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Atualmente na Bulgária, Paulo Autuori não aceita a forma como a CBF trata o nosso futebol

Jornal do Brasil MAURICIO FONSECA, mauricio.fonseca@jb.com.br

Campeão mundial, campeão brasileiro, bicampeão da Libertadores. O carioca Paulo Autuori é um treinador realizado, mas, aos 62 anos, continua atrás de desafios. Já andou por Peru, Japão, Catar. No momento, treina o Ludogorets da Bulgária. Mesmo da longínqua Razgrad, cidade a 400 quilômetros da capital Sófia, acompanha de perto o futebol brasileiro e mundial. Numa conversa de quase uma hora pelo telefone, o treinador mostrou que segue com a língua afiada. Fala o que pensa, sem jamais se exaltar. Autuori não aceita o que fazem com futebol pentacampeão do mundo e culpa a CBF por nossas mazelas.

Por que a Bulgária?

Porque surgiu a oportunidade de fazer um trabalho mais profundo, coisa impossível no Brasil. Além da possibilidade de disputar uma competição européia. Conseguimos chegar à fase de grupos da Liga Europa.

Você morou muitos anos em Portugal. Já conhecia a Bulgária?

Pior que não. E estou surpreso. É um país com belas parias, resorts sensacionais. Vem muitos escandinavos, turcos, alemães. Estou gostando muito.

O futebol búlgaro é praticamente desconhecido no Brasil. Os clubes são bem estruturados?

O Ludogorets tem uma estrutura espetacular, muito acima da maioria dos clubes que disputam o Campeonato Brasileiro. Atualmente é a principal equipe da Bulgária. Fica na cidade de Razgrad, a 400 quilômetros de Sofia, a capital. Temos nove brasileiros na equipe, entre eles o Renan, que foi goleiro do Botafogo. Temos também alguns búlgaros, romenos e bielorrussos. A equipe é boa. Mas tem um problema. Como tem muitos estrangeiros nos times, a seleção acaba sendo afetada. O espelho até hoje é a seleção de 94, do Stoichkov, que chegou as semifinais.

Gostou do que viu na Copa da Rússia?

Não. Achei o nível aquém do esperado. Os times estavam bem estruturados, mas não gostei. Até mesmo a campeã França não me encantou. Aliás, a Copa já começou estranha, sem Itália e Holanda. Depois Alemanha e Espanha saíram cedo. Foi esquisito.

O que você achou do desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo?

Mais uma vez o lado emocional atrapalhou muito e continuam não dando a devida importância a este lado. Em 2014 o coletivo era muito fraco e quando o emocional desmoronou aconteceu aquilo que todo mundo sabe. Agora na Rússia, o emocional também influenciou e muito. Nosso jogadores sempre foram referências no mundo, idolatrados. Agora nosso principal jogador virou motivo de piada.

Só isso explica o rendimento abaixo do esperado?

Evidentemente que não. Foi um somatório de coisas. Teve também, por exemplo, o excesso de gente na concentração. A zona foi igual a de 2014. Isso acaba tirando um pouco da concentração dos jogadores. E que fique claro que não estou falando da família dos jogadores.

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Paulo Autuori: "A Federação do Rio só pensa em fazer o jogo do poder" (Foto: Divulgação)

É impressão ou ultimamente as Copas não têm correspondido às expectativas?

Cada vez se joga mais na Europa. Com isso, os grandes jogadores chegam no fim da temporada exauridos. E é exatamente o período em que se disputam as Copas. A Copa do Catar, que será entre novembro e dezembro, poderá ter um nível bem melhor. Os craques estarão no meio da temporada.

Em 2013 você disse que os treinadores brasileiros estavam atrasados em relação ao que se fazia no futebol mundial, especialmente europeu. Cinco anos depois, como você vê a sua classe?

Quando falei aquilo em 2013 muita gente não gostou, mas depois da Copa de 2014 virou quase uma unanimidade. E olha que não estava comparando com treinadores de outros países. Minha comparação era com outros profissionais brasileiros, como fisioterapeutas, fisiologistas e treinadores de goleiro. Eles já estavam em grandes clubes e nós, treinadores, não. Só em centros periféricos. Mas acho que avançamos sim, só que ainda há muito a caminhar.

Quanto, por exemplo?

Por sermos os únicos pentacampeões, parecia que não precisávamos melhorar nada. Isso mudou. Já entendemos que não temos mais os melhores jogadores, que não basta botar 11 em campo que eles resolvem. É um avanço. Mas ainda estamos distantes dos nossos treinadores de goleiros. Antigamente, era raro um goleiro brasileiro jogando num grande clube europeu. Hoje somos referência no mundo todo. Tem 12 goleiros brasileiros na primeira divisão de Portugal.

Você acha que os escândalos na CBF, com presidente preso e outros dois impedidos de sair do país, interfere no desempenho dentro de campo?

Não tenho a menor dúvida. Quando não acredito em quem comanda não me sinto estimulado em avançar. Sempre critiquei a forma como a CBF dirige o futebol brasileiro. Ela tem muita força e poderia, se quisesse, fazer um calendário decente. O calendário é o grande vilão do futebol brasileiro.

Mas hoje também se joga muito na Europa?

É verdade, mas ainda menos do que no Brasil. Os treinadores não podem exigir o máximo do time. Se fizerem isso, estouram o atleta. No futebol brasileiro não há um pico na temporada. A pegada é o ano todo. Não por acaso, há muito mais lesões graves aqui do que na Europa, por exemplo.

Com exceção do Flamengo, o futebol carioca está num péssimo momento. Tem jeito?

Tem, apesar da Federação que temos, uma filhote da CBF. Ela não pensa nos clubes, só em fazer o jogo do poder. Mas os clubes estão melhorando. O problema é que estão fazendo agora o que os grandes dos outros estados já fazem há um bom tempo.

E o Fluminense? Por que você saiu?

Apesar das dificuldades, o Fluminense também está andando para frente, mas ainda tem problemas sérios a resolver. Sai porque não cumpriram o que combinaram com os jogadores. Isso não aceito. Não vou ficar inventando história.



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