Léo Silva, o fiel escudeiro de Ney Franco

Fúlvio Melo, Jornal do Brasil

RIO - Ele não faz defesas importantes como Renan, nem marca gols como a dupla Reinaldo e Victor Simões. Mas a simplicidade do maranhense Léo Silva dentro e fora de campo faz com que o volante seja um dos homens de confiança do técnico Ney Franco. Sem conhecer derrota com a camisa do Botafogo, o jogador busca trazer a rápida adaptação dos gramados para seu cotidiano na Cidade Maravilhosa, onde mora há apenas quatro meses.

São Luís é bem mais calma do que o Rio. Na TV era uma coisa, aqui é outra. Não tenho coragem de andar de carro. Fui ao Pão de Açúcar e nem me mexi. Na hora em que o bondinho para dá um medo confessa Léo.

Como quase todas as carreiras, o começo de Hugo Leonardo Silva não foi fácil. Destaque nas quadras de futsal do Maranhão, o jogador, sempre levado pela mãe, sonhava vir para um time grande do Sudeste. Aos 14 anos, veio o baque. O menino que se dividia entre a escola e locadoras de videogame perdia de forma inesperada aquela que sempre nutriu o sonho do atleta de virar um dia um dos personagens dos jogos eletrônicos.

Meu pai era vigilante e chegava sempre de madrugada do trabalho. Minha mãe abriu a porta para ele e voltou a dormir lembra. Depois, comecei a escutar uma respiração profunda, umas três vezes, e fui correndo chamar meu pai.

O auxílio da vizinha enfermeira de nada adiantou. Antes de ser levada ao hospital, Sônia Maria já estava morta.

Antes de removerem o corpo, peguei no braço dela e vi que não tinha pulso. Disseram para mim que ela estava desmaiada, mas ninguém desmaia de olhos abertos. Fui eu quem fechei os olhos dela. Foi a única vez que eu chorei na minha vida lembra.

A fatalidade mudou o rumo da carreira do jogador. Léo passou a jogar para que todo o esforço da mãe não fosse em vão. No dia do enterro, seu time estudantil no Maranhão conseguiu uma vaga para disputar um torneio em Brasília, onde se destacou e acabou convidado para fazer testes no interior de São Paulo.

Passei por times de Limeira e outros ainda nos juvenis. Acabei trocando de empresário, e fui jogar na URT, em Patos de Minas conta Léo.

A trajetória mineira colocou Léo Silva no caminho de Ney Franco. Primeiro como adversário. Depois, como aliado. A transferência para os juniores do Cruzeiro era o passo que faltava para o sonho de menino virar realidade.

Estava atuando em um time grande. Acreditava que já tinha meus objetivos alcançados comenta o atleta, que só sentia falta de suas raízes maranhenses. Faço aniversário na véspera do Natal, sempre tinha aquela festança. Uma vez, em Minas, na casa de um amigo, meia hora depois da ceia estava todo mundo dormindo. Nunca mais passei o Natal longe de São Luís relembra.

Mas a subida para os profissionais não aconteceu de imediato. O clube mineiro decidiu emprestá-lo ao Ipatinga. Léo pensava estar dando um passo atrás na carreira. Enganou-se.

O Ney tinha saído da base do Cruzeiro para o Ipatinga e pediu minha contratação. Fomos campeões mineiros em 2005, vice em 2006 e semifinalistas da Copa do Brasil. Percebi que minha carreira estava começando conta.

Em 2007, de volta ao Cruzeiro, duas lesões seguidas viraram obstáculo. Um episódio com Adilson Baptista abalou seu rumo. O técnico o chamou de preguiçoso e o tirou de um treino.

Ainda estava sentindo dores no joelho. Depois ele pediu desculpa dizendo que estava nervoso por causa do jogo. Não guardo mágoa, mas acho que a situação poderia ter sido evitada comenta Léo.

Pouco aproveitado e com a concorrência do talentoso Ramires, antes de fazer 22 anos Léo veio parar no remodelado time do Botafogo, onde não escapou dos enganos causados por um grupo repleto de caras novas.

No treino, um preparador me chamou de Reinaldo. Respondi: está lá do outro lado diverte-se o jogador, que, apesar de não aparecer tanto, já foi reconhecido nas ruas. Uma vez um cara passou, olhou e não disse nada. Na volta, gritou : Léo Silva, continua assim. Precisamos levantar o caneco diz, orgulhoso.

Função vital

O segundo volante é responsável por ajudar na transição entre o meio-de-campo e o ataque. Com duas assistências no ano, o jogador sabe que a função no clássico de quarta-feira será parar a dupla Thiago Neves e Conca.

Eles são bons jogadores, mas vai ter hora que eles terão de me marcar garantiu Léo, que espera dedicar um gol ao pequeno Victor Hugo, de apenas 10 meses.

Feliz com a paternidade, Léo só lamenta a ausência da avó de Victor.

A única frustração é minha mãe não ter me visto virar profissional. Mas sei que de algum lugar ela está olhando por mim.