No Rio Grande do Sul, Fogaça não escolhe adversário e PMDB amarga derrota

Uma frase do senador Pedro Simon, presidente do PMDB gaúcho, na noite de domingo (3) resume a situação pela qual passa o PMDB no Rio Grande do Sul a pós a derrota no primeiro turno para o PT na disputa pelo governo. "Largo a direção do partido, mas eu lamento que minha trajetória de 50 anos termine num momento como esse. O senhor Tarso Genro que faça uma boa administração e seja feliz".

A manifestação de Simon, feita durante o ato de reconhecimento da derrota por parte de Fogaça, é ilustrativa porque o resultado das urnas mostra um esfacelamento que o partido já conheceu em outros momentos no Estado, mas que se negava a ver agora.

Entre os problemas, ganhou destaque a postura confusa em relação à disputa presidencial, que deixou o partido sem discurso. Oficialmente, a cúpula partidária optou pela neutralidade em relação a eleição para a presidência. Não adiantou nada. Os deputados continuaram fazendo campanha para o tucano José Serra. Parte dos prefeitos articulou um movimento em favor do candidato a vice de Dilma e presidente nacional do partido, o deputado federal Michel Temer, que veio ao Estado receber o apoio. A vinda de Temer, organizada sem o conhecimento de Simon, expôs de novo as divergências internas. Rigotto, que havia prometido anunciar o voto para presidente, não se manifestou. Fogaça manteve a neutralidade. Simon, depois de uma entrevista controversa, na qual teria aberto o apoio a Dilma, anunciou o voto na candidata do PV, Marina Silva. Os dissabores cresceram.

Enquanto isso, o principal adversário e agora governador eleito, Tarso Genro (PT), sempre que questionado, lembrava da participação do PMDB no governo de Yeda Crusius (PSDB). Sem condições de atacar o governo federal e nem o estadual, o PMDB perdeu a argumentação. De quebra, animada por parte das pesquisas, Yeda, candidata à reeleição, chegou a acreditar que poderia tirar Fogaça da disputa e chegar ao segundo turno com Genro. Resultado: passou a bater com força no antigo aliado, que permaneceu em silêncio.

Agora, o PMDB gaúcho não passa apenas pelo constrangimento de perder a eleição em primeiro turno. Perdeu também o pleito para o Senado, em uma eleição que, a princípio, parecia ganha. Pior: com uma folha corrida de serviços prestados ao partido e ostentando no currículo o cargo de ex-governador, Germano Rigotto viu a vaga escapar para uma estreante na vida pública, a progressista Ana Amélia Lemos. Empurrada pela força do PP gaúcho e por décadas à frente das câmeras, falando sobre política e economia (ela é jornalista), em determinado momento da campanha Ana Amélia assustou até o senador Paulo Paim (PT). Só que ele acabou reeleito.

Não bastasse a derrota estrondosa na majoritária, o partido ainda viu encolherem suas bancadas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. Passou de cinco para quatro deputados na primeira e de 10 para oito na segunda. Em outro exemplo da crise do partido, o secretário geral do PMDB gaúcho e deputado federal Eliseu Padilha não se reelegeu.

Questionado sobre a sucessão de derrotas, Simon responde: "Erramos? Eram nossos melhores nomes!" De público, ele nega-se a admitir os erros, apesar de, indiretamente, evidenciá-los. Seu afastamento voluntário da direção da sigla é um exemplo. Até novembro, quando será convocada nova eleição, quem comandará o partido é o deputado estadual reeleito Márcio Biolchi, até ontem primeiro vice-presidente. Elogiado por outras lideranças, o deputado, 30 anos de idade, chegou a integrar o secretariado da governadora Yeda, mas nunca participou do seleto grupo que comanda de fato o partido.

Na prática, uma sucessão de equívocos antecedeu a derrota do PMDB gaúcho nas eleições estaduais. As disputas internas e indefinições começaram ainda no ano passado. Uma parte do partido defendia que o candidato ao governo deveria ser Rigotto. Ele tinha a preferência do PTB para uma eventual aliança. Outra parte argumentava que o candidato deveria ser o prefeito reeleito de Porto Alegre em 2008, José Fogaça. Só que, para concorrer, Fogaça precisava deixar a prefeitura antes da metade do segundo mandato nas mãos do principal aliado, o PDT, que tinha seu vice, José Fortunati.

