Fluminense tricampeão

A liberdade deste cronista esportivo em assumir publicamente a admiração pelo time das laranjeiras a vida de cronista esportivo me proporcionou momentos maravilhosos, como a cobertura de quatro copas do mundo, uma das quais terminou com a conquista do pentacampeonato pela seleção brasileira. no ano de 2002, em yokohama, este escriba que quando garoto sonhava, no máximo, ver de perto um campeão do mundo de 1970, teve a fortuna de acompanhar a histórica vitória sobre a alemanha ao lado de ninguém menos do que tostão.

Entretanto, se por um lado a atividade de comentarista esportivo abre tantas e tão extraordinárias portas, às vezes uma ou outra nos é fechada. e uma dessas portas fechadas é justamente a possibilidade de comemorarmos, sem economia de adjetivos, um título do nosso clube do coração.

Para princípio de conversa, todos os jornalistas esportivos que conheço torcem – e muito – por um clube de futebol. e nem poderia ser diferente, pois, da mesma maneira que ninguém que odeie o espaço resolveria ser astronauta, um sujeito sem vínculo emocional com o futebol dificilmente se proporia a cobrir as desventuras do esporte bretão. a partir desse dado, a crônica esportiva se divide entre profissionais que torcem por um time e escondem o fato e outros que, como eu, torcem por um time e não ocultam isso do público.

Com raras exceções, os colegas que revelam suas predileções costumam ser mais rigorosos com os clubes de sua afeição do que com as equipes rivais. antigamente, em tempos menos politicamente corretos e aborrecidos, cronistas geniais co mo nelson rodrigues podiam usar quantos adjetivos e quantas hipérboles quisessem para enaltecer as conquistas do time de seus amores. não compartilho, nem de longe, o talento do mestre dos mestres, mas tenho muito orgulho de compartilhar com ele o amor pelo fluminense.

E então, quando depois de 26 anos de espera o fluminense sagra-se campeão brasileiro, cá estou eu, escolhendo e polindo dezenas de vezes cada palavra, cheio de pudores, com enorme receio de passar uma imagem de torcedor irracional – com o perdão da redundância. não importa que eu tenha acompanhado todos os jogos do meu time na campanha vitoriosa de 2010. não importa que, morando em são paulo, eu tenha me deslocado duas vezes ao engenho de dentro e duas vezes a barueri para ver os últimos jogos desta temporada. não importa que eu tenha levado minha mulher, alexandra, e meus três filhos, marina, clarissa e joão, para ver a consagração de conca, muricy e o time de guerreiros tricolores na decisão com o guarani. não importa que eu quase tenha apanhado da torcida do coritiba, quando fui acompanhar no couto pereira o epílogo do mais sobrenatural episódio da história do tricolor: a fuga do rebaixamento, no brasileirão 2009. não importa nada disso. é preciso ser racional.

Eu devo ser racional.

Eu devo escrever que o fluminense foi o merecido campeão de uma competição emocionante e equilibrada, ainda que marcada por intermináveis e lamentáveis discussões sobre erros de arbitragens, jogos entregados e malas brancas. mas como falar disso e esquecer que, no engenhão, a marina tinha os mesmos 19 anos que eu tinha, em 1984, quando vi o time comandado por parreira ser campeão? eu devo falar de conca, o mais regular, o mais humilde e, apesar de tanta discrição, o mais exuberante craque do campeonato. mas como falar de conca e esquecer que a clarissa e o joão jamais tinham comemorado um título do time que escolheram para torcer, mesmo morando a 450 km das laranjeiras? eu devo, definitivamente, narrar a catarse gerada pelo gol solitário de emerson.

Mas como falar daquele gol sem recordar a imagem de alexandra, ex-corintiana convertida às três cores que traduzem tradição, chorando de emoção na hora em que a rede foi estufada e a agonia de uma torcida definitivamente chutada para bem longe? não. eu não consigo contar a história deste campeonato brasileiro sem mencionar as pessoas e o clube que eu amo.

O amigo leitor, que sabe o que é amar clubes e pessoas, saberá me perdoar o deslize. porque, como dizia nelson rodrigues, 26 anos não são 26 dias.