Pag. 35 - Tudo sempre passará

O tricolor nelson mota escreveu e outro tricolor, lulu santos, imortalizou em canção as seguintes palavras: “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. como o título da música mais cantada dos anos 80 é “como uma onda (zen-surfismo)”, acho bastante improvável que seus autores tenham pretendido fazer alguma alusão futebolística com ela. no entanto, poucas coisas são tão verdadeiras em relação ao futebol como essa característica de imprevisibilidade, de vai e vem, de momentos cíclicos e instáveis como uma onda no mar. e poucas vezes um ano esportivo foi tão capaz de demonstrar tais altos e baixos como este 2010, que vai chegando ao fim.

Comecemos pela copa do mundo. noves fora tudo o que vimos nas eliminatórias e na própria fase de classificação, a competição mais importante do esporte chegou ao final com a consagração da espanha, uma seleção que sempre foi apontada como incapaz de superar a própria maldição de eterna perdedora, enquanto países campeões e considerados eternos favoritos – brasil, argentina, frança, inglaterra e itália – tendo protagonizado, em maior ou menor grau, indiscutíveis fiascos. além disso, o único campeão do mundo em que ninguém apostava mais uma mísera ficha, o uruguai, fez belo papel e foi premiado com a quarta colocação e a eleição do craque do campeonato.

No futebol brasileiro, a gangorra funcionou loucamente.

E duas rivalidades históricas e encarniçadas representam claramente essa insustentá vel leveza dos times de futebol. o elevador lacerda sobe da cidade baixa para cidade alta: bahia, depois de muitos anos nas divisões inferiores, de volta à série a. mas o elevador lacerda não voltou a descer sem recolher um ilustre passageiro: vitória, depois de muitos anos na série a, rebaixado para a segundona. agora vamos para o sul, onde não há elevador lacerda, mas há o vai e vem das ondas. primeiro semestre: gremistas em baixa, frequentando a zona de rebaixamento no brasileirão e sendo impiedosamente avacalhados pelos colorados, inflados pela conquista da libertadores que os levaria ao catar, em busca da hegemonia do futebol gaúcho. segundo semestre: colorados devastados por uma das maiores zebras da história do futebol de clubes, a derrota no mundial interclubes para o desconhecido mazembe, do congo (cujo pitoresco escudo mostra um jacaré engolindo uma bola), enquanto os gremistas fazem a festa gozando o rival e comemorando a classificação heroica para a próxima edição da libertadores.

Não podemos nos esquecer do fluminense, outro que viveu ao sabor das ondas, passando da desesperadora situação de 99% rebaixado no último campeonato brasileiro para 100% campeão na atual edição do torneio. do outro lado da arrebentação, o flamengo, campeão de 2009, escapou por pouco de ser rebaixado em 2010. também chamou atenção o santos, clube que fazia enorme esforço para se tornar menos relevante na gestão anterior, com a chegada do presidente luis alvaro de oliveira ribeiro tornou-se novamente um dos líderes do futebol nacional.

Líder dentro de campo, com a conquista do campeonato paulista e da copa do brasil, e líder fora de campo, como influente representante dos interesses dos clubes e da moralização do futebol no país.

Para terminar o ano com chave de ouro, o presidente santista foi um dos principais articuladores do reconhecimento dos campeonatos nacionais conquistados antes de 1971, fazendo justiça a clubes e craques históricos que há muitos anos lutavam por tal reconhecimento. hoje, o alvinegro praiano é oficialmente (ou quase, pois a cbf ainda vai sacramentar a decisão), ao lado do palmeiras, o maior vencedor de títulos nacionais no país. o que, convenhamos, para quem teve o rei pelé por quase duas décadas, é mais do que razoável.

Mas não adianta fugir nem mentir para si mesmo: os torcedores que hoje festejam a boa temporada de seus times não devem jamais se esquecer de que, no ano que vem, tudo pode mudar outra vez.

Tudo passa, tudo sempre passará e, da mesma forma que todo barcelona pode ter o seu dia de mazembe, todo mazembe pode ter o seu dia de barcelona.