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Entrevista - Alex: Suspenderam minha função

Ex-jogador lamenta que dinâmica e recomposição sejam mais valorizados hoje do que o talento

Jornal do Brasil MARCOS EDUARDO NEVES, especial para o JB

Ídolo de Coritiba, Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe, da Turquia, Alex foi daqueles craques que soa difícil entender como não disputou uma Copa do Mundo. Mente destacada no meio do futebol, tal qual um Tostão ou Sócrates da sua geração, o ex-jogador, que acaba de completar 41 anos, celebra 15 anos da Tríplice Coroa obtida com o Cruzeiro em 2003, sua melhor fase no futebol. O ex-meia vê o Flamengo, único clube onde não brilhou, à frente dos demais rivais do Rio e encantou-se com a Bélgica na Copa. Descrente, não enxerga mudanças na CBF e acredita que jogadores como ele teriam pouco espaço hoje, em que recomposição e dinâmica são mais importantes do que o talento.

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Alex (Foto: Valterci Santos)

Completam-se 15 anos da histórica Tríplice Coroa, feito inédito que somente o Cruzeiro conquistou. Como você analisa hoje o sucesso daquela equipe?

Se olharmos aquele time hoje, dirão que era um timaço. Gomes, Maicon, Luisão e Cris foram à Copa e tiveram destaque na Europa. Wendell fez sucesso na França, Deivid rodou por vários clubes, Felipe Melo jogou Mundial. Em 2003 tínhamos dois incontestáveis: Aristizábal e Maldonado. Os outros eram apostas, inclusive eu. Eu já era campeão com o Palmeiras e jogava na seleção, mas com minha não ida à Copa e o litígio com o Parma, achavam que não jogaria em bom nível. O Vanderlei Luxemburgo apostou na mescla de jogadores acostumados a títulos com jovens de qualidade. Na minha visão, foi o último time brasileiro que ganhava dominando os adversários em qualquer lugar.

Você considera o Luxemburgo um dos grandes treinadores que teve, senão o melhor. Ele parou no tempo ou dá trabalho manter aquele padrão de 2003?

Não creio que parou no tempo. Acredito que o nível de exigência sobre ele é maior. Somos estranhos na hora de cobrar. Um exemplo é o Jair Ventura. Todos citamos o trabalho dele à frente do Botafogo como bom. Se esse mesmo Botafogo fosse dirigido pelo Vanderlei, seria questionado. Para mim, foi o melhor técnico que tive, em vários aspectos.

Há algum Alex despontando?

Não, por um motivo simples. Os treinadores “suspenderam” a minha função. Eu ouço e leio assim, “O Alex não jogaria hoje”, “Ele não tinha boa recomposição”, “Era lento, participava pouco”... Nessa hora eu penso, ora, fiz 424 gols... sendo lento e sem participar? Não fecha!

Você considerava o Campeonato Carioca um estadual mítico. Como vê a competição e os times do Rio hoje em dia?

Era mesmo. O gol do Rondinelli é lembrado até hoje, o do Cocada é mais falado do que o do Sorato no Brasileiro de 1989, lembram do toquezinho no Leonardo no gol do Maurício, não esquecem a barriga do Renato em 1995... Os times do Rio sentaram nas grandes conquistas do passado e não se prepararam para enfrentar o hoje. O Flamengo, a partir do Bandeira de Mello, deu um passo à frente dos rivais.

Sua passagem pelo Flamengo, em 2000, é o único fracasso da sua carreira. Foi impossível não entrar no oba-oba?

Eu estava acostumado a outro ritmo, mas assumo que a fatia maior do fracasso é minha. Poderia tentar aglutinar, chamar a atenção, treinar mais, brigar por um espaço. Não fiz isso e me arrependo amargamente. É o clube do meu ídolo, o Zico. Ainda assim, o Flamengo me deu a oportunidade de conhecer por dentro uma força absurda, além de me ensinar o que não fazer. Aqueles meses foram importantes para o meu crescimento como atleta e ser humano.

Você tem uma visão peculiar do Botafogo. Pode explicar?

Claro. Teve um período lindíssimo, e muitas vezes parece ainda viver daquele tempo. Mas, para tudo que falamos do Botafogo, tenho várias perguntas. Por que, mesmo naquela época, ganhou tão pouco? Por que, como clube, evoluiu tão pouco? Deve haver respostas.

E Vasco e Fluminense?

O Vasco vive uma situação lamentável, com brigas internas e administrações distantes daquilo que merece o clube. Esses dias tive que explicar ao meu filho que o Vasco é gigante. Apenas passa por um delicado momento. O Fluminense acredito que esteja pagando a conta pela saída da Unimed. Algo parecido aconteceu com o Palmeiras quando a Parmalat saiu. Vasco, Fluminense e Botafogo precisam voltar seus olhos para as suas bases.

Quem hoje te enche os olhos?

No Brasil, gosto de ver o Grêmio jogar. Na Europa há times que assisto mas não me agradam. Ainda gosto de quem causa encanto. Ganhar por ganhar serve para a paixão do torcedor. Respeito, mas prefiro quem me prende. A campeã do mundo foi a França. Mas quem eu pagaria para ver seria a Bélgica.

Pelo que viu na última Copa, há algo de novo no futebol?

Vi uma coisa nova, sim. O mundo dizia que tinha que se defender com os dez atrás da linha da bola. A Bélgica fez o contrário contra a gente, até passou sufoco, mas nos venceu. Gostei dessa coisa de deixar três à frente da linha.

Mesmo quando Neymar se machucou, Tite demonstrava ter nas mãos um time coeso. Você acha que ele errou ao colocá-lo como titular no Mundial?

Não! Ele treinou e se mostrou bem no dia a dia. E estando bem, vai jogar sempre.

Você chegou a dizer que a CBF é a sala de reuniões da TV Globo. A cúpula comandada por Teixeira e Marin caiu, mas você notou alguma mudança?

Nenhuma! Segue tudo igual.

O movimento ‘Bom Senso’, que você ajudou a criar, foi apenas fogo de palha?

Não. Apenas não teve a aderência que imaginávamos. Não vieram treinadores e executivos do futebol, por exemplo. Ainda assim, chegamos à Presidente Dilma, fomos à Casa Civil, ao Senado. Tínhamos poder de discutir e levantar discussões, mas nosso poder de execução era zero.

Você já disse que não trocaria um título de Copa do Mundo pela idolatria que desperta nos turcos.

A fama não me atrai. Mas o respeito adquirido eu gosto e curto. E isso foi duro conquistar. Não trocaria por nada.

Se o Alex despontasse hoje, seria ídolo de três clubes brasileiros?

Talvez de dois. Meu pensamento, quando comecei, era sair do Coritiba, jogar num centro maior, chegar à seleção e depois ir para a Europa. Talvez hoje eu não fosse ídolo do Cruzeiro. Ele só surgiu porque briguei com o Parma e voltei. Mas vou transferir para o meu filho: se ele tivesse 18 anos e viesse um time brasileiro ou europeu atrás dele, diria para jogar por aqui e consolidar uma história primeiro. Nunca fui deslumbrado com Europa.

Por falar no seu filho, Felipe, ele tem tudo para ser jogador de futebol. E sua filha, Maria Eduarda, vem se destacando como tenista. Aptidão para esporte é genética ou proximidade com o meio?

Acredito que de tudo um pouco. Agora, se serão atletas, sinceramente, não me preocupo com isso. Não depende de mim. Apenas sou apoio, junto com a mãe deles.



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