Depois de semanas de dissabores, o grupo pró-Fogaça acabou vencendo. A decisão foi anunciada ainda em dezembro de 2009. Com o candidato ao governo definido, teve início a costura das alianças. O PMDB conseguiu, com o nome de Fogaça, afastar o PDT do PT, com quem os pedetistas flertavam desde as eleições municipais de 2008, e se fortaleceu. Mas não deu a devida atenção ao PTB e não conseguiu costurar uma aliança com o PP. Enquanto isso, a cúpula partidária passou a defender o nome de Rigotto para o Senado, rifando o deputado Padilha. Inicialmente, ele ainda insistiu em uma disputa. Depois, acabou abrindo mão do embate.

Candidatos definidos, novamente Padilha foi alijado do centro decisório. Em décadas de campanhas, e com histórico de "mobilização das bases" pela primeira vez ele não ficou na coordenação geral. Foi substituído pelo deputado federal Mendes Ribeiro Filho, com quem mantém rivalidade dentro do partido. Campanha posta, as divergências só cresceram. Fogaça não empolgou uma parte do PDT, que abriu dissidência em favor do petista Tarso Genro. Na negociação inicial entre os dois partidos, o PMDB havia sinalizado com o apoio a candidata petista Dilma Rousseff na disputa presidencial, como era desejo do PDT. Mas a grita da quase totalidade dos deputados federais e estaduais e o temor de que o apoio a Dilma resultasse em perda de votos pelo Estado fez com que o PMDB não cumprisse a promessa.

A propaganda na TV, a postura de Fogaça e de sua coordenação de campanha foram uma espécie de gota d'água. "Ele tinha dois exércitos, mas preferiu fazer de conta que era um Dom Quixote", dispara um deputado. Desde o início, o tom comedido e as expressões subjetivas adotadas pelo candidato e a falta de abertura junto ao comando de campanha causaram desespero entre candidatos a deputado e aliados pedetistas, que se consideravam excluídos das atividades. A coordenação de campanha ouvia as avaliações. E as ignorava. O deputado Mendes, alvo de críticas constantes, do tipo "o Mendes é espaçoso, e sempre trabalhou sozinho", reagia a elas com ironia. "Que bom que o pessoal quer trabalhar", repetia, sempre que lhe eram relatadas as alfinetadas.

No início da campanha, durante uma reunião com as bancadas na Assembleia, Fogaça deixou estupefatos alguns deputados, ao afirmar que a tarefa se mostrava mais árdua do que ele imaginava. Há cerca de um mês, em uma reunião, o candidato a vice, o deputado Pompeo de Mattos, quase chegou ¿às vias de fato¿ com o coordenador técnico da campanha, Clóvis Magalhães, a quem Fogaça considera ¿um irmão¿. Um Pompeo desesperado tentava convencer seus pares de que eram necessárias mudanças, coisa que prefeitos e deputados já haviam se cansado de dizer.

No domingo, quando admitiu a derrota, Fogaça estava acompanhado apenas de Simon e Mendes como lideranças do PMDB. E de Pompeo pelo PDT. Ele avaliou que as contradições internas em relação a disputa presidencial limitaram seu discurso. Disse que Genro, ao contrário, vislumbrara durante a campanha, uma "estrada pavimentada". Reconheceu, de forma genérica, as dificuldades decorrentes de o PMDB ter sido base do governo Yeda. Mas nem ele e nem o senador quiseram falar sobre disputas internas.

"Esta foi uma campanha silenciosa, invisível, não havia nenhuma percepção nas ruas desta expressão majoritária do candidato que saiu vencedor. Um verdadeiro labirinto de paredões se colocou na nossa frente", explicou Fogaça. "O que aconteceu conosco foi uma questão nacional", completou Simon. Outras lideranças, contudo, já fazem avaliação bem diferente. ¿Não tem fator externo coisa nenhuma. Perdemos para nós mesmos¿, assinalou Padilha nesta segunda-feira (4).