"Família agoniza mas não morre", brinca na Flip o escritor Zuenir Ventura 

Tema entre os mais recorrentes na literatura universal, tendo sido tratado com maestria pelo russo Leon Tolstói, a família não podia deixar de ser debatida na 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O jornalista e escritor Zuenir Ventura deu o tom do encontro ao ler trecho de seu novo livro A Sagrada Família, levando o público às gargalhadas. 

Ao lado da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso e do crítico literário João Anzanello Carrascoza, Zuenir participou da mesa Em família na Lona dos Autores. 

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Dulce versou sobre a importância da entidade familiar na ambiência psicológica de seus personagens. A portuguesa ainda classificou que a família é ligada pelo amor, o sentimento que, para ela, é mais ‘benigno os jogos do poder”. Ainda, definiu a família como um espaço de proteção, mas atentou para a mudança nessa estrutura: 

“Percebemos que a família (como era entendida) continua em crise. Basta olhar a quantidade de divórcios, casamentos homossexuais”, disse. “Seu grande desafio hoje não é só satisfazer as necessidades sociais, mas ser o sítio por excelência de proteção. A família deve ser sempre uma casa, e não uma prisão”. 

Carrascoza revelou que as relações familiares sempre foram uma obsessão em sua literatura. Ao refeltir sobre o tema, ele concluiu que sua curiosidade estava centrada na proximidade entre duas pessoas. Além disso, citou o silêncio como uma forma de diálogo muito esclarecedora, que passa desapercebido por muitas pessoas. 

Ainda, relacionou essas experiências cotidianas de relacionamento, como as familiares, com o fazer poético, referindo-se ao poema Flor e náusea, de Carlos Drummond de Andrade. 

“Temos a noção de finitude o tempo inteiro. Por isso, é preciso encontrar no cotidiano essa flor feia da poesia”, afirmou. 

Apesar das belas exposições de seus companheiros de mesa, Zuenir Ventura roubou as atenções. Com bom humor, falou sobre a família da década de 40, época em que os costumes e a moralidade imperavam entre as relações pessoais. O jornalista aproveitou para esclarecer que A Sagrada Família não é uma autobiografia, mas uma mistura de suas memórias com lembranças que pegou emprestado. Ao definir o casamento, foi categórico: 

“A família é como o samba: agoniza mas não morre”, brincou.