'Lula vai levar candidatura até o fim', diz Gleisi Hoffmann em entrevista ao JORNAL DO BRASIL

Depois de uma verdadeira jornada para definir a chapa do PT à sucessão presidencial de outubro, a presidente nacional do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), afirmou ao JORNAL DO BRASIL que a legenda considera a possibilidade de levar a candidatura do ex-presidente Lula, mesmo sub judice, e não fazer a substituição do candidato pelo ex-prefeito Fernando Haddad. Segundo ela, um dispositivo da Lei da Ficha Limpa permite que isso ocorra até a diplomação do vencedor das eleições. “O presidente quer ir até o fim com a candidatura dele”, contou.

A estratégia do PT ainda depende de muitas avaliações e de suas consequências, mas essa decisão está crescendo no comando da campanha. Gleisi diz que o partido quer que o STF julgue, inclusive, os recursos do ex-presidente Lula em relação à condenação pelo caso do tríplex.  E lembra que, assim como ela, Lula pode ser inocentado, pois foi condenado apenas com base em delação premiada. Perguntada sobre o risco de o STF indeferir o registro, ela questiona se o Supremo terá coragem de impedir um presidente eleito por milhões de votos. Gleisi explica que a insistência por Lula não é só por ser o maior líder político do país, mas que o PT, como maior partido de esquerda da América Latina, tem “uma responsabilidade” perante a população brasileira e não pode desistir. “O povo está dizendo que quer brigar pelo Lula”, afirma.

Como a senhora responde às críticas de que a chapa Haddad-Manuela seria ideal para a reitoria da USP e não para a Presidência da República e que não empolga?

Primeiro,  que não é uma chapa da disputa presidencial, o nosso candidato a presidente é Lula. O Haddad é representante de Lula, o porta-voz de Lula e Manu é a vice. Então a chapa que empolga o povo brasileiro é a chapa Lula, de vice, Haddad, neste período de vocalização em que ele está ausente da campanha e Manuela é a vice.

Como explicar essa chapa tríplice para a população brasileira? Não é difícil?

É difícil entender esse momento que o Brasil está vivendo depois do golpe, não é?. Nós estamos vivendo uma situação excepcionalíssima da democracia brasileira, aliás eu diria que nós não estamos vivendo a democracia brasileira. Impedir Lula, como eles estão fazendo, é uma agressão, uma violência enorme a nossa democracia. Então, para situações excepcionais, exige-se medidas excepcionais. Foi o que nós encontramos para poder levar adiante uma coligação que vai ser vitoriosa e Lula poder ser vocalizado enquanto não se resolve sua situação judicial.

Como isso vai ser dito para a população? Vai trocar Lula pelo Haddad...

Nós não vamos trocar, o Lula é candidato. E a povão tanto entende isso que continua dizendo que vai votar em Lula. Lula tem mais de 30% da intenção de votos consolidada.

Em que momento o PT vai tomar a decisão? Ou Lula vai até o final?

Nós temos o entendimento de ir com Lula até as últimas consequências. O PT está considerando fortemente levar adiante a candidatura de Lula mesmo sub judice porque há um dispositivo na Lei da Ficha Limpa que permite ir até a diplomação. É óbvio que a gente sempre analisa as consequências políticas. Nós temos uma coligação e vamos fazê-la, mas nós estamos convictos de que Lula é o nome para ganhar a eleição e para tirar o país da crise.

E dá para correr o risco?

Quem vai correr o risco é a institucionalidade brasileira se não aceitar a candidatura de Lula, aliás vai colocar o Brasil em uma instabilidade, já estamos e vai aprofundar.

Como o PT vai driblar a ausência de Lula e Haddad nos debates? Marina Silva disse ser contra o PT enviar representantes e disse que o partido paga o preço pela escolha.

O que que a Marina entende de Direito? Nada, né? Ela pode opinar, mas não é ela que vai determinar nada. Aliás, é um acinte ela falar isso para a democracia e para a Constituição. O Lula tem direitos políticos, portanto os direitos políticos dele têm que ser respeitados. Ele tem direito a participar de debate, mesmo se ele estiver no processo depois da eleição de contestação da sua candidatura. Até a candidatura dele ser completamente contestada e ele ter exercido todos os direitos de recurso, inclusive do processo que o condenou e ter perdido, ele tem direitos, inclusive com o registro suspenso. As regras são assim no Brasil.

Mas, na prática, como vai ser sem o PT participar dos debates?

Eles vão ter que deixar a cadeira vazia e explicar para o povão porque eles estão deixando Lula de fora. Conversamos com a TV Bandeirantes, pedimos que isso fosse feito, vamos denunciar isso publicamente. Isso não vai ficar em branco, não. Toda vez que tiver um debate e o Lula for impedido de participar, nós vamos fazer um debate paralelo.

Como você vê a Manuela como vice?

A Manu agrega muito, primeiro ela representa um dos partidos que têm relação histórica com o PT na caminhada política que é o PCdoB. Segundo, ela é mulher, jovem, descolada, dá um frescor à campanha. Ela vai ter um papel muito importante na condução da campanha e depois na governança do país.

Como vai ser o Haddad no palanque falando pelo Lula?

Ele vai falar o que o Lula pedir para ele falar, não é o discurso do Haddad. Vai ter que falar com o povo e passar a mensagem que o Lula está passando para ele passar.

E como vai ser o horário eleitoral?

Lula estará presente. Legalmente, ele tem direito a fazer a campanha eleitoral dele, candidatíssimo e falando para o povo.