Dona Canô: "Lula não me ligou. Voto em quem eu quiser"

Claudio Leal, Portal Terra

DA REDAÇ O - Uma falha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode representar a perda de uma eleitora fiel. A um mês das eleições, o padrinho de Dilma Rousseff (PT) não telefonou para a mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, em busca do apoio da centenária amiga de Santo Amaro da Purificação (BA). "Ele não me pediu nenhum voto. Não tenho obrigação de votar. Voto em quem eu quiser", avisa Dona Canô, 102 anos, em entrevista por telefone a Terra Magazine.

Em novembro de 2009, Claudionor Viana Teles Veloso ganhou um telefonema do presidente Lula, para garantir a permanência da amizade, depois de uma polêmica entrevista de Caetano. "Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla. É inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro", declarou o compositor ao "Estado de S. Paulo".

A matriarca de Santo Amaro reprovou os adjetivos usados pelo filho, mas não se esqueceu de dar chineladas nos repórteres. "Não aprovei o que Caetano disse, ele não é analfabeto... Os jornalistas gostam muito de polêmica. Eu nem dou confiança. Eles ficam explorando, explorando, explorando...", ralhou Canô, que completa 103 anos em 15 de setembro.

Nesta segunda-feira, 6, a mãe de Caetano e Bethânia recebeu uma visita do governador da Bahia e candidato à reeleição, Jaques Wagner. O petista se curvou à cadeirinha fincada no umbral dos Veloso e ganhou a valiosa bênção. Mas uma dúvida corre os trilhos urbanos do Recôncavo baiano: quem ganhará o voto de Canô para a presidência da República?

Liberada pelo esquecimento de Lula, ela não revela o número a ser digitado na urna eletrônica. "Tô com muito medo. Principalmente se for uma mulher", admite. Prefere não comentar o apoio dos rebentos a Marina Silva (PV). "Olha, eu não tenho nada com as coisas que meus filhos fazem", corta. Para a matriarca, que se recupera de uma fissura no fêmur, é necessário ter "coragem" no Planalto.

Admiradora do ex-governador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), incapaz de perder suas novenas, Canô evita compará-lo a Lula ou a qualquer descendente. "Ninguém supera ACM. Nem o filho, nem o neto, ninguém! Ele é único. Porque o bem que ele queria à Bahia não dependia de ninguém", reage.

Na linha, Dona Canô.

Terra Magazine - A senhora se encontrou com o governador Jaques Wagner?

Dona Canô - Encontrei, não. Ele veio a nossa casa.

Ele lhe prometeu um encontro com Lula?

Não me prometeu nada. Ele sentou, nem deu tempo de conversar, porque a turma estava na porta a gritar, gritar... Depois foi-se embora.

Nenhuma conversa aprofundada?

Ficou o pessoal aglomerado pra ver ele. Ele falou comigo e depois foi embora, o pessoal já estava chamando.

A senhora apoia Wagner para o governo?

Pra ele ser reeleito? Eu acho que devia ser. Porque ele não começou a fazer, quando começar a fazer já vai terminar, entendeu?

Wagner superou ACM no governo?

Não. Ninguém. Isso aí é conversa fiada. Ninguém supera ACM. Nem o filho, nem o neto, ninguém! Ele é único. Porque o bem que ele queria à Bahia não dependia de ninguém.

A senhora era muito amiga dele?

Era. Graças a Deus!

Mas já levou, pra mesma missa, em Santo Amaro, os adversários ACM e Waldir Pires.

Aquele que foi governador?

Isso.

Também era meu amigo. Nós nos conhecemos há muito tempo.

E Lula? A senhora apoia a candidata dele?

Ele não me pediu nenhum voto. Não tenho obrigação de votar. Voto em quem eu quiser. Quero muito bem a todos, mas não me leva assim, não.

Como a senhora vê a candidatura de Dilma?

Bom. Vamos ver, né? Mulher ainda não tem esse direito, talvez seja a primeira. Se ela fizer o que tem na cabeça e o que precisa fazer, não precisa melhor.

Agora, seus dois filhos, Caetano e Bethânia, apoiam Marina Silva...

Olhe, eu não tenho nada com as coisas que meus filhos fazem. A não ser que seja algum mal. Mas, quando for pra bem, não sou contra, não. Eles querem, eles acham que deve ser, pronto.

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