Quando é perigoso trabalhar

Se raramente são concluídos os inquéritos sobre os acidentes industriais mais graves de que o país toma conhecimento, e esta é uma constatação facilmente confirmada por fatos recentes, conclui-se que há necessidade de um trabalho preventivo capaz de evitá-los ou minimizar seus efeitos nocivos. Uma fiscalização que não se deixe levar por influências externas permitirá, sem dúvida, reduzir sensivelmente a possibilidade de ocorrências desagradáveis, sobretudo as que, além de prejuízos materiais, colocam em risco a vida de centenas de pessoas. Claríssimo.

Os acidentes em usinas e barragens, quaisquer que sejam suas consequências e extensão, têm sido facilmente esquecidos pelos órgãos de fiscalização do governo, que se contentam com demoradas e inconclusas perícias, escondidas nos infindáveis relatórios, que primam por concluir coisa alguma, não denunciam responsabilidades e raramente sugerem punir culpados. Não tem sido outro o destino de barragens precariamente conservadas, que vazam, destroem, matam, e tudo acaba caindo no esquecimento dos políticos e da Justiça. Ou passam a ser tratadas como fatalidade. Do caso de Mariana resultaram óbitos e grave comprometimento do Rio Doce. Essa tragédia ambiental repercutiu em todo o mundo, enquanto, entre nós, o assunto era tratado em banho-maria, nas longas démarches pelos expedientes dos tribunais.

Na semana passada foi a vez de a Usiminas voltar ao noticiário, quando explodiu uma unidade de gasômetro. Não pode passar despercebido que a empresa tem sido cenário de graves acidentes; nada menos de quatro em cinco anos, um volume de ocorrências que permite acreditar que seus recursos de segurança caducaram ou primam pela negligência. Seja como for, há um crime a considerar. Preciso atentar, contudo, que as responsabilidades e as muitas críticas devem se estender, igualmente, ao governo mineiro, que há tempos prefere tolerar os riscos a que são submetidas as populações vizinhas.

No mesmo estado, em Barraginha, caso igualmente condenado ao esquecimento, ocorreu em 1992 o deslizamento de terreno industrial, causando a morte de 37 pessoas. Esses e outros acidentes, que se espalham por todo o país, teriam sido evitados se o poder público fosse eficiente na cobrança de medidas preventivas e cuidasse, ele próprio, de assumir rigorosa fiscalização. Sem que faltasse uma cota convenientemente confiada ao Ministério do Trabalho, porque nos acidentes de grande monta os operários são os primeiros a expor a vida.

No mapa dos acidentes não é preciso maior esforço para se saber que mais de 80% deles ocorrem em ambiente de trabalho. Os números preocupam, e é interessante notar que a gravidade do problema é reconhecida e divulgada pelo próprio ministério da área, onde funciona um Observatório Digital de Saúde e Segurança. É dali que se extrai uma  informação preocupante: nos últimos seis anos ocorre um acidente com trabalhador sempre que o relógio anda 48 segundos. Não são oferecidas comparações com outros países, mas certamente estamos entre os primeiros nessa estatística.

Os especialistas que tratam da matéria, como o mineiro Ricardo Freitas Guimarães, acordam em que precisamos de políticas mais ambiciosas na prevenção de acidentes. E vale ressaltar que as preocupações nesse campo, quando resultam em alguma iniciativa, muitas vezes ignoram as atividades laborais onde elas se submetem a frequentes perigos. Estão nesse caso os operários que atuam em usinas e barragens.