Marcelo Freixo faz campanha escoltado por segurança

 

Viver vigiado 24 horas por dia não deve ser fácil. Que o diga Marcelo Freixo (PSOL), deputado estadual no Rio de Janeiro e candidato à reeleição. Um dos políticos mais atuantes da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Marcelo conquistou muitas vitórias logo no seu primeiro mandato, como a recente aprovação da Lei de Prevenção da Tortura - elogiada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Mas o político também coleciona vários desafetos perigosos, como os milicianos. Por ter presidido a CPI que gerou a prisão de 275 milicianos e indiciou 225 parlamentares, bombeiros, militares e civis, atualmente ele tem a companhia permanente de um grupo de seguranças armados, pago pela Alerj. As ameaças de morte forçaram a esse extremo. Esta mesma CPI colocou um deputado e três vereadores atrás das grades.

A milícia atua em comunidades carentes na capital (Zona Oeste e Zona Norte), na Baixada Fluminense e em municípios do interior do Rio de Janeiro. Esse tipo de máfia se organiza dentro do estado desde 2004 - ano em que elegeu pela primeira vez candidatos próprios. Comandada quase sempre por militares, a milícia controla os moradores dessas localidades economicamente, com cobranças que variam de taxa de segurança a instalação e mensalidade dos serviços de sinal de TV a cabo e internet; controle na venda de gás e taxas para legalização de imóveis e permissão de construções. Porém, uma das atividades mais lucrativas para a milícia é a exploração do transporte alternativo: mototáxi, vans e kombis.

O Terra acompanhou Marcelo Freixo, 43 anos, professor de história formado e pesquisador na área de segurança pública e direitos humanos, por alguns minutos durante um corpo a corpo no Flamengo, bairro da Zona Sul do Rio. Alguns seguranças a paisana também estavam presentes para zelar pelo candidato. Tem sido assim desde que a campanha começou, e vai permanecer nesse clima até o dia 3 de outubro, data das eleições.

Leia a entrevista com Marcelo Freixo:

Quais são os malefícios das milícias para a sociedade carioca?

Milícia é máfia. Das mais poderosas que o Rio já teve, igual a máfia da Itália. São grupos de agentes públicos da área de segurança que dominam territórios e a vida das pessoas. Controlam as vans e o gás. E são violentos. Incomparavelmente mais que o tráfico de drogas, pois são mais organizados, são agentes públicos. Por isso, conseguem eleger vereadores e deputados.

Como é viver ameaçado de morte?

Muda a vida, a rotina, sacrifica a família... Perdi muito da minha vida privada e a espontaneidade. Agora tudo tem que ser planejado. O custo é alto, mas vale à pena. Faria tudo de novo. Se fosse para não enfrentar as milícias, era melhor não ser deputado.

Por que entrou nessa briga?

É uma obrigação minha como deputado. Não é possível o crime organizado estar aqui dentro da Alerj e eu fingir que isso não está acontecendo. Tenho os meus cuidados. O risco é real. Não é brincadeira. A companhia dos seguranças que me protegem é para ser notada.

Já passou por situações inusitadas por conta da presença dos seguranças durante a campanha nas ruas?

Não faço campanha em áreas de milícias, mas aconteceram alguns episódios com algumas pessoas. Um rapaz que eu conheço tinha um adesivo da minha candidatura colado no carro e foi obrigado a tirá-lo porque estava em área de milícia. Um professor estacionou o carro e quando voltou o adesivo da minha candidatura não estava mais no veículo.

O que acha do clima nas ruas sobre a campanha em geral?

Sinto uma sociedade despolitizada, sem muito interesse. Isso é fruto da péssima representatividade. Sobre a minha campanha, felizmente conto com muitos militantes voluntários, entre professores, artistas e demais profissionais.

E a sua expectativa de votos?

Não dá pra ter menos de 50 mil votos, mas posso conseguir isso e mesmo assim não entrar. Vou fazer minha campanha até o dia 3 de outubro. Preciso estar nas ruas panfletando. O nível de mobilização é muito grande na minha campanha, felizmente.

Quais são suas principais lutas para o próximo mandato?

Direitos humanos e educação, pois sou professor. Quero acompanhar a preparação da cidade do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. O que vai acontecer com os pobres? Segregação com remarcações de terra? Já se fala em esconder as favelas com barreira acústica. Vamos ficar atentos a isso para que a medalha de ouro não seja a segregação.

O apoio de artistas famosos na campanha eleitoral de TV faz diferença?

Faz muita diferença. Tenho a felicidade de contar com a Fernanda Torres, Marcelo Serrado, Ivan Lins, Fernanda Abreu, Marcelo Yuka, Wagner Moura... São pessoas queridas. E isso tem um impacto nas ruas. As pessoas passam a procurar saber quem é o candidato. Além disso, muitos artistas participaram do meu primeiro mandato durante a CPI das milícias e na causa do funk. Consegui passar credibilidade. É melhor ter o apoio dos artistas do que placas emporcalhando a cidade.

Duas deputadas foram caçadas por corrupção por conta da sua luta contra a corrupção.

Jane Cozzolino e Renata do Posto, por fraude no auxílio-educação da Alerj, que ficou conhecido como "Bolsa Fraude". Apenas a Jane Cozzolino fraudou cerca de 120 casos. O auxílio-educação é para os filhos dos funcionários da Alerj, que paga um salário mínimo por cada criança matriculada em colégio particular. Para receber o benefício, o funcionário apresentava apenas a matrícula da criança. A comprovação era falha. Propus que houvesse um controle maior disso, mas o projeto nunca era votado. Quando decidi ir a fundo, descobrimos várias irregularidades. Isso gerou uma crise enorme na Alerj.

A aprovação da Lei de Prevenção da Tortura foi uma conquista importante este ano?

Sem dúvidas, uma das mais importantes. Lamentavelmente, a sistemática da tortura predomina no estado do Rio de Janeiro. Criamos um grupo com autonomia para entrar em delegacias e presídios e investigar abusos. A lei segue protocolo da ONU em prevenção à tortura. É a lei mais avançada do País neste assunto.