CBF pressiona clubes por mudança em contrato de TV após concorrência

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Credit...Tânia Rêgo/Agência Brasil

A dois dias do início do Campeonato Brasileiro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está pressionando os clubes da Série A a aceitar a ampliação do escopo do contrato de venda dos direitos internacionais de transmissão do torneio para a empresa Sport Promotion, vencedora de concorrência organizada pela entidade.
Dirigentes de ao menos 6 dos 20 clubes que disputam a competição se mostraram contrariados com as atitudes da confederação e da empresa, que quer incluir a cessão da transmissão de partidas do campeonato para sites de apostas.
Uma comissão formada por oito times recebeu a oferta da Sport Promotion em reunião na CBF na segunda (22).
"Na terça-feira nós recebemos o documento para assinar até quarta, e acrescentavam mais alguma coisa de apostas, fora do escopo original. Hoje não vamos assinar. Outros clubes também decidiram isso", afirmou Francisco Battistotti, presidente do Avaí.
Como argumento para rejeitar a alteração, o dirigente usa a mesma justificativa para a eliminação da proposta da empresa Prudent na última fase da concorrência, por ampliar o escopo original do contrato. A concorrente queria incluir a exploração da imagem dos clubes em jogos virtuais.
O fundo com sedes nos Estados Unidos e em Luxemburgo havia oferecido R$ 230 milhões por ano, com 10 anos de contrato, totalizando R$ 2,3 bilhões, com luvas de R$ 800 milhões imediatos às equipes.
A proposta era bem maior do que a feita pela Sport Promotion, de R$ 160 milhões por ano, com cinco anos de contrato.
"Cancelaram a proposta da Prudent porque ela pretendia acrescentar games. A briga do pessoal da auditoria que fazia a análise da documentação era que não podia mexer no escopo. A posição do Avaí é que 'pau que bate em Chico bate em Francisco'", afirmou Battistotti.
Até a última semana, todos os clubes estavam dispostos a assinar o contrato de venda dos direitos internacionais. No entanto, depois de a CBF enviar comunicado sobre a inclusão de sites de apostas, alguns recuaram. Quatro dirigentes confirmaram à reportagem terem ficado insatisfeitos com a alteração no escopo.
"Tivemos uma comissão de clubes lá atrás e dissemos que não poderíamos alterar o escopo original. Como querem mudar agora? É contra o que foi definido. Votamos contra. A licitação era para ter transparência", disse Wagner Pires de Sá, presidente do Cruzeiro.
Ele sugere inclusive adiar a assinatura do contrato para o segundo semestre, com reajuste no valor do acordo. "Estou convocando outros clubes para não assinarmos, está em cima do início do campeonato."
Há clubes, por outro lado, que aceitaram a mudança. "A Chapecoense vai assinar o acordo, mesmo com a mudança do escopo, porque não tempo hábil para mudança. Eu recebi uma consulta da CBF, foi um pedido para que informássemos nossa posição sem qualquer imposição. Acontece que a maioria dos clubes já contam com esse recurso", disse o presidente do clube, Plinio David de Nes Filho.
Outros preferiram resolver a questão entre si. "O Corinthians vai decidir internamente", afirmou o presidente Andrés Sanchez.
Para o advogado Bruno Fagali, especialista em direito público e compliance, ainda que a inclusão dos sites de apostas venha acompanhada de um acréscimo financeiro aos clubes, a isonomia e a integridade da disputa terão sido violadas. "Isso porque outras empresas que participaram da disputa, se soubessem, poderiam ter realizado ofertas ainda melhores que a da Sport Promotion", afirmou.
Os clubes da Série A também têm mostrado resistência em assinar outro contrato vencido pela Sport Promotion em concorrência organizada pela CBF, referente à exploração de placas de publicidade estática no Brasileiro.
Palmeiras e Athletico-PR já disseram que não aceitarão o acordo. O time paulista deve realizar um serviço próprio na exploração de publicidade estática no Allianz Parque, mas não quis confirmar ou comentar o assunto. Os paranaenses ainda não definiram o que farão, mas se recusam a ganhar menos que outras equipes.
