PT das capitais quer Lula para 'salvar' eleições, mas foco será SP 

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Terminado o tratamento contra o câncer de laringe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa a participar de forma mais ativa das articulações para as eleições municipais de outubro. Mas ao contrário do desejo das lideranças das capitais, o foco do petista será apenas em São Paulo, onde o partido tenta emplacar o ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, como prefeito. Segundo o Instituto Lula, a agenda para os próximos meses não foi definida porque depende da recuperação, mas adianta que não está prevista nenhuma atividade de campanha fora do território paulista.

Lideranças do partido consultadas pelo Terra consideram que a presença de Lula será fundamental em pelo menos outras três capitais onde o PT terá candidatos: Porto Alegre (RS), Salvador (BA) e Recife (PE). No entanto, o presidente da sigla, Rui Falcão, não quis detalhar como será a participação do ex-presidente nesses locais, onde o partido precisa superar candidaturas desconhecidas e disputas internas. Em visita ao Rio Grande do Sul na semana passada, Rui Falcão disse que tudo vai depender da saúde do ex-presidente.

"As agendas vão contemplar a presença de ministros - fora dos horários de expediente -, de dirigentes, de parlamentares, de lideranças nacionais e do Lula, onde for possível, pela condição de saúde dele, tudo isso numa programação que passa pela discussão do Diretório Nacional com as coordenações de campanha locais", afirmou.

Coordenador da campanha de Haddad, o vereador Antonio Donato confirma que o foco será na capital paulista. "Esperamos uma participação ativa do presidente Lula na campanha em São Paulo, isso inclui eventos públicos e gravação da propaganda eleitoral. Mas deixo bem claro que essa presença mais forte em São Paulo não exclui a possibilidade de Lula participar de agenda em outras capitais", afirma Donato. Apesar de Haddad patinar na última pesquisa do Ibope - aparece apenas em sétimo lugar, com 3% da preferência dos paulistanos - o coordenador da campanha acredita que a influência de Lula poderá mudar esse quadro.

"O nosso candidato ainda é desconhecido do eleitorado, nós sabíamos disso quando apostamos em um nome novo. Mas, a partir de agosto, com a propaganda eleitoral e com a presença mais forte do presidente, isso vai mudar", diz o vereador. Apesar de destacar a importância do ex-presidente, ele minimiza o poder de Lula para definir a eleição. "Claro que a influência do presidente vai ser fundamental, mas o candidato também precisa corresponder e o Haddad tem seus méritos e nós vamos mostrar isso para a população".

Para o professor de Ciências Políticas da Universidade de Campinas (Unicamp) Valeriano Costa, o interesse mais forte de Lula por São Paulo reflete uma posição estratégica do PT no cenário nacional. "É muito mais importante para o PT ganhar em São Paulo do que em outras capitais, já que vencendo José Serra o partido dá mais um passo para garantir o enfraquecimento do PSDB em nível nacional. Nas demais cidades, o PT tem aliados importantes disputando o pleito e faz vista grossa porque se eles ganharem não é ruim para o partido", afirma ao citar o exemplo de Porto Alegre, onde a primeira colocada nas pesquisas é a deputada federal Manuela D'Ávila (PCdoB), fiel aliada do governo federal.

PT gaúcho sem Lula

Assim como São Paulo, na capital gaúcha o PT também vai mal nas pesquisas de intenção de voto - o deputado estadual Adão Villaverde tem apenas 2% de preferência do eleitor, segundo o Ibope. No entanto, a situação em Porto Alegre é mais crítica, já que não há nenhuma esperança de envolvimento efetivo de Lula na disputa de outubro. "Até pelas condições de saúde, não estamos exigindo que o presidente participe do nosso palanque. Mas na nossa propaganda eleitoral com certeza vamos colocar ele e a Dilma", afirma o presidente da sigla no Rio Grande do Sul, Raul Pont.

Pont ainda não sabe se Lula vai gravar participação na propaganda de rádio e TV do partido na capital, mas ressalta que os feitos dos governos petistas serão exaltados pela sigla. Ele ainda nega que o ex-presidente possa se sentir constrangido em participar da campanha do PT em Porto Alegre, já que outros candidatos fazem parte da base de apoio do governo federal. "O partido que mais trabalhou pela eleição dele e da Dilma foi o PT e nada mais justo que trabalhem para os candidatos do PT", afirma.

Na capital gaúcha, chegou a ser cogitada a desistência do candidato do PT para apoiar a comunista Manuela D'Ávila. Para Pont, isso não passa de especulação por causa do baixo desempenho na pesquisa. "Por que ninguém cogita a desistência do Haddad em São Paulo? A situação é a mesma e tenho certeza que o Lula jamais nos pediria isso", diz.

Salvador e Recife

A capital baiana é considerada decisiva para o PT nas eleições de outubro. O partido tenta retomar ao poder, hoje nas mãos do PP, em uma votação que terá como o principal adversário o deputado federal ACM Neto (DEM), um dos maiores opositores do governo federal na Câmara dos Deputados. "A eleição de Salvador é uma das prioridades absolutas do nosso projeto nacional, por isso nós queremos o Lula no palanque do PT. Sabemos do problema de saúde, mas a Bahia vai rejuvenescer o nosso presidente", afirma o presidente da sigla no Estado, Jonas Paulo de Oliveira Neres.

Já no Recife, o PT está no poder há 12 anos, mas sua continuidade está ameaçada por causa de disputas internas. No último domingo, o partido realizou prévias para definir se o candidato será o atual prefeito, João da Costa, ou o deputado federal Maurício Rands. Por problemas durante a votação dos filiados, ainda não foi possível definir o vencedor, mas uma coisa é certa: o partido está enfraquecido para enfrentar os opositores.

O presidente da sigla em Pernambuco, deputado federal Pedro Eugênio, diz que o grande desafio do candidato vencedor será unir a Frente Popular - aliança dos partidos que compõem a administração municipal - em busca da vitória contra os candidatos da oposição. Para isso, ele espera que o poder de articulação do ex-presidente Lula possa ser utilizado. "Esperamos que ele possa se envolver na campanha aqui no Recife, mas entendemos que isso será decidido levando em conta as necessidades de todo o País", completa.