"Noite da F-1" perde força com fiscalização e Lei Seca

Marco Rosa, Portal Terra

SÃO PAULO - Acostumadas a faturar alto na semana que antecede o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 nos últimos anos, as principais casas noturnas da cidade de São Paulo estão encontrando uma série de dificuldades em 2008 para manter viva a tradição das "festas" que organizam aos fãs do automobilismo e já reconhecem que as ações comandadas pela Prefeitura devem gerar um dos piores faturamentos na história do evento.

O 1º dia de treinos

Conhecidos por não pouparem energia nem investimentos para atrair o público nesta época do ano, alguns estabelecimentos tiveram problemas para se manter em funcionamento até o momento, ou mesmo para repetir os altos faturamentos que se acostumaram a registrar com a chegada da categoria mais importante do automobilismo mundial ao País.

Com a marcação cerrada dos fiscais de subprefeituras em casas suspeitas de facilitar a prostituição e a polêmica Lei Seca, de 19 de junho de 2005, que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas a motoristas, alguns dos locais mais populares da cidade perderam força neste ano e tiveram que fazer mudanças.

É o caso do Café Gauguin, localizado na região do Brooklin. A casa noturna informou que apresentará mudanças neste ano, após os mais recentes obstáculos. Conhecido como um ponto bastante freqüentado em época do GP do Brasil, com atrações especiais aos clientes, a casa reconheceu que já espera um movimento bem menor neste ano.

- Já tivemos outros anos fortes nesta época do ano e o faturamento com certeza vai cair - disse um dos proprietários do estabelecimento, Vitor D'Angelo, que não quis dar informações sobre valores.

- Não adianta investir em algo que você não tem certeza se vai dar certo. O que está atrapalhando e vai nos atrapalhar neste caso será somente a lei seca - disse, informando que seu estabelecimento funciona apenas como "um bar normal, sem nada de especial".

Com as recentes lacrações de estabelecimentos ilegais da Prefeitura, que aumenta o cerco sobre as casas às vésperas do GP do Brasil, alguns proprietários optaram pela divulgação discreta neste ano, sem os famosos luminosos e outdoors espalhados pela cidade que alertavam para a chegada do circo da Fórmula 1 em Interlagos. No entanto, mesmo em tempos de crise e com pouca publicidade visual, algumas boates acreditam que podem aproveitar a chegada de turistas à cidade para encher os cofres nos próximos dias.

Fernando Albuquerque, gerente do New Plaza Cabaret, localizado na região da Bela Vista, projeta um aumento de público e de faturamento na faixa de 30% a 40% em relação aos dias normais, chegando próximo da lotação máxima do local, que abriga até 200 pessoas. Aberta há 25 anos, a casa noturna se especializou nos momentos de happy hour, já que, segundo ele, recebe muitas visitações após o horário comercial e só funciona de segunda à sexta-feira. Para o gerente, os maiores atrativos de seu estabelecimento são os shows de dança, música ao vivo e apresentações em karaokê.

Questionado sobre o sentimento em relação ao fechamento de casas importantes da noite paulistana, como Bahamas, Café Millenium, Romanza, Solid Gold, entre outras, Albuquerque disse que não teme a ação da Prefeitura em seu estabelecimento, desvinculando o New Plaza de qualquer atividade ilegal.

- Nós não temos este tipo de problema porque somos um hotel - disse. Já quanto à reeleição do prefeito Gilberto Kassab, Fernando não escondeu a insatisfação.

- É uma notícia péssima. Mesmo com o fechamento de outras casas, nosso público evapora. Você já pensou em São Paulo sem isso? O que ia ser? Só restaurantes? Temos que ter carne crua e carne cozida- brinca o gerente.

Enquanto algumas boates querem repetir o faturamento dos anos anteriores, outras pensam em conseguir seu espaço na noite paulista e aproveitar as vantagens que a Fórmula 1 traz às casas.

- A gente ouve muitas histórias, mas como é nosso primeiro ano, não sabemos como funciona. Vamos ver e espero que seja bom mesmo. A expectativa é muito boa - disse Luiz Paramdach, proprietário do Bon Vivant, localizado em Pinheiros.

Aberto há apenas cinco meses, a casa possui dois garçons e duas hostess poliglotas que estão preparados para atender aos pedidos dos turistas que desembarcam no Brasil durante toda a semana.

- O diferencial da casa é música ao vivo, com um repertório bem variado, assim como é o nosso público, com um grande número de casais que gosta da casa - disse.

Fiscalizações

Tamanha discrição tem um motivo: com a proximidade do GP, as subprefeituras, em parceria com a Polícia Civil e o Ministério Público, tem comandado atividades de rotina em algumas casas, muitas delas que já foram lacradas algumas vezes pelos fiscais e voltaram a funcionar de forma ilegal. Em contato com o Terra, Alexandre Modonezi, subprefeito da Vila Mariana, uma das regiões mais ativas, disse que, nos últimos dois anos, já realizou 25 lacrações administrativas e físicas em estabelecimentos que funcionavam como boates e casas de massagens.

Só no mês de agosto, foram encerradas as atividades de cinco estabelecimentos noturnos que não estavam de acordo com a lei. Já nesta semana, mais cinco locais foram interditados.

- Nós estamos fazendo a relacração nos estabelecimentos que romperam o lacre (muro) administrativo. Exatamente por causa da Fórmula 1, as casas rompem o lacre e voltam a funcionar para aproveitar a época- disse.

Na última quarta-feira, Modonezi acompanhou o encerramento das atividades no Café Millenari, onde foram encontrados oito funcionários, entre eles uma garota de programa, e o American Show, local em que duas mulheres estavam dormindo nos quartos dos fundos das boates. Como as casas já haviam sido lacradas anteriormente, serão multadas em R$ 4 mil cada.

- Temos encontrado lugares com salão de beleza, para que as mulheres nem precisem sair de lá. Em outros, vemos quartos minúsculos, com condições precárias de higiene e estrutura - afirmou.

Já no dia seguinte, foi a vez de mais três casas serem relacradas, com 26 garotas trabalhando nos locais, que já estavam proibidos de operar desde o início do ano.

- Vamos redobrar as ações fiscais nos dias que antecedem ao evento e relacrar todos aqueles que desrespeitarem as ordens de interdição - disse Modonezi, que já comemora os primeiros resultados.

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