Tênis: a decadência das duplas

De meados da década de 1980 para cá, no universo do tênis, o jogo de duplas tem experimentado um inegável esvaziamento.

Os prêmios pagos aos duplistas cresceram proporcionalmente menos do que os dos simplistas e o público para os jogos de duplas minguou junto com o prestígio dos campeões. Os duplistas foram também excluídos dos melhores horários de jogo e das melhores quadras. Até o jogo foi encurtado, pois hoje, com raras exceções, como Wimblendon e Copa Davis, não se joga mais duplas em melhor de cinco sets e, na maioria dos campeonatos, se adota o set tie break no lugar da negra tradicional.

Minha tese é que, ao lado de outros fatores que possam contribuir para o aludido esvaziamento, os campeões dos mais importantes campeonatos de duplas dos últimos anos não são os melhores duplistas em atividade.

Até os anos 80 era raríssimo não se ter na final de duplas dos grandes torneios, notadamente os que compõem o grand slam, um simplista de destaque, um jogador que, no mesmo torneio, não tenha chegado, digamos, às quartas de final.

Tomemos os últimos 60 anos de Wimblendon, sabendo que o resultado seria semelhante se considerássemos qualquer outro grande campeonato. Foram finalistas desse torneio inglês de simples e duplas no mesmo ano Ashey Cooper (em 1958), Neale Fraser (em 1958), Rod Laver (em 1959), Roy Emerson (em 1964), Fred Stolle (em 1964), Tony Roche (em 1968), John Newcombe (em 1969), John Newcombe (em 1970), Ken Rosewall (em 1970) e Stan Smith (em 1972). O sexagenário John McEnroe, finalista nas simples e nas duplas em 1981, 1982, 1983 e 1984, foi quem há menos tempo, 34 anos, consumou tal façanha.

Nos últimos dez anos, por outro lado, estiveram no topo do ranking de duplas da ATP Bob e Mike Bryan, Daniel Nestor, Nenad Zimonjic, Max Mirnyi, Marcelo Melo, Jamie Murray, Nicolas Mahut, Henri Kontinen, Lukasz Kubot e Mate Pavic. Desses, apenas dois, Max Mirnyi e Luksz Kubot conquistaram lugar entre os 50 melhores simplistas do mundo. Dos outros nove, sete jamais se aproximaram dos cem melhores do ranking de simples da ATP, e Jamie Murray, no seu melhor momento, estava atrás do 833º simplista do mundo. Os recentes grandes campeões de duplas dificilmente aparecem nas rodadas principais dos torneios de simples.

Feitas essas observações, volto à tese e indago: os irmãos Bob e Mike Brian, Marcelo Melo e Lucas Kubot, Bruno Soares e Jamie Murray, Herbert e Mahut e outros times ganhadores dos últimos anos formam mesmo as melhores duplas do mundo?

Boa pista para enfrentar essa questão se encontra em Wimblendon e no Aberto dos Estados Unidos deste ano. Foram os dois primeiros grand slams em que Mike Bryan, duplista tradicional, e Jack Sock, simplista de primeira linha, se inscreveram juntos. Pois bem, mesmo sem muito tempo para treinarem e se entrosarem, os dois jogaram e ganharam os torneios. E mais, Jack Sock revelou clara preponderância técnica na dupla campeã. Ora, Sock é um grande tenista, mas está longe do nível dos supercampeões da atualidade. Ainda assim o tênis que apresentou foi suficiente para desequilibrar a balança dos certames de duplas.

Algo comparável já ocorrera na chave de duplas dos jogos olímpicos de 2016, disputados no Rio de Janeiro. Sequer subiram no pódio as duplas cabeças de chave 1, 2, 3 e 4, entre as quais as formadas pelos renomados duplistas Herbert e Mahut, da França, Marcelo Melo e Bruno Soares, do Brasil, e Jamie Murray, da Grã-Bretanha. Nessa competição, a medalha de ouro coube à dupla de Rafael Nadal, o excepcional simplista que todos conhecemos.

Hoje, se fosse obrigado a apostar, diria que a melhor dupla do mundo se forma com Roger Federer e Nadal ou Djokovic, não por acaso os três maiores simplistas da atualidade.

* Especial para o JB. Brenno Mascarenhas joga tênis desde 1966