Eleições: identificação com candidato é mais importante critério para brasileiro

Essa é a opinião de especialistas que dizem que o voto partidário está em baixo

O voto do brasileiro é orientado por percepções como padrão de vida, identidade com o candidato, posicionamento sobre alguns temas e mesmo vantagens imediatas. A avaliação é de especialistas consultados. Eles destacam que o voto partidário está em baixa. Quanto ao desejo de mudanças, expresso nas manifestações de junho de 2013, a interpretação é que, embora alguns candidatos tenham incorporado o tema à campanha, a influência no pleito é pouca.

Na visão da cientista política Raquel Boing Marinucci, professora da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Centro Universitário de Brasília, o voto dos brasileiros é menos emotivo do que se imagina. “Muitos defendem, por exemplo, que os beneficiários de programas sociais criariam laço afetivo ou tradicional com o governo. Eu faço leitura diferente. Para mim, as pessoas que sentem diferença no padrão de vida e atribuem ao governo, votando nele ou não, estão fazendo cálculo racional, como descrito nos manuais de teoria política”, observa.

Entretanto, Cláudio Gurgel, cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense, critica o que considera distorções desse tipo de critério do eleitor, como o voto por vantagens pessoais e imediatas. “Essa situação se manifesta muito em sociedades profundamente desiguais e de população muito carente, que é o caso brasileiro”. Cláudio ressalta que o eleitor pode ter outros critérios, como identificação com o perfil do candidato ou a concordância com suas ideias.

Caso, por exemplo, de eleitor e candidato serem professores, ou de identidade se ambos forem portadores de deficiência, segundo ele. "Neste caso, o eleitor vota naquele que mais tem identidade com ele. Outro aspecto é a subjetividade do eleitor. [Ele] concorda com as ideias do candidato e vota nele. O candidato defende a legalização do aborto, e o eleitor está de acordo com isto”, explica o professor.

O atendimento de demandas imediatas será um dos fatores a nortear o voto do vendedor Leilton Jesus da Cunha, 28 anos, morador em Samambaia, cidade a 25 quilômetros da região central de Brasília. A família de Leilton está inscrita em um cadastro habitacional do governo local, e pretende dar preferência ao candidato que considera mais capaz de trabalhar para que recebam o imóvel. No entanto, o jovem diz também prestar atenção a propostas nas áreas de saúde e transporte público.

Mrador do Paranoá, a aproximadamente 20 quilômetros de Brasília, o aposentado Jonas Ferreira dos Santos, 61 anos, acredita que a função do político eleito é cuidar da população. “Acredito que tem que ser como um pai de família. O que um pai e uma mãe fazem para seus filhos, tem que fazer para a população. Também não tem que ficar se gabando de que fez isso ou aquilo, pois não é mais que obrigação. Todas as propostas são importantes, em saúde, educação, transporte”, diz.

Critérios como os levados em conta por Leilton e Jonas corroboram a avaliação de Raquel Marinucci e Cláudio Gurgel, de que o voto partidário tem pouco espaço no país. De acordo com Raquel, “pesquisas têm mostrado que o voto em partido diminuiu no Brasil”. Cláudio afirma que “os brasileiros já foram mais politizados, e há evidente rebaixamento da escala de valores”.

Raquel ressalta, no entanto, que o eleitor não deve ser crucificado por sua despolitização. “Acho complicado responsabilizar o eleitor pelos problemas da política brasileira. A falta de confiança nas instituições, as sequelas do autoritarismo e a pouca transparência não colaboram na formação política do nosso eleitorado”, comenta. Cláudio concorda. “Os partidos perderam muito com o fracasso doutrinário e programático de todos eles”, avalia.

Com relação às manifestações do ano passado, Raquel Marinucci destaca que as reivindicações feitas não encabeçam as discussões da campanha. “Não vejo um eixo concreto, norteador das manifestações, que esteja pautando as eleições. Falar em mudança pura e simplesmente é muito vago. A questão do transporte urbano, estopim dos protestos e um problema fundamental, não está no topo da agenda de nenhum candidato. Se estivesse, aí sim, teríamos algo novo”, acredita. Cláudio Gurgel também considera as eleições atuais “iguais às outras”. “Infelizmente, a memória dos eventos é sempre muito passageira. O povo já esqueceu o que aconteceu nos eventos, passeatas, manifestações, choques, prisões”, comenta.

A desilusão com partidos e instituições, mencionada pelos especialistas, é o motivo pelo qual o educador físico Antônio Alves dos Santos, 39 anos, morador do Guará, a 11 quilômetros de Brasília, não pretende dar seu voto a nenhum candidato. “Estou desiludido desde a última eleição, mas nesta ficou pior. Aumentou a baixaria. Se eu pudesse, nem ficaria aqui. Viajaria. Vou anular [o voto] ou pagar multa depois. Não dá nem para pensar [em votar], você não tem para onde correr”, afirma.

Já a telefonista Aparecida Barros, 50 anos, moradora da Cidade Ocidental, em Goiás, a cerca de 48 quilômetros de Brasília, diz que as eleições “estão a mesma coisa de sempre, as mesmas promessas”. Mesmo assim, tem esperança. “A gente não pode desistir. Eu não vou anular o voto, tenho os meus candidatos”, conta. Para ela, na hora de escolher em quem votar, é importante verificar se o candidato tem a ficha limpa. Aparecida diz também prestar atenção às propostas para saúde e educação.