Fla: diretoria é a última a saber de acerto de Ronaldo no Corinthians

Julio Calmon e Thales Soares, Jornal do Brasil

RIO - O anúncio da contratação de Ronaldo pelo Corinthians aconteceu enquanto Marcio Braga, presidente do Flamengo, e Kleber Leite, vice de futebol, estavam em reunião na Gávea. Ao deixarem a sala, ambos ficaram surpresos com a informação. Como um marido traído, foram os últimos a saber.

O Fenômeno iniciou o processo de recuperação de uma cirurgia no joelho direito com as estruturas física e profissional cedidas pelo Flamengo no dia 3 de setembro, mas nunca foi apresentado um projeto para a sua contratação. Tudo ficou na base das promessas, longe de prazos e, principalmente, dinheiro.

No fim do ano passado, Kleber garantiu que o Flamengo faria de tudo para contratar Ronaldo. Resgatou Plínio Serpa Pinto, vice de futebol em sua gestão como presidente, para trabalhar na busca de recursos. Convocou ainda o departamento de marketing para criar fórmulas atrativas de convencer o Fenômeno a vestir a camisa do clube. Com a cirurgia no joelho, tudo foi deixado de lado e o sonho virou frustração.

Ainda estava começando a desenhar o projeto, quando ele se machucou - disse o vice de marketing rubro-negro, Ricardo Hinrichsen. Esperava o sinal verde do departamento de futebol para a gente voltar a trabalhar. Três ou quatro meses atrás, o pessoal do Movimento Fica Ronaldo me procurou, mas quem contrata é o departamento de futebol. Depois do fim do ano passado, não fomos mais procurados.

Plínio Serpa Pinto confirma que tudo parou em fevereiro, quando Ronaldo se machucou pelo Milan:

O projeto foi suspenso e não reativaram. É uma decisão que não cabe discussão.

Kleber Leite lembrou que iria conversar com Ronaldo depois que ele se recuperasse. Marcio Braga havia comunicado no dia 3 de setembro que trataria pessoalmente da negociação com Ronaldo. Ela nunca aconteceu.

No futebol nada me surpreende mais. Foi uma escolha dele. Oferecemos a nossa estrutura e acertamos que conversaríamos depois de ele se recuperar. Ronaldo deve ter tido uma excelente proposta afirmou Kleber.

Marcio parecia não acreditar no que ouvia.

Ronaldo prometeu, mas não cumpriu disse o presidente.

Nike foi decisiva

O sentimento no clube entre os dirigentes é de resignação e incredulidade. Mesmo com o time fora da Taça Libertadores do ano que vem, a esperança era de que Ronaldo ainda assim aceitasse jogar no clube por um ano. A perda se torna pior por ter sido para um rival que também não disputará a principal competição do continente em 2009 e acaba de voltar para a Série A.

Uma resposta imediata parece descartada e a falta de recursos para buscar uma contratação de impacto impede uma reação. Mesmo assim, Kleber aposta na base do grupo montada este ano para colher os frutos em 2009. Plínio acredita que o clube possa caminhar com tranqüilidade, apesar da dificuldade em renovar o contrato de patrocínio com a Petrobras, por causa da crise mundial, e do imbróglio jurídico com a Nike, justamente a fornecedora de material esportivo do Corinthians e patrocinador vitalício do Fenômeno.

A Nike estava incluída no projeto inicial e pode ter até uma lógica nessa negociação. Mas vamos andar com as nossas pernas, sem correr atrás de ninguém afirmou Plínio.

Seria irresponsabilidade dizer que a responsável por essa decisão tenha sido a Nike, mas as coincidências são muitas explicou Ricardo Hinrichsen.

Em São Paulo, a contratação de Ronaldo aproximou a multinacional e o Corinthians novamente. O clube, que estava tendo problemas semelhantes aos que o Flamengo teve com a empresa fornecedora de material esportivo, pretende renovar o contrato com a Nike com valor superior ao atuais R$ 5 milhões por ano. Os dirigentes admitem que a empresa foi fundamental para levar o Fenômeno até o Parque São Jorge.