bater com a cabeça numa sarrafo feito de ferro, por exemplo, pode haver um acidente sério. Já o equipamento original é feito com fibra de carbono, é macio e próprio para a prática do esporte explica Marco Leandro.

Rebert vislumbra competir diante da família:

Meu sonho é como o de todos os outros atletas: disputar uma Olimpíada. Eu imagino a minha família na arquibancada, gritando. E sei que se for disputar fora é mais complicado para minha família poder ir.

Mesmo não sendo atleta, a vida de Bernadete Pereira da Silva é bem corrida: da piscina para o ginásio, do ginásio para piscina. A mãe de Vitória Souza, 10 anos, ginasta olímpica, e Vinicius Souza, 14 anos, nadador, acompanha diariamente todos os treinos dos filhos desde quando os jovens começaram a fazer aulas na Vila Olímpica da Maré e a levar jeito para as atividades. O sonho de Bernadete é ver as crianças disputando uma Olimpíada, de preferência, aqui no Rio, pois seria a chance de a família e os amigos presenciarem as disputas e ajudarem na torcida.

Peneiras

Segundo um dos coordenadores da Vila Olímpica da Maré, Carlos Gondim, o desejo de mãe pode se tornar possível.

O centro funciona como projeto social e de alto rendimento e performance. Quando notamos que o aluno tem um bom rendimento, um diferencial, nós fazemos uma peneira, e o colocamos em uma pré-equipe. Depois, há outra pinçada, quando os atletas tornam-se membros da equipe. E tanto a Vitória como o Vinícius já fazem parte, participam de campeonatos, são ótimos atletas afirma Carlos.

Bernadete leva, além dos filhos, outras nove crianças para participar das atividades esportivas. Ela estimula a prática de esportes entre os jovens da comunidade da Maré.

É muito melhor do que ficar em casa. A gente sabe que a Maré é muito visada pela violência, tráfico, mas nós temos que mostrar as coisas boas. O sucesso dos nossos jovens. O que eu puder fazer para ajudar estes meninos, eu vou fazer. Fico muito triste quando vejo algum jovem indo para o tráfico, tomando o rumo errado na vida. Tento chamar todo mundo para o esporte. Me considero uma mãezona de todas estas crianças afirma Bernadete.

Vinícius enche os olhos ao falar do sonho de competir no Rio.

A minha mãe me disse uma vez: em 2016 você vai estar trabalhando. E eu respondi que vou estar na Olimpíada nadando, que este vai ser meu trabalho. E ela concordou diz o nadador.

O apoio da família é fundamental para que os jovens consigam obter sucesso através do esporte. Assim como os filhos de Bernadete, Rebert Firminiano conta com a ajuda da família, que acredita que o atletismo dá, sim, futuro.

No início, meu pai era contra, porque queria que eu fosse jogador de futebol. Comecei como goleiro, mas fiz um teste para o atletismo. Depois de três meses de treino, eu fui campeão estadual no salto em altura, aí fiquei, né? relembra Rebert.

Além da família, os jovens atletas se apoiam nos amigos de treinos. Thaís Vianna, 15 anos, campeã estadual de salto em altura na categoria juventude, diz que a ajuda é fundamental, já que tem que se desdobrar para dar conta do atletismo, da escola e das atividades caseiras. Thaís costuma dividir suas dificuldades com o amigo de treino diário Rebert. A amizade dos dois já virou motivo de brincadeira entre os alunos e professores da Vila.

Eles andam sempre grudados. Já avisei que vai dar em casamento, e que o berço dos filhos vai ter que ser alto. Imagina, várias crianças atletas vão pular o berço facilmente se ele for baixinho brinca o técnico Marco Leandro.