Pag. 33 - Carlos Eduardo Novaes

O colorado veríssimo o internacional era o brasil no mundial de clubes – diziam todos – assim como o goiás foi o brasil na copa sul-americana. ambos deixaram seus torcedores e os torcedores solidários chupando o dedo. esta história não vem dando certo. não seria melhor que estes clubes apenas representassem a eles mesmos para não comprometerem o currículo do futebol pentacampeão do mundo? quem poderia imaginar que o inter entregaria a rapadura a um time africano fundado por monges beneditinos? talvez os gremistas que torceram pelos congoleses (como se fossem africanos desde criancinhas) e antes já haviam torcido pelos argentinos contra os goianos.

Fosse à época da ditadura militar e o sni já estaria nos calcanhares desses gremistas antipatriotas.

O internacional realizou um planejamento científico para abiscoitar o bicampeonato mundial; desinteressou-se pelo brasileirão, poupou jogadores, viajou aos emirados árabes com a devida antecedência e arrastou com ele um monte de torcedores que agora terão que pagar a derrota + passagens e hospedagens para abu dhabi em 24 prestações. de que adiantou tudo isso? o inter perdeu para o desconhecido mazembe, cujos jogadores estavam mais preocupados em desfilar seus penteados pelo gramado. alguns deles pareciam saídos dos antigos filmes de tarzan.

Quando o juiz apitou o final da partida, a primeira pessoa de quem me lembrei foi o amigo luis fernando veríssimo, o mais colorado de todos os gaúchos que conheço. veríssimo, um globetrotter, chegou a pensar em viajar aos emirados.

Mas desistiu, receoso de não controlar suas emoções – trancadas a cadeado – e de repente sair pulando de alegria pelo estádio bin zayed (dá para imaginar?). preferiu ficar em ca sa. desmarcou seus inúmeros compromissos e isolou-se no quarto para poder torcer ?à vontade. a família, sabendo que “torcer à vontade” não significa mais do que exalar murmúrios e sussurros, tratou de encostar o ouvido na porta atrás de alguma manifestação comum em torcedores apaixonados, um grito, um gemido, um palavrão... silêncio total.

– tudo bem aí, luis fernando? – perguntou lucia através da porta.

– tu... – respondeu ele com sua loquacidade exuberante.

Terminado o primeiro tempo, veríssimo abriu a porta com aquela expressão de tristeza e melancolia que não muda nem em baile de carnaval.

– o inter está perdendo? – perguntou o filho pedro.

– não... – respondeu, esfregando as mãos num discreto gesto de contentamento.

No segundo tempo, os congoleses marcaram dois gols e venceram o jogo, mas como veríssimo, torcendo à vontade, não emitiu um único som, a família ficou sem qualquer indicação do resultado. encerrada a partida, veríssimo abriu a porta do quarto, com a serenidade que o caracteriza e permaneceu olhando para os familiares com aquela expressão indecifrável que exibe em todas as fotografias.

– e então, luis fernando? como foi o jogo? fala! diz alguma coisa! – precisa falar? – reagiu ele, tagarela. – não dá para ver no meu rosto? a família respirou aliviada, jogou-se em seus braços e abraçou-o comemorando a vitória do inter. |cen13ter ra.com.br.