Igreja, black blocs, direitos humanos, rejeição: o que está em jogo entre Freixo e Crivella

Especialistas analisam campanha para o segundo turno da eleição no Rio

Com o início da campanha para o segundo turno da eleição à Prefeitura do Rio de Janeiro, a disputa começa a se estruturar de outra forma. Para ganhar o cargo, Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) vão precisar adaptar seus discursos para conquistar os votos dados aos candidatos derrotados, além de atraírem os quase 25% dos eleitores que se abstiveram no primeiro turno. O resultado ainda é imprevisível, mas algumas estratégias começam a ser delineadas na campanha de ambos.

Uma aliança com o PMDB, por exemplo, é recusada pelos dois, pelo menos abertamente. O partido do candidato derrotado Pedro Paulo não deve apoiar oficialmente nem Crivella nem Freixo. É o que defende a professora do departamento de Estudos Políticos da Unirio Clarisse Gurgel. “Os dois candidatos não querem o suporte do partido, mas é provável que o PMDB, na informalidade, libere seus quadros para apoiar Crivella”, explicou.

O professor de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) Carlos Sávio Teixeira concorda que nenhum dos dois candidatos vai buscar o apoio do partido do atual prefeito oficialmente. “Nos bastidores, o PMDB vai fazer um apoio velado a Crivella”. Para o professor, Carlos Osorio (PSDB) e Flavio Bolsonaro (PSC) também não devem declarar apoio formal ao candidato do PRB. “O comportamento destes candidatos não vai ser usual, pois o custo do comprometimento para eles é alto. Eles vão se perguntar o que ganham com a aproximação. O apoio ao Crivella vai ser indireto, por afinidade política”, ressalta o professor. Ele crê na transferência dos eleitores do quarto colocado no primeiro turno, Flávio Bolsonaro, para Crivella.

Clarisse também acredita que a maior parte do eleitorado de Bolsonaro vai para o candidato do PRB, mas analisa a possibilidade de um fenômeno interessante nesse segundo turno. “Os votos de Flávio Bolsonaro foram majoritariamente de uma classe média emergente da Zona Oeste que ainda não encontrou uma identidade social. Não sabem se são empresários ou trabalhadores.” Para a professora, este setor tende a ser conduzido a um voto radical de auto-reconhecimento identitário, que vão de um espectro que começa na extrema-direita, até os votos contra “tudo isso que está aí”. Segundo ela, essa atitude poderia se expressar em votos para Freixo, mesmo que em minoria.

Para Carlos Sávio, o eleitorado está dividido entre dois grandes cortes: o ideológico, entre direita e esquerda, e o religioso. Segundo o professor, Crivella leva a melhor nessa divisão. “Do ponto de vista ideológico, Freixo está à esquerda. O perfil da votação mostra que os candidatos de centro-direita e direita ficaram bem, como Pedro Paulo e Bolsonaro, enquanto Jandira e Molon ficaram para trás”.

De acordo com ele, isso demonstra um claro favoritismo do candidato do PRB, cuja maior vantagem - o voto e apoio dos evangélicos - é também seu maior problema. “Uma vinculação excessiva de Crivella com movimentos religiosos podem ser explorados por Freixo.” Além disso, com um possível apoio do PMDB por trás dos panos, Crivella teria em sua função a máquina eleitoral do partido que quase levou Pedro Paulo - o candidato com o maior financiamento de campanha dessas eleições - para o segundo turno.

A professora Clarisse Gurgel também crê que o apoio de figuras populares podem contribuir para o sucesso de Crivella, além da proximidade com as áreas pobres da cidade. “Freixo precisa se aproximar das periferias, onde o Crivella já tem uma base. Ele tem apoio de figuras populares, como Romário, enquanto Freixo é apoiado por personalidades admiradas pela classe média. Ele teria de perfurar uma estrutura de lealdade já construída pelo candidato do PRB”, ressaltou.

De acordo com ela, o índice de rejeição de Crivella pode ser minimizado se ele conquistar a classe média, enquanto Freixo precisa incluir o debate sobre os moradores da favela no seu programa. “Ele toca em um nó que é a milícia, que domina as favelas. O Freixo pisa num terreno perigoso, pois a milícia cumpre o papel de substituir o poder público, o que afasta o candidato do morador. Se ele desatar esse nó, tem chance de entrar na favela”, destacou a professora.

A mídia também pode ter papel fundamental neste segundo turno. Na opinião do professor da UFF, Freixo tem mais chances de ter suporte da Rede Globo, ainda que tímida. “O establishment não tem vínculo nem com Crivella nem com Freixo, mas a vitória do PRB no Rio pode tornar o partido um ator político nacional”. Segundo o professor, a ligação do candidato com a Igreja Universal, cujo líder Edir Macedo é também dono da Rede Record, poderia ser prejudicial para a Globo num cenário de vitória de Crivella. Já Freixo representaria uma ameaça menor para a emissora. “Quando a esquerda chega ao poder, geralmente os grupos dominantes e poderosos acham que vão poder controlar ou anular essas candidaturas”, ressaltou Carlos Sávio.

Campanha negativa

Para o professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj João Feres Júnior, o clima da campanha vai depender das pesquisas. “Campanha negativa só faz sentido para quem não estiver em primeiro lugar. Dessa forma, Crivella não deve fazer isso, a não ser que a terceirize, ou seja, seus eleitores podem fazer ataques ao adversário pelas redes sociais.”

Segundo o professor Carlos Sávio, o enfrentamento vai ser mútuo. Freixo pode atacar a ligação do candidato do PRB com a igreja e com o bispo Edir Macedo, enquanto Crivella vai questionar a posição do Psolista em relação aos black blocs. Mas a discussão sobre direitos humanos vai ser diferente do que foi com Bolsonaro, por exemplo. “Crivella é mais de centro. Tem uma ligação com o social. Há uma diferença entre ele e os 'Bolsonaros', para os quais os conflitos devem ser resolvidos com polícia e autoridade. O discurso de Crivella não vai por esse caminho. Se perguntar ao Crivella sobre opressão às minorias, ele vai dizer que se preocupa com as maiorias”, explicou.

Independentemente dos ataques feitos na campanha, o índice de rejeição pode definir o pleito. “Quem não votou no primeiro turno só votaria agora com uma razão negativa, para não eleger quem eles não querem. No segundo turno ganha quem tem menos rejeição”. Para Carlos Sávio, o segundo turno é tanto uma competição entre os dois candidatos quanto do candidato contra ele mesmo. De acordo com João Feres, a rejeição é maior contra o candidato há mais tempo na política tradicional partidária. “Freixo tem mais a ganhar com essa rejeição geral da política do que o Crivella. A princípio ele tem mais possibilidade de atrair o eleitorado desgarrado.”

Já Carlos acredita na possibilidade de aumento de abstenções. “O eleitor brasileiro rejeita a política, criminaliza a política. Em Belo Horizonte, por exemplo, o Alexandre Khalil foi para o segundo turno rejeitando a política. Essas candidaturas do Rio, apesar de não serem do establishment político, são políticos conhecidos. Embora as pessoas não queiram políticos, também não querem religiosos nem militantes no segundo turno. Isso afasta o eleitor”, concluiu. Tanto para o professor da UFF quanto para a professora da Unirio, a estratégia para Freixo é suavizar o discurso, sem se descaracterizar para não perder o eleitor jovem. Já Crivella deve manter a posição defensiva, afirmando não ter ligação com Edir Macedo.

* do projeto de estágio do JB

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