A hora da reconstrução: vascaínos encaram a nova realidade com fé

Márcia Vieira, Jornal do Brasil

RIO - A rotina de frei Raimundo Nonato de Oliveira, 48 anos, foi de muita tensão, esta semana. O capelão de Nossa Senhora das Vitórias, em São Januário, não conseguiu esconder a apreensão pela estreia do Vasco na competição que pode selar a volta do clube à elite do futebol brasileiro. Apesar do nervosismo e da agenda apertada, ele decidiu que vai neste sábado ao estádio, pela primeira vez, assistir ao jogo do time do seu coração.

Quero muito que o Vasco ganhe, não importa o placar. Só de pensar na partida já fico com os nervos à flor da pele revelou o padre, nascido na pequena cidade de Graça, no Ceará, que veio com a família para o Rio, aos 15 anos.

Nessa época, como não tinha dinheiro para comprar ingresso, Raimundo acompanhava os jogos do time junto com a molecada na rua do reservatório, no Morro do Tuiuti. Nesta sexta-feira, o frade voltou ao local a pedido do JB. Mas, ao contrário do passado, quando a vista era perfeita, o cenário era outro.

Que pena, as árvores cresceram, surgiram novos prédios, agora não dá para ver nada disse, resignado, o pároco que entrou para a vida religiosa aos 28 anos e que passou a trabalhar na capelinha do Vasco depois que Roberto Dinamite assumiu o poder.

Com a saída de padre Lino, as celebrações de missas e batizados na comunidade passaram para as mãos do frade cearense. No entanto, o pároco vem tendo pouco trabalho. Até agora celebrou poucas missas e até hoje não realizou o sonho de estar com os jogadores.

Estou à disposição do Vasco, se precisarem de mim podem contar para o que precisar ressaltou o religioso, que não foi convidado ainda para benzer os jogadores, muito menos o estádio, antes da estreia do time na Série B.

Perguntado o que diria aos atletas se pudesse se encontrar com eles, o frei Raimundo não titubeou.

Vou dizer aos jogadores que, quando eles sofrem, sofro com eles, como ser humano, como padre e torcedor do Vasco disse, de forma emocionada, o capelão, que não quis revelar se havia feito alguma promessa para o Vasco subir para a Primeira Divisão. Promessa a gente não conta, a gente deixa guardada no coração. Eu falo e sofro sozinho.

Outra católica fervorosa que não tem vergonha de revelar que já fez as suas orações para o clube subir é Angelina de Oliveira Fonseca. Com 30 anos de Vasco, é ela quem cuida com carinho da sala de troféus e da capela do clube.

Sou muito católica e todas as vezes que vou à nossa capelinha converso com Nossa Senhora das Vitórias. Sempre peço a ela para proteger o meu Vasco.

Mas, esta semana, Angelina admitiu que redobrou os pedidos para sua santa de devoção.

Já comecei a novena para Nossa Senhora. Já mandei até comprar uma vela do meu tamanho para pedir pelo nosso retorno revelou Angelina, que, apesar de estar na tarde de sábado em São Januário, não verá o jogo. Fico andando de um lado para o outro porque o meu coração dispara. Não consigo nem ouvir o rádio, mas apesar de tudo tenho fé de que vamos vencer e voltar para a Primeira Divisão.

Outro que endossa a esperança de dias melhores na Colina é o ex-massagista pai Santana. Um dos líderes espirituais do clube nos tempos vitoriosos, ele assistirá, de longe, à estreia do time sem perder a fé.

Estou sempre confiante e não tenho dúvida de que o Vasco vai subir. Fiquei ainda mais otimista após a classificação na Copa do Brasil. Vamos voltar para onde nunca deveríamos ter saído.

Honra em dobro

Outro coração que vai disparar esta tarde é o do goleiro Tiago, um dos remanescentes do grupo que foi rebaixado no ano passado. Ao contrário de 2008, este ano tudo engrenou na vida do camisa 50. Ele recuperou a condição de titular e o prestígio com a torcida. Ciente da grande responsabilidade que terá pela frente, Tiago sabe que as cobranças serão inevitáveis.

Vamos começar uma competição com todos os holofotes em cima da gente. Por isso, precisamos buscar os três pontos em todos os jogos analisa.

Apesar de apostar na união do grupo para o Vasco atingir o seu maior objetivo, o goleiro não abre mão de sua forte veia religiosa. Uma prova disso é, que antes dos jogos, ele pode ser visto benzendo as traves e fazendo orações.

Eu me benzo quando entro em campo e depois oro debaixo das traves. Mas sei que não é muito certo ter estas superstições baseado no que a Bíblia prega tentou justificar o goleiro vascaíno. Sei que não é por causa disso que vou defender uma bola, mas eu vou continuar fazendo.

Superstições à parte, esta semana o goleiro parece ter recebido um sinal divino na letra de uma música evangélica que não sai de sua cabeça.

A quem eu envergonhei darei honra dupla revela ele parte da música a que se referiu.