No Rio, "ex-Gabeira" faz sucesso entre militares da reserva

Considerado persona non grata nos meios militares durante pelo menos uma década, o candidato do PV ao Governo do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira, ex-guerrilheiro do MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro) foi aplaudido, nesta quarta-feira (22), em palestra no Clube da Aeronáutica, ao defender respeito a legalidade, propriedade privada e liberdade de imprensa, cujos sócios - na maioria da reserva - manifestaram preocupação devido a discursos e iniciativas do Governo Federal. O candidato também defendeu o uso dos aparatos de inteligência militar contra traficantes e milicianos no Estado.

Embora tenha admitido a existência de "processos ameaçadores, inquietantes", Gabeira afirmou que considera o Brasil com "maturidade política" para reagir a esses problemas no "caminho democrático", em resposta ao presidente do Clube da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos Batista, que, referindo-se às Forças Armadas, perguntara: "o que faremos?", após afirmar que "o MST, a UNE etc. ameaçam incendiar o país se a candidata da situação não vencer".

"Nós realmente temos processos ameaçadores, processos inquietantes quando se fala em controle social da mídia, nós sabemos que por baixo dessa expressão exista a censura, a vontade de censurar a imprensa. Nós temos processos inquietantes quando o MST invade uma área e destrói laboratórios de pesquisa (referindo-se à Aracruz, no Espírito Santo), o que no tempo moderno corresponde à queima de livros", afirmou Gabeira.

O candidato acrescentou em seguida, porém, achar "que o Brasil tem maturidade política para superar isso dentro do processo democrático, com bastante tranquilidade. Todas as tentativas de coação da imprensa no Brasil, todos os momentos que Governo tenta (...) a reação é grande por parte das próprias corporações de imprensa e também por órgãos que não são da imprensa, como a OAB. Isso mostra que há uma reação. Só se tentou chegar às vias de fato num determinado momento, com a expulsão de correspondente do New York Times Larry Rother, que a sociedade conseguiu evitar".

Ele também afirmou que o ato contra a imprensa convocado para esta quinta-feira (23) em São Paulo por centrais sindicais, PT e partidos aliados, é "um desserviço à candidatura da Dilma (...) porque desperta medo de censura e alerta os democratas", além de ressaltar que "existe um outro modelo em curso e para o qual nós temos que ficar atentos, da Argentina, onde em vez de prender os donos de jornais, como o Chávez, há uma tentativa de estrangulá-los economicamente".

Erros do passado

"São outros tempos. Já pedimos perdão pelos exageros e pelo demasiado tempo que a intervenção durou, como ele e outros que tiveram determinados ideologias no passado já reconheceram que estiveram colocados errados em suas ideologias na história. Mas aprendemos", afirmou o tenente-brigadeiro Carlos Batista, alegando que "o que aconteceu em 1964 foi exigido pelo povo", em referência à derrubada do então presidente João Goulart que deu início ao regime militar, durando até 1985.

Questionado se achava que Gabeira aprendera, respondeu "acho que sim. As manifestações dele na Câmara dos Deputados são exemplares. O inconformismo com a corrupção, com tudo isso que está acontecendo no cenário nacional, eu gosto muito de assistir às manifestações dele", disse o presidente do Clube da Aeronáutica, em frente, em frente a um cartaz de um sócio, o coronel Reny Ribeiro, que é candidato a deputado estadual pelo PSOL - bem à esquerda de Gabeira.

Apelidado de "ex-Gabeira" justamente pelo candidato do PSOL ao Governo, Jefferson Moura, o verde foi exilado em 1969, após participar do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick - motivo pelo qual até hoje é proibido de entrar nos Estados Unidos. Atualmente, ele se afirma "cada vez mais ex-Gabeira", citando o sequestro como "uma forma de luta repugnante". Nesta quarta-feira, referiu-se ao atual ministro da Comunicação de Lula, Franklin Martins - outro participante do sequestro - como "um ex-companheiro, naquele momento. Não (mais) um companheiro".

Durante a palestra para cerca de 50 pessoas, Fernando Gabeira - vestindo uma camisa florida nada militar - defendeu a utilização do aparato de inteligência militar "já utilizado no campo civil" para combater o tráfico de drogas e as milícias após a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Questionado em seguida, se estava se referindo à expertise usado durante a ditadura militar, confirmou que sim, embora contra outro fim, de combater a criminalidade. "As Forças Armadas nem precisam entrar em confronto, não precisa temer que esteja em desacordo com a lei (que confere às polícias a segurança pública). E a vantagem é que hoje é tudo muito mais avançado em termos de tecnologia", explicou.

"Já me encontrei (com os militares) antes, na campanha de 2008 e fizemos parcerias antes disso, na Amazônia, na Antártida (...) houve uma aproximação, embora eu sempre me mantenha a favor da solução por via democrática", reafirmou, em referência à pergunta do tenente-brigadeiro.