Políticos tornam-se boleiros diante de ex-ministro britânico

Primeiro-ministro do Reino Unido entre 1997 e 2007 pelo Partido Trabalhista, o escocês Tony Blair compartilha, nesta terça-feira (26), em São Paulo, conselhos e experiências sobre a capacitação inglesa para receber a Olimpíada de 2012 e pleitear a Copa do Mundo de 2018.

Antes mesmo da primeira palestra, para anunciados 652 empresários, o líder britânico foi apresentado a uma nação de autoridades boleiras. "O prefeito Gilberto Kassab (DEM) era muito bom de bola nas quadras do Clube Pinheiros", revelou o anfitrião João Dória Júnior, empresário e apresentador de TV.

"Ele esqueceu de dizer que perdeu muitas partidas para mim quando morava no Rio e era presidente da Embratur", acrescentou o governador Sergio Cabral (PMDB) na sua vez. Seu colega paulista, Alberto Goldman (PSDB), que joga basquete, teve os dotes narrados por Dória: "Ele sabe fazer chuá, sabe suar e sabe vencer".

Blair ainda não havia se declarado um pouco talentoso entusiasta do esporte quando também acabou perfilado como atleta. "Ele está em good shape, em forma, faz exercícios quatro vezes por semana. Tem 57 anos, mas parece que são 47", afagou Dória. "É uma simpatia, pudemos ver numa conversa um pouco antes. Cativou rapidamente o grupo de empresários e autoridades, de uma forma singela, simpática".

O seminário internacional foi promovido pela Lide, uma associação de empresários. Mas não de qualquer grande corporação. A primeira condição é que sejam "empresas brasileiras e multinacionais com faturamento igual ou superior a 200 milhões de reais anuais".

Adepto da corrente social-democrata da "terceira via", Blair usou o mesmo termo para propor um modelo de financiamento da preparação para eventos esportivos mundiais: nem sobrecarregar o Estado nem repassar quase tudo à iniciativa privada, e sim combinar esses dois agentes. "O poder público tem que estar por trás", recomendou.

"Essa junção do poder público e do privado de maneira propositiva" foi destacada, em conversa com jornalistas, pela craque histórica do basquete Paula, a Magic campeã mundial de 1994 e medalhista de prata olímpica de 1996 - especialista no chuá e no vencer, diria Dória. Para ela, a iniciativa privada tem a capacidade de contribuir com auxílio no planejamento.

Paula preocupa-se com os legados social e esportivo da Olimpíada. Ela integra a ong Atletas pela Cidadania, composta por antigos e atuais esportistas, que se dispôs a sugerir ações ao governo federal.

Alerta e compromisso

A Terra Magazine, Dória disse que foram convidados os representantes dos comitês organizadores da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. Lamentou a dupla ausência e justificou que Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, estava em viagem ao exterior.

Na sua opinião, o evento serviu como "uma orientação e um alerta", além de mobilizar os personagens da organização das duas competições. "Porque é um compromisso público de responsabilidade. Traz exemplos positivos e compromissos positivos", opinou. "Funciona o chamado committed dos ingleses".

No púlpito, ele advertiu os governantes para o planejamento a fim de não estourar o orçamento.

Tony Blair garantiu que os gastos sempre superam a previsão inicial. "E vai ser o assunto mais difícil". A própria Inglaterra sofreu com estouro. "As coisas mudam", tentou contornar o primeiro-ministro. "Mas você vai ter que manter a disciplina dos custos".

Em entrevista coletiva, o prefeito carioca Eduardo Paes afirmou que, no fim de 2011, será possível estimar os gastos da Olimpíada. Evita, assim, estabelecer um valor que seja multiplicado daqui a menos de seis anos, como ocorreu no Pan de 2007. "Há mudanças na proposta", justificou.

"É difícil manter o país animado", adiantou Blair. "Quando as pessoas veem a estrutura física aparecendo, elas se animam e percebem que vale a pena", acrescentou.

Para ele, trata-se de uma oportunidade de produzir mais do que desenvolvimento social e econômico ao país-sede. "Eu gostaria de contribuir para o espírito dos Jogos Olímpicos, para unir os povos", discursou o primeiro-ministro que deu as mãos ao então presidente americano George W. Bush para a invadir o Iraque em 2003.

Ele citou exemplos, ao redor do planeta, de segmentos que acabaram unidos pelo esporte. E valorizou a Olimpíada como fator de integração social. "Tem que ter o papel do esporte na sociedade, na comunidade". Uma das alternativas, declarou, é popularizar modalidades pouco praticadas ou restritas à elite. Aí, não só as autoridades seriam boleiras.