RS: campanha "redonda" garantiu vitória histórica de Genro

      PORTO ALEGRE - O PT voltou a vencer as eleições no Rio Grande do Sul e, mais uma vez, com um fato inédito. Em 1998, quando os gaúchos elegeram Olívio Dutra, o partido pela primeira vez chegava ao Palácio Piratini. Agora, Tarso Genro foi eleito governador no primeiro turno da eleição, com uma diferença de 30 pontos sobre o segundo colocado, o peemedebista José Fogaça. Das seis eleições realizadas para o governo desde a Constituição de 1988 (1990, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010), esta é a primeira a terminar no primeiro turno no Rio Grande do Sul, estado que tem fama de abrigar disputas polarizadas.

No domingo, durante o pronunciamento que fez no comitê central na rua Barros Cassal, na região central de Porto Alegre, Genro disse ter sentido nas ruas que o padrão de voto da população estava mudando. Ele se referia ao fato de, ainda em agosto, ter começado a ultrapassar o percentual histórico de votações do PT no estado, de cerca de 35%. Mas, mesmo que até agosto a possibilidade de vitória no primeiro turno não fosse cogitada, o PT gaúcho trabalhou muito, e há bastante tempo, para retornar ao governo.

Agora consegue mais do que isso. Além do Executivo, o partido elegeu a maior bancada da Assembleia Legislativa: 14 deputados. As demais siglas que integram a coligação encabeçada por Genro (o PSB, o PCdoB e o PR) elegeram outros quatro parlamentares. Como a Assembleia tem 55 cadeiras, isso significa que, sozinha, a aliança em torno do PT tem praticamente um terço dos deputados. E muito boas possibilidades de abocanhar pelo menos uma fatia do apoio do PDT e do PTB. O PDT elegeu sete deputados e, o PTB, seis.

Enquanto isso, partidos que deverão formar o bloco de oposição (PMDB, PSDB, PPS e DEM) elegeram, juntos, 16 deputados. O PRB aliou-se ao PSDB na eleição estadual e elegeu um deputado, mas sua posição frente ao novo governo é uma incógnita. O PP concorreu coligado com a governadora Yeda Crusius (PSDB), candidata derrotada à reeleição, na chapa majoritária e para a Câmara Federal, mas, desde a definição da chapa, desvinculou a campanha de sua candidata eleita ao Senado, Ana Amélia Lemos, daquela da governadora. Para a Assembleia, correu sozinho e elegeu sete deputados.

No domingo, ao dizer que procurará por todos os partidos para fazer um governo de coalizão, o que Genro na verdade fez foi mandar um recado expresso ao PDT, a quem o PT cortejou desde antes das eleições municipais de 2008. E, desde já, estabelecer quem serão os adversários: PMDB, PSDB e DEM. "Não entendo que eles (PMDB), os Democratas ou o PSDB sejam passíveis de um acolhimento mínimo", declarou.

Desde o início da campanha, os adversários, às vezes entre risos, lembravam que esta era a eleição da vida de Genro. Sabiam que, no horizonte, há anos o governador eleito sonha com a possibilidade de um dia disputar a presidência da República. Só não levaram a sério o quanto isso era verdade.

Se Genro perdesse, sua vida pública estaria seriamente abalada. Mesmo tendo passado pelo ministério do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sua maior credencial eleitoral no estado era o fato de ter sido eleito duas vezes prefeito da capital. Eleitores em geral e petistas em particular, porém, ainda se lembravam dele como um dos protagonistas de duas disputas internas fratricidas: a da definição do candidato do partido a prefeito de Porto Alegre em 2000 e aquela para a chapa ao governo em 2002.

Quem acompanhou Genro durante esta campanha de 2010, contudo, viu um político diferente, que negociou à exaustão a retomada da antiga aliança com o PCdoB e o PSB, que apostou no tom conciliatório e se mostrou disposto a ceder espaços. E, detalhe, quando a campanha começou, já havia passado por praticamente todos os cantões do estado, seja por suas atividades como ministro seja pelo fato de ter se desincompatibilizado antecipadamente de suas funções para concorrer.

O PT também entrou diferente nesta corrida. Ainda na metade de 2009 definiu, sem prévias (e, por isso, com menos conflitos internos), que Genro seria o candidato. O então presidente estadual do partido, Olívio Dutra, cogitado para concorrer, declinou do convite.

Olívio também já havia percorrido o estado para tratar das eleições, em geral fazendo dobradinha com o presidente estadual do PDT, Romildo Bolzan Júnior, uma vez que o objetivo de ambas as direções partidárias era uma aliança nas eleições estaduais. O PDT acabou optando por aliar-se ao PMDB no estado, mas a proximidade com o PT, a quem os pedetistas apoiam também no governo federal, deixou marcas. Consequência: na prática, o PDT teve uma série de dissidências - abertas ou não - em favor de Genro. Este, ainda durante a campanha, disse que chamará os trabalhistas para integrar seu governo.

Ao contrário de eleições anteriores, nesta campanha as diferenças internas do PT não apareceram. Para o público externo, o PT apareceu unido. Exemplo: o coordenador geral da campanha de Genro, Carlos Pestana, é da Democracia Socialista (DS), corrente interna do partido cujas diferenças com o grupo do governador eleito são, ou eram históricas.  Por fim, Genro surfou na popularidade do governo Lula, do qual participou. "Fomos atingidos por um tsunami", lamentou, na noite de domingo, o deputado Pompeo de Mattos (PDT) candidato a vice na chapa derrotada de José Fogaça (PMDB) ao governo.

Em função do arranjo nacional, o PT gaúcho já havia até se conformado em dividir a candidata à presidência, Dilma Rousseff, com o PMDB local. Mas foi surpreendido pelo desenrolar das negociações. Com o PMDB negando-se a dar palanque a Dilma no estado, tanto ela quanto Lula passaram a dizer abertamente que Genro era seu candidato. Fizeram isso à exaustão na propaganda na TV (outro acerto da campanha petista) e em dois grandes comícios em Porto Alegre.

No último deles, no final de setembro, o presidente pediu aos militantes empenho para definir a eleição no primeiro turno. Dilma fez o mesmo. De lá até o domingo, os percentuais de Genro só fizeram aumentar. Eleito, ele diz que primeiro deve ajudar a eleger Dilma presidente. Na prática, o PT gaúcho mal vai esperar o fim da festa que tomou as ruas do bairro Cidade Baixa na noite de domingo. Já na manhã desta segunda-feira (4) faz a primeira reunião da executiva para avaliar o novo cenário.