Brossard afirma que "Lula não pode tudo. Não pode partidarizar-se"

Portal Terra

DA REDAÇ O - O ex-senador e ex-ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal (STF), Paulo Brossard, 85 anos, afirma que a ingerência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no processo eleitoral não tem "precedente na história do Brasil". Em entrevista a Terra Magazine, Brossard avalia a participação de Lula na campanha de Dilma Rousseff (PT) e comenta as críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao seu sucessor.

Em entrevista à Rede Mobiliza, do PSDB, FHC afirmou que Lula "virou chefe de uma facção" e o comparou ao líder fascista italiano Benito Mussolini. "Faltou quem freasse o Mussolini. Claro que o Lula não tem nada a ver com ele no sentido específico, mas o estilo, dizer 'eu sou tudo, que quero o poder total', não pode. Alguém tem que parar."

Para Brossard, o objetivo de "extirpar o DEM" da política brasileira, manifestado por Lula, "é um ato ilegal, um ato abusivo".

- O presidente é a autoridade nacional de maior hierarquia. Não pode tudo. Não pode partidarizar-se. É uma autoridade que deve servir à Nação - critica.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o presidente Lula virou "chefe de facção" e comparou a Mussolini, na Itália. O senhor identifica em Lula o desejo de um "poder total"?

Paulo Brossard - O que posso dizer é que não há precedente na história do Brasil. O presidente da República nunca chefiou a campanha de um candidato. Ele pode influir de uma maneira ou de outra. Agora tivemos um presidente que escolheu seu candidato, no caso uma candidata, e não contente com isso, está chefiando a campanha. Pela lei, pelo estatuto partidário, é a convenção que decide. Só depois que se ratificou a escolha.

Lula extrapolou os limites da lei?

A lei não dá esse poder. É o contrário. O presidente é uma autoridade nacional, não é líder de uma facção.

Ele devia ser o mediador do processo eleitoral?

Em verdade, ele não tem essa interferência. Em 1930, houve uma revolução porque Washington Luiz consultou os governadores dos Estados e encaminhou a solução do (Júlio) Prestes. Houve uma revolução contra esse abuso. E 80 anos depois vemos isso de novo.

Há a perspectiva de que a oposição saia fragilizada das urnas. Houve um excesso de êxitos de Lula ou a oposição não soube atuar?

Não vou opinar sobre isso.

Como o senhor avalia a declação do presidente da República, de que pretende "extirpar o DEM" da política brasileira?

O presidente não tem essa competência. É um ato ilegal, um ato abusivo. Os partidos existem na medida em que eles atendem aos requisitos do Código Eleitoral e segundo a Justiça Eleitoral. O presidente é a autoridade nacional de maior hierarquia. Não pode tudo. Não pode partidarizar-se. É uma autoridade que deve servir à Nação.

O ex-governador Cláudio Lembo disse que, após as urnas, não haverá mais partidos, apenas um movimento social liderado por Lula. O que o senhor pensa?

Não faço futurologia. Não sei o que vem depois das urnas. Mas o presidente não tem autoridade legal pra fazer isso. É incompatível. A expressão consagrada é "primeiro magistrado da Nação". Não pode liderar facção.