Apuros de um brasileiro em um ônibus na África do Sul

Celso Paiva, Portal Terra

JOHANESBURGO, ÁFRICA DO SUL - A viagem de ônibus de Bloemfontein para Pretória, duas cidades-sede da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de 2010, estava marcada para as 6h20. Era a opção mais cômoda financeiramente, já que não existe aviões entre as duas cidades. Mas às 4h30, quando estava me acostumando com a cama quente na noite fria que deixa qualquer pé congelado, uma ligação no celular me acorda:

- Senhor, estamos ligando para informar que o ônibus não sairá mais 6h20 e sim, 7h30.

- Como assim?

- Ele está atrasado, não sabemos nem se será 7h30.

Após perder o sono, arrumo a mala e sigo para a rodoviária. O cidadão no telefone não estava errado. Ninguém sabia que horas o ônibus chegaria. Vejo o mesmo funcionário que me ligou horas antes telefonar para outros clientes da companhia, avisando que o ônibus previsto para as 8h também ia atrasar. Após muita espera, o veículo no qual eu seguiria aparece no centro de turismo, que serve como rodoviária de Bloemfontein, por volta das 8h30.

Muito tumulto e filas em volta do ônibus, que fazem pensar como será a vida dos diversos turistas que virão à África do Sul, em 2010. A visão do pequeno aeroporto de Bloemfontein, que tem oito guichês e apenas uma esteira, é um luxo perto da "rodoviária" da cidade.

O ônibus vinha da Cidade do Cabo e contava com bagageiros lotados. Mesmo assim, o motorista não se intimidava em amontoar mais malas no local, entre elas minhas duas bagagens. Entro no ônibus e no primeiro trecho vou sozinho, podendo apreciar a bela paisagem das savanas sul-africanas.

Um ponto positivo a se destacar é a condição das estradas. Diferente do que se vê no Brasil, o asfalto está perfeito nas rodovias da sede da Copa do Mundo de 2010, com quase nenhum buraco.

O ônibus para de cidade em cidade, fazendo com que a viagem de cerca de 400km que normalmente dura cinco horas, passe das oito horas. No meio do caminho, uma senhora senta ao meu lado. Policial branca em Pretória, ela mostra certa insatisfação:

- Estava lá embaixo, mas uma senhora negra ficou empurrando o banco para trás e não consegui sentar. É uma zona isso aqui.

A citação é uma entre várias críticas aos cidadãos de pele escura que a policial faz em meio a um ônibus de 76 lugares com 90% de pessoas negras no veículo. Ponho meu fone de ouvido e finjo que estou dormindo para resistir à tentação de bater boca com a policial de comentários racistas e para evitar uma confusão com os outros passageiros, que já olhavam feio nos bancos logo atrás.

Após horas sem poder esticar as pernas, penso que a viagem está perto do fim ao chegar na rodoviária de Johannesburgo, cidade que fica a uma hora do meu destino final e é a maior do país. Uma multidão desce do ônibus na capital financeira da África do Sul. Como não era o lugar onde teria que descer, apenas olho pela janela.

Qual não é minha surpresa quando vejo minhas duas malas no chão da rodoviária. Saio correndo, já que elas estavam cercadas de pessoas, uma delas inclusive levando uma das minhas bagagens para o lado. Preocupado e extremante irritado, pergunto ao motorista o que minha mala estava fazendo no chão e recebo a seguinte resposta:

- Temos que tirar todas as malas para colocar de volta.

- Mas vocês não checam não? Qualquer um pode chegar e levar embora?

Com vergonha, o motorista pede desculpas, antes de novamente amontoar minhas malas sem qualquer preocupação no bagageiro. Precavido, sento em uma das poltronas mais perto da escada para não passar susto.

A viagem que achava que estava terminando ainda teve mais duas horas pela frente, graças a um trânsito inexplicável na pacata Pretória, já que não tinha nenhum acidente nem reforma na pista. Enfim, chego ao meu destino final após quase nove horas e alguns apuros. Saio correndo, pego minhas bagagens depressa e entro no táxi. Dou uma olhada rápida pelo centro da capital administrativa da África do Sul e chego ao hotel. Enfim, salvo.