Tarso Genro ironiza José Fogaça que diz ser de centro-esquerda

Flavia Bemfica, Portal Terra

PORTO ALEGRE - O Rio Grande do Sul tem fama de ser o Estado onde, da política ao futebol, os grupos estabelecem com clareza a linha divisória que os separam. Gaúchos gostam de lembrar que sempre tomam posição e, para reforçar a tese, enumeram exemplos: foram farroupilhas ou imperiais, chimangos ou maragatos; são Internacional ou Grêmio, de direita ou de esquerda, petistas ou antipetistas. Mas, neste ano, as negociações entre os partidos estão deixando a população um tanto confusa para a eleição.

Os fatos: no Rio Grande do Sul PT e PMDB protagonizam há anos disputas eleitorais e, nestas eleições estaduais, o petista Tarso Genro e o peemedebista José Fogaça estão na corrida ao governo como favoritos.

A direção do PMDB gaúcho decidiu ficar neutra quanto a disputa presidencial, apesar de o partido ter indicado seu presidente nacional, o deputado Michel Temer, para vice na chapa da petista Dilma Rousseff. Agora os prefeitos do PMDB gaúcho vão apoiar Dilma, via Temer, de quem a cúpula peemedebista do Estado sempre manteve distância. Só que quase todos os deputados do partido fecharam com o candidato do PSDB à presidência, José Serra.

Para a disputa ao governo, o PMDB está aliado ao PDT, que indicou o vice na chapa, o deputado federal Pompeo de Mattos. O PDT, por sua vez, na eleição presidencial apoia Dilma. E, na eleição estadual, abriu uma dissidência em favor de Genro, liderada pelo ex-governador pedetista Alceu Collares.

O PT tem como principais aliados para a disputa ao governo o PSB e o PCdoB. O PMDB recebeu o apoio da cúpula do DEM, que não tem candidato próprio. Apesar disso, a quase totalidade dos prefeitos do DEM oficializou seu apoio à governadora Yeda Crusius (PSDB), que tenta a reeleição.

O vice na atual gestão de Yeda, Paulo Afonso Feijó, é do DEM, mas, durante este governo, tornou-se adversário da tucana e, por isso, suas legendas não renovaram a coligação. Já Yeda é do partido de Serra. Mas, quando vem ao Rio Grande do Sul, o tucano opta por agendas rápidas ao lado dela, e expressa clara inclinação pelo candidato do PMDB.

Fogaça insiste na neutralidade e não poupa elogios nem a Serra e nem a Dilma. Na eleição estadual, ele tem ainda a simpatia de uma ala do PP. Oficialmente, o PP está coligado com o PSDB no Estado. Na eleição presidencial o PP gaúcho está com Serra, apesar de o diretório nacional ter tirado posição de apoio a Dilma.

Dentro do cenário regional Genro, de esquerda, ressalta, ter "o apoio de forças de centro", o que o coloca, no espectro político, como de centro-esquerda. Fogaça também assegura ser de centro-esquerda. Genro ironiza. "Só se ele começou ontem. As propostas do Fogaça são as de Antônio Britto (ex-governador pelo PMDB) e de FHC, que são o lado onde ele sempre esteve. As minhas são aquelas vinculadas ao governo Lula".

Fogaça devolve: "O conteúdo histórico do PMDB sempre foi este, reformista dogmático. Estamos vivendo a era das clivagens. Tudo tem intersecção. Continua havendo esquerda e direita, só que ninguém consegue mais governar e traçar uma linha intransponível".

Para além da teoria e dos apoios cruzados, há quem se pergunte se terminou a histórica polarização no Estado. Os especialistas asseguram que ela continua e vai dominar o segundo turno, só que não como acontecia há duas décadas. "A polarização continua existindo, só que o eleitor - e isso se traduz na posição de lideranças regionais, como prefeitos - faz hoje um cálculo racional, no sentido econômico, de avaliar o que mais lhe convém, independente dos partidos", assinala o cientista político e professor da Universidade Federal do RS, Benedito Tadeu César.

"O que está em jogo já é o segundo turno", completa o cientista político André Marenco, também da Ufrgs. Segundo ele, a busca por apoios de outros partidos, as vezes adversários, adianta a "costura" que os candidatos tentam fazer em uma eleição que, como sempre ocorre no Rio Grande do Sul, é muito competitiva. "Continuamos sim chimangos e maragatos", resume Marenco.