Nas principais capitais, 70% dos candidatos têm ensino superior 

Em 2012, mais de 70% dos candidatos às prefeituras dos dez maiores colégios eleitorais do Brasil têm curso superior completo. Do restante, 15,5% começou a faculdade mas não terminou, e 7,9% concluiu o 3° ano sem dar continuidade aos estudos. As cidades em que, em média, 18% da população não consegue chegar ao final do ensino fundamental têm apenas um candidato com esse grau de escolaridade, e outro chegou ao ensino médio mas não o concluiu.

O PSTU é o partido que mais tem candidatos a prefeito sem ensino superior completo. Dos oito nomes, três concluíram a faculdade. Há outros três que começaram mas não terminaram, e um, com ensino médio completo. Além desses, é da legenda o único candidato nas 10 capitais com mais eleitores que não concluiu o ensino fundamental.

Francisco Gonzaga, do PSTU, pleiteia a prefeitura de Fortaleza (CE). O trabalhador da construção civil acredita que sua escolaridade não é um problema para sua campanha. "Minha candidatura é operária e representa a maioria dos trabalhadores da cidade, que estão na minha situação por falta de oportunidade de ter educação", afirma. A capital cearense tem o segundo pior número entre as 10 cidades no que tange a escolarização: 40,6% da população não terminou o ensino fundamental - o pior índice é de Manaus, 41,1%.

"Será um desafio maior concorrer com quem tem formação acadêmica (de nível superior)", diz Gonzaga, que prevê "até uma discriminação por parte de um setor que teve mais oportunidade". Apesar disso, a "consciência das lutas" pesará mais para a decisão do eleitor, acredita.

"Política é mais do que escolaridade", resume o deputado federal Ivan Valente, presidente nacional do Psol, uma das legendas em que todos os candidatos das principais capitais têm curso superior completo. Representantes do PSDB, PMDB e PT, que engordam essa lista, ecoam a ideia de que o nível de instrução dos pleiteantes à prefeitura não é determinante.

"Ter diploma não é uma condição, tanto que nosso ex-presidente Lula não tinha e foi um ótimo presidente, mas a pessoa ter uma boa formação intelectual ajuda", opina o secretário nacional de comunicação do PT, o deputado federal André Vargas, que tem o ensino médio completo. A capital do Paraná, estado que elegeu o petista, é a única entre os 10 maiores colégios eleitorais em que todos os candidatos têm ensino superior. O número até faz sentido, uma vez que em Curitiba, segundo o Censo 2010, 20% da população terminou a faculdade.

Mas a formação dos candidatos não necessariamente reflete os níveis de instrução do município. Na cidade de São Paulo, o Censo 2010 aponta 16% da população com curso superior completo, enquanto 37,7% não concluiu o ensino fundamental. Ainda assim, oito dos 12 candidatos terminaram a faculdade - em 2008, nove dos 11 pleiteantes a prefeito era graduado em 3° grau.

O que as estatísticas mostram, por outro lado, não parece ser uma estratégia dos partidos. Valente, do Psol, também cita o exemplo de Lula para falar sobre a importância relativa do curso superior. "Acho que o mais importante é a formação política, você pode ter um cidadão com segundo grau mas uma boa formação, com ligação com movimento social, e às vezes é uma pessoa com mais condição de articular do que alguém com diploma", pondera o engenheiro.

O senador Valdir Raupp, presidente nacional do PMDB, engrossa as menções a Lula, e reforça também a importância da formação política. "Não exigimos formação universitárias, mas pedimos a quem não tem formação na área administrativa que faça algum dos cursos que a Fundação Ulysses Guimarães promove, de gestão pública, cidadania, liderança comunitária", enumera o administrador.

O PSTU, segundo Gonzaga, trabalha a formação política diretamente com as classes de trabalhadores. Há 18 anos no sindicato de trabalhadores da construção civil, ele afirma que conscientização das pessoas foi o maior avanço que teve. O resultado, continua, é que as comunidades têm mais condições de colocar suas necessidades, demandas que o partido soma ao conhecimento técnico de outros militantes na composição do plano de governo.

Raupp, do PMDB, tem raciocínio semelhante e destaca que os cursos de formação política são importantes também para a composição do quadro de secretariado do chefe do executivo. "Quem não tem curso superior tem que se cercar de bons técnicos para fazer uma boa gestão, foi o que eu fiz", resume o senador, que foi duas vezes prefeito de Rolim de Moura, em Rondônia, época em que ainda não tinha curso superior.

"O mais importante é o compromisso com o projeto político e com as questões éticas", acrescenta Vargas, do PT. Apesar de não ser o mais relevante, o deputado acredita que a escolaridade ajuda em segundo plano na campanha, uma vez que "a população avalia isso como uma qualificação". "Mas não é algo que exigimos, não é uma condição (para ser candidato)", reforça.

Valente, do Psol, entende como "tendência" o número de candidatos com diploma universitário em sua legenda. "O partido não vem de um processo de movimento de massas intenso, porque isso não acontece no Brasil nesse momento, como aconteceu nos anos 1980 com o PT", explica. "As pessoas que se aproximam (do Psol) são as que já têm um grau de informação maior, mas não é que o partido seja elitista, porque ele tem laços com movimentos sociais, populares", pondera.

Sobre a influência para a elaboração dos planos de governo, Valente também minimiza o impacto da escolaridade. "A formulação depende da capacidade do partido, temos técnicos em todos os setores, como educacional, de saúde pública, e nelas há formuladores políticos. O executor não tem que ter especialização, tem que ter cabeça política para fazer as escolhas corretas", opina.

Vargas, do PT, acredita que a formação confere "melhores condições (ao candidato) intelectuais de enfrentar o desafio" de estar à frente do executivo. "Ajuda em termos de experiência, porque o candidato precisa de mínimo de sagacidade, de preparo, mas (escolaridade) não é o que decide uma eleição", concorda Valente, do Psol. "A formação acadêmica faz falta para a gestão pública, principalmente se a graduação for em Administração, mas na eleição o carisma manda mais", completa Raupp, do PMDB.