Sem confronto, partidos da esquerda fazem debate de camaradas

Um debate sem embate. Assim poderia ser resumido o encontro entre os candidatos à presidência da República Ivan Pinheiro (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU) - promovido pelo jornal Brasil de Fato na noite de terça-feira (21). As discussões acaloradas presentes nos debates tradicionais, em que candidatos trocam farpas e acusações, deram lugar a um clima de camaradagem entre os representantes de partidos da esquerda. Isso se deveu em parte pelas regras do debate, que não estimularam perguntas diretas entre os três participantes, mas também pela grande coincidência de pontos de vista.

Na falta de pontos divergentes a serem explorados, as críticas eram direcionadas ao presidente Lula, à "grande imprensa" e aos candidatos ausentes, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Até Plínio de Arruda Sampaio, presidenciável do Psol, entrou na mira por não ter comparecido. "Eu queria apenas lamentar a ausência de Plínio de Arruda Sampaio aqui, que é nosso companheiro, com quem eu quero poder continuar travando lutas socialistas, mas é uma ausência desrespeitosa aos partidos que estão aqui. Ele teve uma opção (de vir) mas não o fez", criticou Ivan Pinheiro durante sua primeira fala.

Com discursos semelhantes, nos quais as palavras preponderantes foram burguesia, imperialismo, capitalismo, reacionário e banqueiros, os candidatos colocaram-se como participantes de uma cruzada em um cenário de Guerra Fria. Eles de um lado. A direita detentora do controle do processo eleitoral de outro. E não faltaram queixas sobre o sistema capitalista e à desigualdade de espaço dado pela mídia e à burguesia. "Está em marcha um plano de diversos setores da burguesia de colocar a esquerda para fora do processso eleitoral. Nós estamos no meio de um estelionato eleitoral", disse Rui Costa Pimenta, que deu como certa a vitória da candidata do governo nessas eleições referindo-se ao "próximo governo da senhora Dilma Rousseff".

A aparente escorregada do representante do Partido da Causa Operária denota o que significa o pleito para esses candidatos: um "papel didático", e não a busca da vitória. "Nós não temos nenhuma ilusão eleitoral, porque não existe nenhuma igualdade de condições", afirmou Ivan Pinheiro. Para Rui Costa Pimenta, a ideia é "ajudar o movimento operário a aprender pela sua própria experiência o que efetivamente está sendo feito a ele no alto escalão do poder". Ou seja, a ideia é ganhar devotos, não votos.

A esquerda e o presidente

De longe, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o mais criticado pelos candidatos da esquerda durante o debate no auditório da Ação Educativa, em São Paulo. "Ele foi eleito com uma expectativa do povo de que ia mudar esse País. Ele foi catapultado ao papel de liderança nacional que é hoje apoiado no sonho da classe trabalhadora", avaliou Zé Maria. "O Lula, no meio do caminho, virou as costas para esse sonho, fez um acordo com os banqueiros, e grandes empresários e está governando com as mesmas prioridades que o governo FHC tinha".

E as políticas sociais? E os programas de transferência de renda implementados? Nem esses encontram palavras elogiosas do candidato do PSTU. "O Lula gastou R$ 11 bilhões com essas famílias e R$ 380 bilhões para fazer o bolsa-banqueiro. Por que não inverteu? Porque a prioridade é a mesma de antes".

Durante o debate, um representante do jornal mexicano La Jornada pediu aos candidatos que avaliassem o governo Lula. A política externa foi o principal mote das respostas. Para Ivan Pinheiro, a política externa do governo Lula é "esperta". "A coisa mais difícil é explicar para a esquerda da América Latina por que fazemos oposição ao governo Lula. No imaginário da esquerda da America Latina o Lula é de esquerda. Isso se dá em função de uma política externa esperta", concluiu o candidato.