Turma com 70 jovens sonha mudar a cara da arbitragem do Rio

Julio Calmon, Jornal do Brasil

RIO - Num momento em que a credibilidade do Campeonato Carioca está em xeque, muito se comenta sobre renovação: de idéias e pessoal, seja entre dirigentes ou profissionais que trabalham no futebol. A arbitragem não está de fora. No centro do furacão, os juízes e auxiliares do torneio têm sido criticados desde a primeira rodada. Embora o cenário não seja animador para quem trabalha na arbitragem carioca, 70 jovens se inscreveram na segunda turma do curso da Escola de Arbitragem da Federação de Futebol do Rio (Ferj). No comando está Carlos Elias Pimentel, ex-árbitro que organiza cursos desde 1983. É dele a missão de manter viva uma profissão cada vez mais contestada.

Agora chegamos a um modelo mais profissional. Fui aprimorando, com a ajuda de ex-alunos, como o Djalma Betrami e o Vágner Tardelli explica Pimentel, que pretende formar árbitros e auxiliares capazes de terem uma carreira internacional.

É uma tarefa difícil. O último árbitro do Rio de Janeiro a apitar em uma Copa do Mundo foi José Roberto Wright, em 1990. Para tal, o aluno precisa cursar 444 horas de aulas, divididas em teóricas e práticas. Na programação, temas referentes à arbitragem (como legislação, código desportivo, redação de súmulas e procedimentos de arbitragem) ou não (inglês, espanhol, português e noções de primeiros socorros).

A nossa média de idade é de 25 anos. Daqui a seis anos, estes alunos estarão no auge da forma. Hoje não temos nenhum árbitro que tenha uma carreira internacional. Isso tem que mudar pede Pimentel, que foi presidente da comissão da arbitragem antes de Jorge Rabelo assumir.

Severos treinos físicos

A aula inaugural aconteceu no dia 10. São 20 mulheres para 50 homens. Grande parte é estudante ou bacharel de Educação Física, mas há algumas exceções, como o Cristiano Gaio, 24 anos, filho do ex-árbitro Sérgio Cristiano do Nascimento que faz parte do corpo docente.

Tive a influência do meu pai, claro. Convivo no meio do futebol desde que era bem pequeno. Tenho o sonho de um dia participar de uma Copa do Mundo diz o aluno.

A maioria já está envolvida com o futebol de alguma forma, seja nas forças armadas, nos colégios ou em ligas amadoras. Patrícia Aguiar, de 25 anos, é uma meia habilidosa do Campo Grande. Professora de Educação Física, tenta desde os 13 anos de idade se firmar como atleta. Mas a falta de incentivo ao futebol feminino tem forçado a jovem a procurar alternativas.

Eu não tenho remuneração. Botei dinheiro do bolso muitas vezes para jogar. Hoje não ganho e nem gasto nada. Não dá para viver assim garante a jogadora, que diz não ser indisciplinada em campo. Só fui expulsa duas vezes, no máximo. Não sou de reclamar, isso atrapalha o árbitro.

Com aulas em três dias na semana, os estudantes tiveram sua primeira avaliação física na terça-feira. Ao todo, eles passarão por mais duas e só a última será eliminatória. Todas seguem o padrão que a Ferj exige de seus filiados. Se conseguirem se formar no fim do ano, já começam a trabalhar em jogos da categoria de base em 2010. Mas não é fácil, principalmente a parte física. A grande maioria já não aguentou no primeiro teste, que consistia em 15 voltas na pista de atletismo do estádio Célio de Barros, com tiros curtos de 150 metros em 30 segundos. A estudante Sabrina Rodrigues, 21 anos, não aguentou e preferiu parar. A jovem divide tempo entre o curso de arbitragem, faculdade de Educação Física e seu trabalho em uma academia. Mas nada que a desestimule a encerrar o projeto de ser auxiliar de futebol:

Não dá prever o futuro. Há pouco tempo, eu não tinha idéia do que queria. Hoje estou aqui. Tem que ter amor ao esporte. É uma oportunidade que a gente tem de conseguir algo na carreira.