Espaço para o centro

Com base em indicativos de o futuro político do país poder estar caminhando, a passos largos, para a polarização entre direita e esquerda, nas eleições majoritária e proporcional de outubro, grupos que pretendem distanciar-se dos extremos vão se sentindo estimulados a propor ao eleitorado um projeto que se defina como de centro. Que seja um ideário de proposições claras, para que tal opção não se afigure como fuga ou indisposição para polemizar, ante as grandes e graves questões nacionais. Antes de tudo mais, há que se cobrar de seus proponentes objetividade. 

Projetos semelhantes nunca faltaram, mas quase sempre com o defeito de não se vestirem de suficiente clareza; uma certa vocação para passar ao largo de questões capazes de suscitar polarizações. Persistir nesse modelo seria optar por desservir ao país, num momento como este, em que é indispensável assumir rumos e atitudes. A bandeira do não se comprometer, patrimônio do velho raposismo, já não tem mais espaço, a não ser nas páginas do folclore político. 

Se, na essência, a vocação do centro é extrair experiências de pensamentos e propostas de segmentos diversos, nem por isso poderia dispensar caminhos novos, mas exigi-los. Estes tornam-se indispensáveis. Impõem-se novidades criativas compatíveis com os novos tempos. Nesse particular, já não seria bastante a receita prescrita por Amaral Peixoto nos idos de 45, neste Rio de Janeiro, ao explicar o centrismo do nascente PSD: a receita era tirar da direita o que ela tem de esquerda, e tirar da esquerda o que ela tem de direita... 

Admissível só naquela época, pois acabávamos de sair de uma ditadura que, em contraposição, inflara o comunismo romântico de Prestes, jogando o país a antagonismos que não estavam bem definidos. Hoje o panorama, com suas diferenças, está a cobrar propostas políticas sem evasivas. Para justificar tal convicção, reconheça-se que, no oposto, as correntes polarizadas já não se escondem.  

O possível confronto entre os extremos é uma sedução para os que a eles não aderem, e anseiam apenas por tirar proveito dos estilhaços da refrega, se perceberem que avulta entre os eleitores o temor frente à radicalização. O que não encontraria justificativa é a lamentável tendência, já percebida entre simpatizantes, de adotar água morna, se a eleição de outubro for condenada a se dividir entre o gelo e a fervura.

Por estar no centro, não significa que os adeptos e os partidos que ali se situarem sintam-se isentos de adotar atitudes corajosas. Para não ir além de um exemplo, cita-se a imperiosa necessidade de se denunciar o crime que os bancos praticam contra o Brasil e contra a economia produtiva. Monstros insaciáveis que avançam, reincidem e esfolam os brasileiros sem piedade. 

É uma luta vigorosa, que exige coragem e independência, o que já deixou claro não ser tarefa adequada aos interesses dos partidos tradicionalmente comprometidos, sejam de direita ou de esquerda. Os centristas certamente não estariam sob suspeitas ideológicas ao tentar ferir tão grave problema. 

Assim como está o Brasil a exigir iniciativas para derrubar a ditadura com que os bancos sobrecarregam as finanças, não menos importante seria alinhavar soluções para o combate à violência. Também aí, que sejam alternativas às propostas de direita e esquerda. 

Sob a égide do regime democrático há espaço para todas as tendências e ideias, principalmente quando inovadoras. Para os grupos de centro também, se não se tornarem apenas bandeira de escapismo e de tibieza.