A voz do povo também é a voz do Rei

Márcia Vieira, JB Online

RIO DE JANEIRO - Antes do empate sem gols com a Bolívia, Zico esteve no Engenhão para um evento, mas se apressou a sair. Afinal, tinha uma pelada para jogar algo bem mais divertido do que assistir à Seleção de Dunga. Pelé também tinha mais a fazer. Em vez de torcer (e sofrer) contra a Colômbia no Maracanã, quarta-feira, foi fazer divulgação de um empreendimento na Espanha. De lá, foi mais um a criticar Dunga.

O Brasil tem grandes jogadores em todo o mundo, mas não há conjunto, porque a cada mês muda a equipe e não temos uma maneira própria de jogar disse o Rei do Futebol, em Madri, durante o lançamento do Pelé's Cruise, cruzeiro marítimo que vai passear pelo Mar Mediterrâneo em 2009.

Já a Espanha, dá gosto ver jogar. Sem dúvida é uma das favoritas a conquistar o Mundial. Está dando espetáculo.

Quem está longe disso são os comandantes de Dunga. E este demonstra não querer pedir demissão. Nem as vaias constantes e os xingamentos que viraram rotina parecem mexer com seus brios. Para a sorte do treinador, a existência de um amistoso no dia 19 de novembro, contra Portugal, em Brasília, reduz a hipótese de uma rápida mudança no comando, por enquanto.

Estão plantando uma crise. É claro que não jogamos bem e precisamos acertar certas coisas. Algumas coisas são exageradas. Pedi mais movimentação lá na frente, troca de posições, mas não adiantou argumentou o treinador.

Como reconheceu o comandante, os jogadores parecem não entender direito as suas orientações. Mesmo assim ele se diz otimista.

Estamos em segundo, a caminho da Copa, e temos time para conquistar o título. Tenho paciência e vou agüentar isso, disse Dunga, referindo-se à pressão.

Dunga tenta justificar o mau resultado com a velha desculpa da renovação. Ou alegando uma pretensa perseguição. Mas o empate com a Colômbia foi o terceiro jogo sem gols no Brasil, algo inédito na história da Seleção Brasileira.

Já houve quatro seqüências assim, mas sempre com jogos intercalados dentro e fora do país. Foi assim em 89, com Sebastião Lazaroni, em 90, com Lazaroni e Falcão, e em 2001, com Leão e Felipão. A fase atual é alarmante: nos últimos sete jogos, o Brasil fez gols em apenas dois.

Em relação à torcida, isso é normal. Três dos maiores treinadores do mundo passaram por isso. Zagallo, Parreira e Felipão também viveram momentos difíceis, avaliou Dunga, comparando-se a técnicos que conduziram o Brasil a três de seus cinco títulos mundiais.