"Há uma diferença muito grande entre os valores que Corinthians e Flamengo vão receber em relação aos demais clubes. O Flamengo não tem nem estádio. Precisamos acabar com isso, no Brasil tudo é Flamengo e Corinthians", disse Mario Celso Petraglia, presidente do Conselho Deliberativo do Athletico-PR.
Corinthians e Flamengo acertaram com a Sport Promotion a exploração das placas por R$ 12 milhões anuais cada um. O contrato oferecido aos demais 18 clubes é de cerca de R$ 55 milhões por temporada, o que resultaria em cerca de R$ 3 milhões para cada um –um quarto do valor que os dois times de maior torcida do país receberiam.
Outro que deve se recusar a assinar o acordo é o Cruzeiro. Segundo seu presidente, o clube já recebe mais do que o oferecido em outros contratos.
"Ou negociamos à parte ou fazemos nós mesmos. Só com nossos patrocinadores já teríamos oito contratos garantidos, e por um valor maior", disse Wagner Pires de Sá.
O acordo da Sport Promotion com Corinthians e Flamengo foi assinado em agosto do ano passado. Na ocasião, eles não quiseram participar do acerto com a BR Foot Mídia, empresa vencedora da primeira concorrência organizada pela CBF. O processo foi cancelado pela confederação após a empresa não pagar os valores prometidos.
Em uma segunda concorrência, a Sport Promotion saiu vencedora. O resultado foi anunciado pelo jornal Folha de S.Paulo com mais de um mês de antecedência, o que levantou suspeitas sobre o processo.
A Sport Promotion possui longo histórico de proximidade com Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF banido do futebol pela Fifa no ano passado por corrupção.
A empresa faturou cerca de R$ 75 milhões em negócios com o governo federal que envolveram a CBF desde 2012. O ano marca a chegada de Del Nero à confederação, primeiro como vice-presidente de José Maria Marin, preso nos EUA, e depois, de 2015 a 2017, como mandatário da entidade.
O primeiro negócio foi a exploração da publicidade estática da Série B do Brasileiro, por indicação do próprio Del Nero, que tinha relações com a empresa na Federação Paulista de Futebol, entidade que comandou.
Quando Del Nero estava na CBF, o grupo dos empresários José Francisco Coelho Leal e João José Bastos (sócio minoritário na Sport Promotion) também fechou acordos com o governo federal, que incluíam o licenciamento nacional para TV aberta e até internacional em caráter de exclusividade dos campeonatos brasileiros das séries B, C e D, e feminino.
Em nota, a Sport Promotion disse que a relação com a CBF é "a que se espera entre uma empresa dedicada ao marketing esportivo com a maior entidade do futebol brasileiro". A empresa também afirmou que sua relação com Del Nero sempre foi profissional.
"Na época em que [Del Nero] presidia a FPF nunca adquirimos direito algum dos eventos da entidade. Apenas atendemos uma solicitação da FPF para que organizássemos uma competição amadora."
A CBF foi procurada para falar sobre a mudança no escopo, mas não se manifestou. Quem está à frente das negociações é a Ernst & Young, contratada pela entidade para fazer a auditoria da concorrência. A empresa também não comentou, assim como a Sport Promotion.
Em nota que chegou aos presidentes de clubes sobre o tema, de acordo com eles enviada pela CBF, e à qual a reportagem teve acesso, a entidade diz que a auditoria se mostrou contra a mudança e deixou a decisão a critério das equipes.
"A EY se posicionou demonstrando que o referido direito estava claramente excluído tanto do edital quanto da minuta contratual e que na visão de conformidade o processo estava prejudicado considerando principalmente a falta de isonomia frente ao concorrente que participou do processo. Foi colocado também pela EY que qualquer alteração deveria ter a aprovação formal de todos os clubes envolvidos", disse a mensagem.
Na mesma nota, a CBF pede por uma reunião com todos os clubes para discutir o assunto.
"A realização da plenária é mandatória, considerando que foi decisão do mesmo colegiado a manutenção do escopo do edital. Adicionalmente, é de suma importância o registro e formalização da decisão dos clubes, detentores dos direitos, para a manutenção da integridade do processo. A CBF irá convocar os clubes para a realização da plenária na próxima semana, provavelmente na terça feira (30)."